quinta-feira, setembro 29, 2011

Na voz dos Deuses

O titulo do sermão de hoje deriva de uma obra manuscrita pelo saudoso João Aguiar. Cativa pela sua simplicidade, pela ligeireza da prosa. De forma resumida, o enredo anda à volta de Tongio, filho de um brácaro com uma mulher de Cineticum, companheiro de Viriato e das suas demandas contra os romanos.
Estarão, neste momento, meio estonteados, os leitores desta novela pinguesca com tamanha e rebuscada entrada. Fácil de explicar.
O vinho, como disse mais que uma vez, catalisa todo um processo de desmontagem e de confrontação pessoal. Quebra regras, liberta pensamentos, destapa um homem. Torna-nos em algo que não somos, mas que cobiçamos ser.

Alma andante, sem terra, e sem rumo, julgo ser, em momentos de ebriedade, personagem principal de uma história de fantasia, onde a realidade se mistura com a irrealidade. Ou, de forma mais contida, recordo momentos vividos.
O pior advém quando termina, depois, tudo de forma abrupta e dorida, restando, somente, a alegria de ter sido alguém que não sou. Ou ter voltado a viver, outra vez, episódios de uma história amputada de sentido.
Tongio, durante a odisseia, tenta perceber quem é, de facto, e qual o papel que lhe fora destinado. O mundo estava a mudar. Faria sentido vasculhar o passado de seu pai? O que lá vai, lá vai...

terça-feira, setembro 27, 2011

Por favor ou sem favor?

Sem autorização do autor, mas com as devidas vénias a quem de direito, reparei no seguinte comentário que transcrevo aqui na dimensão da blogoesfera: "Os Desafios da Adega organizam visitas a produtores de vinho. Todos os participantes pagam o preço que o produtor pede e muitas vezes ainda compram várias garrafas de vinho (e outros produtos à venda). Além disso fazem-se vários posts na internet sobre o evento e o produtor, além de algum buzz no Twitter e no Facebook durante o próprio evento.
E depois disto tudo ainda tenho de andar eu a correr atrás dos produtores para eles ganharem dinheiro! E depois ainda se queixam que o IVA a 23% vai dar cabo do sector do vinho.
Pois..."
Pois Diogo Rodrigues, neste mundo global e globalizante, sem paredes a marcar domínios destes ou daqueles, não há que pedir por favor a ninguém, e muito menos de joelhos, quando se paga por um serviço que foi ajustado, decidido por quem o presta. Ou se quer ou não se quer. Ou se recebe ou não se recebe. Não há nim.

Vai-se a uma feira, a um mercado, a uma loja, a uma quinta ou herdade, sei lá mais onde, e é-se confrontado, bastas vezes, com o frete de quem atende ou recebe. Ele é visível e ostensivo, sem qualquer preocupação para esconder o quer que fosse. É fácíl, por isso, prever o pensamento mais recôndito de tais personagens:  palavrear com a populaça.
Basta não ser amigo de alguém, proprietário, comercial ou enólogo, e fica-se tramado. Até por aqui, o factor cunha, domina a bel-prazer.
E Rodrigo, já ia esquecendo, cada um de nós desempenha um papel relevante na sociedade. Não há posições de primeira ou de segunda. Isso foi no Ancien Régime.

segunda-feira, setembro 26, 2011

The Fladgate Partnership Parte II - Taylor Vintage 2009‏

Taylor Vintage 2009, também do domínio The Fladgate Partnership revela ser um líquido grande e supremo. Digno de almirante de armada. Em vésperas de confrontação, um cálix bastaria para tornar um homem temeroso em ser quase imortal.  

Linha dorsal cheia de fruta fresca, madura é certo, mas muito escorreita, suculenta. Perfuma o ar, repetidamente, com muita flor, de matriz campestre, ladeada por restolho e outras ervas. Parece coisa espinhosa, meio rude, mas sabe ser fino e distinto quando necessário.

Mais palavras? É Vintage para terminar uma qualquer corrida em lugar de pódio. Vai uma aposta?

Post Scriptum: Vinho enviado pelo Produtor.

sábado, setembro 24, 2011

The Fladgate Partnership Parte I - CROFT Vintage 2009‏

Preâmbulo
Após uma semana em que nada, ou quase nada, de relevante se passou por terras da mãe pátria, chega-se ao fim com a estranha, quiçá anormal, sensação de que existe algo por preencher. Espaços em branco indistintos e distantes. O silêncio é tramado, transpira a maquinação. Suspira-se, por fim, e deseja-se que os dias vindouros tragam irrequietude, mais assunto, mais conduto e mais clareza de ideias.
O sexto dia serve, quase sempre, para fecharmo-nos sobre nós mesmos, desligar as conexões com o exterior e ser, nem que seja por um breve ápice, qualquer coisa desavinda. O vinho catalisa todo este processo de desmontagem e de confrontação pessoal.


Croft Vintage 2009, membro do universo The Fladgate Partnership, surge-nos, defronte, repleto de força, carregado de fruta madura, em que ameixas, amoras e mirtilos se envolvem num jogo de opulência, num rodopio orgíaco. Na verdade um vinho fausto, amplo e, como todo o vintage jovem, muito travesso. Que se desfrute agora, pois lá sabemos se andaremos por cá nos próximos dez, vinte, trinta anos.

Post Scriptum: Vinho enviado pelo Produtor.

terça-feira, setembro 20, 2011

Altas Quintas

São os lançamentos, mais recentes, do produtor norte alentejano Altas Quintas.
O Colheita, tinto, de 2007 surge-nos bem trabalhado, com elevado grau de afinação. Diria que está pronto a beber, sem mais rodeios. Aromas e cheiros a deambularem por entre a fruta, os balsâmicos e os tostados. Um vinho Semper Fi.

O Colheita, branco, de 2010, ao contrário do seu antecessor, é minha convicção, não parece estar tão bem conseguido. Algo plano, meio pesadote e aparentemente muito quieto. Fica a dúvida se foi bem testado, por mim, quiçá antes do tempo. Não sei.

O Reserva-do faz as vezes do Obsessão, desempenha o papel principal em alturas que a figura de cartaz, o Obsessão, não pode.

E, aqui para nós, não é actor de segunda, muito pelo contrário. Ainda jovem, é certo, mas a mostrar enorme profundidade e comportamento desviante de qualquer facilitismo. É vinho de primeira, que não fica a dever nada a outros. Ora essa.

Post Scriptum: Os vinhos, em causa, foram enviados pelo Produtor.

sábado, setembro 17, 2011

Porquê?

No meio de tantos monólogos em que participo, dou conta que tenho vindo a perder aquela incessante vontade de procurar sensações, fomentar comparações mais ou menos estranhas, quase sempre sem sentido e quantas vezes tolhidas de realidade. Mas é/era tão bom quebrar com os grilhões do convencionalismo.

Quando vasculho e remexo no baú, tal adulto em busca de memórias da criança, a face, a minha, exibe um sorriso meio acanhado. O que a ingenuidade fez e faz. Ao coberto do desconhecimento de causa, o mundo dava a ideia que podia ser conquistado por mim. Por que não se pode voltar atrás? Ser simplesmente uma criança.

sexta-feira, setembro 16, 2011

Casa de Saima

Tal como descrevi aqui, o que se passou por agora não é muito diferente. O processo foi simples. Ida às compras e, por entremeio, carrega-se uma garrafa para dentro do saco. Que maldito vicío!
A proposição alinhou, portanto, pela singeleza de método. Dito isto, nada há mais a dizer sobre esta matéria.

O vinho da Colheita de 2008, o enfoque, o objecto de discussão, se houver interesse, revelou-se uma grata e valente surpresa. Apetece dizer, perdoem-me aqueles mais parcimoniosos, que temos aqui um belo e personalizado vinho, que custou menos de quatro euros, capaz de oferecer um curioso leque de cheiros e sabores. Pois é...

Post Scriptum: Entretanto dêem uma olhadela num artigo colocado no Garficopo.

quarta-feira, setembro 14, 2011

Bairrada vs Bairrada

Agora, julgo, clama-se por vinhos da Bairrada. De mal amada e ostracizada, tornou-se, quase num ápice, em desejo. Passou a ser a terra prometida e os seus pretensos grandes e gloriosos vinhos velhos transformaram-se em produtos de cobiça. O pior será se a quantidade disponível não consegue dar vazão a tantos pedidos. E, entretanto, pouco faltará para vermos a Baga na vez da malfada Touriga Nacional. Vai uma aposta?
Terminado o prefácio, e mesmo que os vinhos em si não sejam novidades para a trupe, não o são de todo, só agora surgiu a oportunidade para repartir, com vocês, dois estilos de vinhos da Bairrada. Ambos da Colheita de 2005.

Um, o Calda Bordaleza, reporta-nos para uma escola mais universalista, mais eclética, sem que, no entanto, haja perca de identidade. É um vinho que, segundo o nome, reproduz a receita de Bordéus. Está numa boa e feliz fase de consumo.

O outro, o Sidónio de Sousa Garrafeira, interpreta um papel bem diferente, mais clássico. É discípulo da linha mais dura. É e será o último exemplar saído de uma vinha que jamais existe. Quem o beber terá uma sensação muito semelhante a esta. A chancela 18 Jancis Robinson, que o rótulo ostenta, parece-me deslocada e provinciana. Não havia necessidade, como diz o outro. De resto, está muito bom e recomenda-se.
Agora é escolher.

domingo, setembro 11, 2011

O estado da Nação Enófila!

Quais as expectativas para temporada enófila 2011-2012? Teremos mais do mesmo, tanto na dimensão i-enofilia como na dimensão tradicio-enofilia? Perspectivam-se alterações significativas na produção, na distribuição, na comunicação e outros anexos?
Como andam, as nossas edições impressas segundo as regras de Gutenberg? Sugerem-me algum adormecimento. Anda a ideia, pelo ar, que já houve mais procura, que já se falaram mais delas. E aquelas que se socorrem da web, como veículo de difusão, terão chegado ao limite? Deixaram de ter graça? Já não são, por agora, novidade?

A produção, em alguns casos, continua a lançar, para cima de nós, vinhos a preços loucos, algo alienados do momento, principalmente com a chancela Douro. Continuo a ser atacado pelo espanto quando pedem entre quarenta a cinquenta euros (estou a nivelar por defeito). Na verdade, serão sempre produtos blindados contra a crise. Como se irão esquivar os mais pequenos deste imbrólgio financeiro em que estamos metidos? Falências a rodos?
A distribuição parece-me que aposta, cada vez mais, em produtos brancos, de largo espectro, a preço baixo e pouco diferenciado. O poder de escolha está muito tolhido, pelas mais diversas razões.
Ao contrário de outros anos em que, por esta altura, começavam a brotar como cogumelos as novidades, meio mundo anda anestesiado. E parece que vai ficar assim, durante muito, muito tempo. Vai uma imperial?

sexta-feira, setembro 09, 2011

Altano Symington Branco

Intervalando as temáticas, apraz-me partilhar com a i-enolifia uma (boa) proposta no que que concerne a vinhos brancos. O tempo, ainda, pede vinhos de cor mais clara e como tal está de acordo com a época.
Este, Altano da Colheita 2010, branco da Symington, surge-nos com roupagem nova, bem mais atraente, sem chegar a exageros decorativos. Está sobrio e puxa pelo consumidor. A vestimenta antiga necessitava de urgente remodelação. Era simplicidade a mais. Porque os olhos também bebem

O vinho está franco e cristalino. Sadio, leve e sem complicar. Dispõe de razoável leque de cheiros e sabores que cambiam entre a fruta, mais ou menos tropical, e a vincada vegetabilidade que nos reporta para o espargo e folhas verdes. Tudo bem entrosado como se quer e pretende em vinhos deste patamar (com pvp inferior a quatro euros), mas, ainda assim, possuidor de alguma diferenciação. Parece-me que merece ser destacado e por isso, se me permitem o conselho, comprem.

terça-feira, setembro 06, 2011

Um Vinho vs Outro Vinho

Quando se abre a boca para tagarelar, dentro dos domínios da minha família, sobre vinho, as posições dos diversos bebedores extremam-se  de tal ordem que fica invabilizada qualquer ponte de contacto entre os arguentes ou a formação de uma terceira via conciliadora. São sempre momentos de paixão exacerbada.
Uns, geralmente os mais velhos, defendem com unhas e garras, com o dedo em riste, que vinho feito por eles é verdadeiro, o único. É líquido, puro, sem manipulações, sem acrescento de qualquer aditivo e sem maroscas. O conceito, portanto, é simples: transformação do bago da uva em vinho.

O engaço, esse, é fundamental na feitura. Depois é lagar, cuba de cimento, pipo decandente e bem avinhado e finalmente armazenado em garrafões religiosamente guardados nas zonas mais frescas da adega. Os outros são cousas alteradas, amaciadas por estranhas artes alquimistas e abastadas de artificialidades. Fazem, por conseguinte, mal à saúde.
Os mais novos, esses, replicam que tais procedimentos estão amputados de qualidade. É o grau que falta, a madures que não existe, o lagar nada higienizado, a cuba que devia estar revestida com epoxy ou a pipa nova que não há. E que pelo menos seja em Bag in Box.
As pelejas duram, com os adversários, a dada altura, a terem nos copos apenas, e apenas, o vinho concebido segundo os pressupostos que cada um acredita.

Envolvido por gestos e gritos, reparo que algumas das teses apoiadas e praticadas pelos anciões, estão, de grosso modo, a serem incorporadas novamente pela enologia moderna. Procura-se retornar ao mais puro, ao mais simples, ao natural, ao minimalista. Não teremos fatalmente esquecido, consequências da febre cortesã que atacou a todos, ensinamentos e práticas que, apesar de prosaicas, batiam certo com os ciclos e necessidades dos homens?

sexta-feira, setembro 02, 2011

Uma Mulher e o Dão

Sei a resposta, no íntimo já sabia, de onde e como irrompeu a minha paixão e dedicação aos vinhos do Dão. Não por serem os melhores vinhos do mundo e de Portugal, que não o são e custosamente o serão, algum dia. De onde deriva esta relação? Simples, estranhamente simples. Tudo por causa de uma mulher, de cabelo louro, que nasceu antes dos meados do século passado. A ela, devo-lhe o conhecimento do Dão, da Beira Alta e da conservação de parte das minhas raízes.

Por causa dela, sei onde ficavam e ficam algumas vinhas, conheci parte da história do enclave, das casas senhoriais, das Quintas e Quintais que proliferavam e proliferam por aquelas bandas entremeadas pelo Mondego e pelo Dão. Do treino do cheiro e do sabor.
Lembro-me com saudade quando, em viagem, trespassávamos o Mondego em Coimbra e da boca dessa mulher, serenamente, saía uma curta mas sentida conjugação: cheguei a casa. Durante anos a fio, ouvia aquelas palavras sem nunca perguntar o que queriam dizer. Eram lá coisas dela.