domingo, abril 28, 2013

Estágio Prolongado

Hoje é, literalmente, um dia para avalizar todos os erros cometidos no passado. Deu-me para isto e sabe-se lá porquê. E a lista é infindável. Diria que desde o dia que tomei a primeira decisão, que não mais parou a sucessão de enganos, avaliações incorrectas, deliberações mal tomadas, arrependimentos, sei mais lá o quê!


Em muitos casos, desejei e desejo voltar atrás, retornar, apagar, emendar, pedir desculpas, tomar outro caminho, mas o mal estava feito e foi (quase) sempre irremediável. Restava-me, apenas, arcar com as consequências e tentar seguir em frente, esperando, mais uma vez, que no futuro tenha a capacidade e estrutura para ser mais ponderado e responsável. 


Diria que o rótulo deste vinho, que vai acompanhando este emaranhado de pensamentos sem fim, é reflexo da (minha) vida. Tingindo, borrado e manchado. O que vale, para bem de todos os meus pecados, é que o vinho que está dentro da garrafa tem mais e bem melhores qualidades que este pobre tipo que está a bater com os dedos nas teclas. Um vinho que servirá, hoje, para aquietar muitas mágoas.


quinta-feira, abril 25, 2013

JPR: Alvarinho, Estremus e O.Leucura

Vai ser complicado falar sobre o assunto, sobre o sucedido. Quem o fizer terá que ter peito, estrutura, habilidade e capacidade para o fazer. O momento, os vinhos e a comida assim solicitam.



E começar por onde? Sei lá. Espaço e enquadramento que, logo à entrada, faziam antever a importância da coisa.






Timidamente se vai quebrando o protocolo. O vinho assim proporciona. E ainda bem. Come-se aqui, pica-se acolá, até assentar praça no lugar estipulado.
Começa, então, o chorrilho de novidades. Um Alvarinho. Simplesmente um Alvarinho. Um branco refinado, com requinte, que parecia querer confirmar, logo ali, as expectativas iniciais. Decididamente marcante.



Surge um tinto, alentejano, que segundo o rótulo se chama Estremus. Parece que é aquele vinho, segundo se dizia aos cochichos. Poderoso, tenso e envolvente. Pouco imediato (e ainda bem).



E lá se continuava. Avisavam, lá do canto, que iriam aparecer dois vinhos do Douro, com o mesmo nome, mas possuidores de características que os distinguia, que os marcava indelevelmente. Um vindo de parcelas de vinha alojadas a 200 metros de altitude, o outro tinha origem em parcelas de vinha situadas a 400 metros de altitude.




O primeiro, naturalmente, mais quente, com mais fruta, amplo e mais gordo. O segundo, presumivelmente, mais fresco, mais airoso, mais perfumado, mais feminino. Está-se, por isso a ver, para onde caíram as minhas preferências.
E apesar da noite caminhar a passos largos para o desenlace, é-nos apresentado o novo Vintage de 2011, que segundo consta é capaz de ser de ano clássico. Mas isso serão temas para gente que sabe, não para mim.



E que dizer mais? Um Vintage novo, escuro, com fruta fresca, saboroso e sei lá mais o quê. Um vício. Depois disto, aconteceram mais estórias, mas não contam para aqui.

terça-feira, abril 23, 2013

A Descoberta

Descobrir é encontrar, é evoluir. Descobrir é crescer, desconstruir, revelar insatisfação. Descobrir é viver, continuar a viver. Descobrir é constatar que (quase) nada se sabe.


Descobrir é sentir que somos efémeros, frágeis e que o universo é incomensuravelmente maior.  Descobrir...


Mesmo resignados pela crueza da vida, ambicionamos, secretamente, descobrir um caminho, uma outra possibilidade, outra alternativa. 


No fundo, e mesmo à beira do fim, desejamos querer continuar a descobrir. Queremos encontrar aquela essência que possa trazer-nos felicidade, muita felicidade e que seja de uma vez por todas.

sábado, abril 20, 2013

Domingos Soares Franco: Verdelho

Mereço, parece-me, uma palavra de agradecimento da vossa parte ;) Olhei para o registo de actividade, aqui, neste blog que vocês tanto adoram, eu sei disso ;) , e constatei que estou inactivo desde terça-feira, o que quer dizer que não vos maço algum tempo. Terão sido, certamente, dias que apreciaram devidamente. Estou certo disso.



E chegados a sexta-feira, o tal dia que o povo deseja, para poder cair na borga, no desregro, no exagero. Com a comida e bebida a rolarem em ritmo acelerado e em quantidade. 


E por que os dias estão quentes, o desejo pelos brancos aumenta exponencialmente. Legumes, peixe, saladas, temperos ligeiros e vinho branco. Muito vinho branco. E depois de ter começado a série com este vinho, continuo a saga Colecção Privada Domingos Soares Franco.



E este Verdelho surge-nos intenso e tenso, fino e longo. Perfumado com impressões vegetais, com a fruta domada, evitando que este vinho se torne chato e monótono. Um branco que liberta bons cheiros, que larga pela boca sabores frescos e refrescantes. E porque já falei de mais, já botei prosa a mais, resta-me, em jeito de súmula, dizer que é vinho para repetir. Sem dúvida.

Post Scriptum: O Vinho foi oferecido pelo Produtor.

terça-feira, abril 16, 2013

Domingos Soares Franco: Grüner Veltliner, Rabigato e Viognier

Mas quem se lembraria de enfiar numa garrafa três castas com os nomes de Grüner Veltliner, Rabigato e Viognier? Só Domingos Soares Franco, no meio das suas deambulações enológicas, poderia idealizar tal coisa. Digamos que, salvo erro de memória ou de conhecimento, será única esta experimental miscelânea. 


O vinho, vejam o desplante, possui somente 11,5 de graduação alcoólica. É, apesar dos pedidos, facto raro. E apesar de amputado de graduação, o vinho surge-nos com uma porrada de aromas ácidos, intensamente frescos, crocantes e penetrantes. Sabores que limpam a boca, que a refrescam com uma enorme carrada de sugestões de fruta cítrica. 


É, afinal, um branco personalizado, quase incomparável e provavelmente inexistente. É vinho que pode deixar-nos, eventualmente, sem palavras pela forma leve e pouco pesada com que se apresenta. E depois disto, vou regressar para o vinho que está a saber muito bem.

Post Scriptum: O Vinho foi oferecido pelo Produtor.

segunda-feira, abril 15, 2013

1983

Em jeito de preparação para a semana que, segundo o calendário, começa hoje, organizam-se os instrumentos de trabalho, arruma-se a maleta, verificam-se alguns papéis, passam-se os olhos por entre decretos massudos, pesados e densos, confusos e sem sentido. São coisas de um país que já não existe, habitado por pessoas que não existem.


No meio de tal emaranhado de articulados legais, bem perturbadores, vai-se pensando ainda no que fazer, no que decidir para o futuro. E nada de suficientemente razoável se afigura. Pressente-se que a semana vindoira, trará mais semanas de semblante taciturno.   


Ainda assim, e porque o vinho sugere-se, passam pela frente memórias com trinta anos. Caramba, o tempo passa e passa com enorme velocidade. Trinta anos passaram e a vida na altura, a esta distância, era bem diferente. Talvez como este vinho. Especulo. 


E o vinho, talvez contra todas as expectativas, sobreviveu a três dezenas de anos. Passou por várias mãos, viveu em diferentes espaços. Ultrapassou estações do ano. Resistiu ao frio, ao calor, à chuva, à pobreza constante e à riqueza ilusória. E assim do nada, relembrei que, em mil novecentos e oitenta e três, sofria as amarguras do primeiro amor de adolescente (não correspondido). E acreditem que, para um jovem imberbe, tímido, acanhado e desastrado, não foi fácil. Não foi nada fácil.

sábado, abril 13, 2013

Monte da Ravasqueira: Final de Tarde

Hoje houve sol. Parecia um dia diferente, uma terra diferente. Parecia dar ideia que estaríamos numa realidade menos amarga, mais doce, menos angular, mais suave. As pessoas, na rua, pareciam ter-se multiplicado vezes sem conta. Observei pávido para o enxame. Fui mirando os movimentos, os gestos, as expressões. 


Mas tudo parecia artificial, mecânico, pouco genuíno, pouco espontâneo. Terão as pessoas perdido o sentido de estar, de viver? De qualquer maneira, havia sol. 


Virei costas às vistas, e de trouxa no lombo, retornei a casa. Roupa de função para o lado, sapatos perdidos pelos cantos, e sem nada planeado refastelo-me algures numa cadeira e vou bebendo vinho que o final da tarde, apesar de bucólico, assim pedia. 


Aproveita-se, ainda, para esperar pela vianda da noite. E enquanto não vem, bebe-se mais um copo, que hoje não quero fazer nada. Vou simplesmente olhar, do meu quintal, para um pequeno monte que está acolá.

Post Scriptum: O Vinho que lustra o Post foi oferecido pelo Produtor.

quinta-feira, abril 11, 2013

Hexagon

Lá fora, começou a chover. Novamente. Este ano, em jeito de compensação, tem caído mais água que no ano passado. Dizem, agora, que é demais e que vai estragar o que há e o que não há.  
Hoje, contrariando o passado recente, apetece-me escrever, palrar, meter conversa, dizer disparates, tolices, entreter-vos, tentando animar, mais uma vez, a comunidade, que anda dormente. Mas, infelizmente e apesar da férrea vontade, não tenho grande assunto para vos trazer. Na verdade, parece-me que não tenho nada para falar. E com este vai não vai, diz que não diz, vejo-me embrenhado por entre um rendilhado discursivo que ninguém, por certo, entenderá.


E hoje, até gostava que cada palavra largada, por mim, emocionasse, cativasse, porque o vinho que tenho em mãos assim o merece. Merece que se diga muito, que se fale muito, que se escreva sei lá mais o quê. Mas não consigo: risco, rabisco, escrevo e reescrevo. Detenho-me, por isso, a olhar para o rótulo e para o nome: hexágono e que é, por sinal, regular. Em cada lado do polígono aparece uma casta. São seis.


E olhando para cima, vejo que nada saiu com interesse. Maldita condição humana que embaralha mais do que desembaralha. Opto, apenas, por bebericar, por beber, por desfrutar até que a garrafa esvazie e volte, no fim, a olhar lá para fora. Deverá estar, ainda, a chover...

Post Scriptum: O Vinho foi oferecido pelo Produtor.

terça-feira, abril 09, 2013

António Saramago

Sinto-me obrigado a dizer qualquer coisa, mas na verdade não sei o que dizer. Acho que ao dizer qualquer coisa sobre o vinho ou sobre o homem, vai soar a pedantismo, a lugar comum, a subserviência bacoca. Tal figura e vinho não necessitam e nem merecem. Na verdade, não precisam de qualquer elogio da minha parte. Ele é, o referido elogio, dispensável.





Por isso, antes de avançar com mais asneiras, com mais tiradas provincianas, basta-me dizer o seguinte: O vinho é bom. O vinho é muito bom. O vinho é fresco. O vinho soube bem. O vinho soube muito bem. O vinho está carregado de elegância, de complexidade. E, caramba, custa menos de dez euros. E a garrafa, como deverão desconfiar, acabou por ficar cheia de ar o que, por si só, é revelador da qualidade do vinho. E tenho dito.

Post Scriptum: Peço que não olhem para o que está em segundo plano. Todo o cenário é parco em cores, prosaico e reporta para os idos anos 70 do século passado. Basicamente uma mesa, de refeição, comum a tantas outras. Sem grandes luxos, sem grandes cuidados.

segunda-feira, abril 08, 2013

Amável Vinho

Por entre tantas recomendações que já fiz, neste escaparate, sinto a necessidade pública de divulgar um blog. Discreto, por certo, que não será, nem é, uma opção de leitura da fileira de blogueiros e seus adoradores, que não estará, julgo eu, nos lugares cimeiros dos diversos rankings contabilísticos que todos gostamos de apreciar e aproveitar, consoante o interesse e posição que ocupamos.
Um blog que se pauta por uma abordagem completamente diferente do status dominante, seja ele qual for, e espero que assim continue, para bem daqueles que gostam de ler coisas diferentes.


Não vejo lá amostras, não observo vinhos da moda, não descortino vinhos de elevado pedigree e não parece que o autor esteja preocupado com tais assuntos. Vai escrevendo, em jeito de libertação, em jeito de reflexão pessoal. Há diversão pura, não encapotada. Gosto quando ele diz acerca de dois vinhos: "sem os farejar, sem esquadrinhar, bebi-os. Não escrevi sobre eles uma palavra, fosse compreensível ou delírio. Portanto, bebi-os e, de certa forma, perdi-os." Perante isto, resta-me dizer que afinal anda por aí mais alguém que alinha pelo meu diapasão.

sábado, abril 06, 2013

FTP: Picos do Couto

No acto decisório, correm-se enormes riscos que, cobertos por variáveis incontroladas, poderão originar um rotundo fracasso. Costuma-se dizer que antes de começar, não se sabe, depois de começar já é tarde mais. É basicamente a Vida. E ela é um imbróglio do caraças.



Sem perder tempo demasiado em mais considerandos, digo-vos que, apesar de tentar conhecer, interpretar os vinhos do Dão, a sua região, as suas idiossincrasias, há ainda produtores que apenas conheço pelo nome. A FTP Vinhos é uma delas. Empresa que tem a sua base operacional em Penalva do Castelo. 
Este Picos do Couto, que será eventualmente, uma segunda linha, uma abordagem diferente do Quinta do Serrado. Foi também na Quinta Picos do Couto que, nos início dos anos 90, se deu início à produção de vinhos da FTP.



Continuando, esmiuçando mais um pouco, digo-vos que este Reserva 2011, é um vinho de e com carácter. Com personalidade, com estilo. Diria, até, que será algo desviante, pouco moderno. Pareceu ter estilo seco, ácido, com uma salinidade desconcertante. Um vinho que parece ou parecia ter arcaboiço para evoluir, para amadurecer com muita dignidade. Posto isto, e já que a ladainha de hoje vai longa, atrevo-me a dizer que este branco merece ser divulgado, conhecido e acima de tudo consumido.

sexta-feira, abril 05, 2013

Fonte da Serrana: Branco 2012

Upgrade na gama Fonte da Serrana, do produtor Monte da Ravasqueira, com o lançamento de um vinho branco arquitectado com as castas Antão Vaz e Arinto.


Vinho de largo espectro, caracterizado por deter fruta em quantidade, de perfil exuberante, com boa tensão, focado num consumo multifacetado, sendo, por isso, capaz de agradar a muita gente. 


Que se consuma, portanto, em ocasiões como churrascos, lanches, petiscadas ou durante uma boa conversa. É basicamente um vinho adaptado a tudo e mais alguma coisa. E quando assim é, parece-me ser aposta ganha.

Post Scriptum: O Vinho foi oferecido pelo Produtor.

quinta-feira, abril 04, 2013

A Falta de Visão Local

Em período em que pouco tenho para dizer, para animar as hostes, com as coisas ciclicamente a caírem no vai não vai, em que nada acontece, em que se boceja vezes sem conta, dou comigo com um piqueno pensamento a matutar na cabeça.


Numa altura em que estamos atravessar uma grave crise económica social e cultural, em que toda a sociedade, nos mais diversos vectores, tenta encontrar soluções para criar sinergias, alianças, para combater a falta de dinheiro, a falta de investimento, a falta de sabe-se lá mais o quê, faz enorme impressão (a mim), como determinados concelhos do interior, que caminham para uma acentuada desertificação, para o esquecimento, para o desequilibrio social, para um desmantelamento económico, impossível de recuperar, não conseguem aproveitar e potenciar determinados recursos naturais, históricos e culturais, e a lista pode ser extensa, que possuem.
Pegando em exemplos mais concretos, e como cidadão originário de uma certa parte da beira, faz  impressão como é que autarquias como Gouveia e Seia não aproveitam um capital tão importante como o vinho do Dão, aliando-se com os seus produtores, alavancando as tais sinergias, fomentando o turismo, o eno-turismo, o comércio em redor do vinho, trazendo gente, mais gente, novas gentes.


A ausência de qualquer actividade em redor deste sector é, permitem-me o abuso de linguagem, indecoroso e ofensivo para um território detentor de um patrinómio tão relevante como o vinho do Dão, sendo o terroir de Vila Nova de Tazem incontornável nesta matéria, para  ser deixado ao deus dará. Pergunto, a mim próprio, se os responsáveis politicos tem noção o que determinados enclaves do seu território andam a fazer para divulgar, promover aspectos relevantes da cultura local? Apraz-me dizer, por isso, que a única ligação ao vinho são, em certos aspectos, uns meros cachos de uvas nos brasões das bandeiras de alguns municípios. O resto são hologramas. Nada existe. E tenho dito.

terça-feira, abril 02, 2013

Quinta dos Carvalhais: Para Recordar

O interesse deste post servirá, por certo, apenas ao um por cento de loucos do vinho. Interessará aos que acham graça, piada, que dão valor a pequenas notas, a pequenos apontamentos sobre vinhos que não existem, que não se tem conhecimento, que estão longe do pensamento de cada um desses loucos do vinho.






Em dia, não muito distante, e enquanto calcorreava o chão da Quinta dos Carvalhais, é-se surpreendido no meio de uma biblioteca de barricas, com vinhos que jamais suponha existir. Autênticos volumes raros, guardados numa ala especial. Havia por ali qualquer coisa de exclusivo, de tese, de ensaio. 

Local onde se encontram os compêndios mais raros.
Loureiro de 2004
Verdelho de 2006
Encruzado de 2005
Jamais pensaria que estivessem guardados, sigilosamente arrumados lotes, de Loureiro, de Verdelho, de Encruzado, com respeitosas idades. Idades que apontariam, por certo, para alguma decadência, para alguma senilidade. 




Desde o Loureiro, da colheita de 2004, passando pelo Encruzado, um ano mais novo, terminando no jovem Verdelho de 2006, foi-se confrontado com um conjunto de cheiros e de sabores que ultrapassavam qualquer sensação de decrepitude. Vinhos de antologia, vinhos de espanto, vinhos de contemplação. Vinhos para ficarem retidos na memória e recordar sempre que possível.