terça-feira, novembro 24, 2009

Quando se conhece a face!

O busílis que fez levantar os dedos para martelar nas teclas andava, há muito, a latejar na cabeça. Volta, na volta, ele insurgia-se de forma impetuosa (e, cada vez, com maior assiduidade). Tenho definitivamente a necessidade de exorcizá-la, expurgá-la de uma vez por todas. Partilhá-la publicamente.
Não querendo rodear o assunto, durante mais tempo, sinto ao longo dos anos (primeiro nos 5às8, depois no COV e agora no Pingas no Copo) que o factor pessoal (meu e de outros) está afincadamente agarrado à critica que faço (perdoem-me o abuso). É angustiante falar de vinhos, quando conhecemos a face de quem os faz. A dificuldade aumenta, de forma exponencial, quando ouvimos os desejos, as ambições de quem projectou determinado vinho.


Retorçou-me
imenso quando pedem uma prosaica opinião. Assoma-se uma enorme incapacidade para dizer o que sinto. Nem um simples e natural não aprecio consegue saltar da boca. Termino quase sempre com a conhecida expressão: É interessante. Do outro lado deslumbra-se um vincar do sobrolho. Fatalmente penso: Terei sido o único?
Depois, e por causa desse conhecimento, começo a evitar comentários públicos sobre determinados vinhos. O elo estabelecido com os donos deles é, em muitos casos, grande e profundo. Por impossibilidade ou incompetência, sou assaltado pela incapacidade de traçar uma linha que seja.
Reconheço que é, decididamente, mais fácil, bem menos penoso, escrever sobre qualquer coisa quando existe distância e desconhecimento. Não se ouvem palavras e não existem caras. Sendo mais frio e mais desapaixonado, é com muita certeza mais confortável.

10 comentários:

Joel de Sousa Carvalho disse...

grande, grande, grande post... Rui, é impossivel andarmos nesta "coisa" dos vinhos sem termos relações achegadas com muitos produtores. Muitos deles são mesmo nossos grandes amigos e por fim torna-se muito complicado falar dos vinhos dele, quando são maus...porque quando são bons é canja...

Mas segundo vejo no teu blog, és uma pessoa que não se importa muito com "intimidades", digo eu, não sei.

Um forte abraço e novamente, grande post.

AJS disse...

Como eu te entendo. No entanto o importante é não cair no exagero da apreciação para não cair no ridiculo como muito bem expressa o Francisco José Viegas no link que se segue:
http://origemdasespecies.blogs.sapo.pt/1077071.html
Poderemos estar a cair no ridiculo. AJS

Pingus Vinicus disse...

AJS, é esse o meu medo.

Pingus Vinicus disse...

AJS, volto outra vez depois de ler o que FJV disse. De facto, parece que está a vingar a mania de falar de coisas estranhas. Usam palavras estranhas e complicadas. Fazem proa desta linguagem e gostam de mostrar que sabem, que conhecem muito.

Conheces a expressão "puxar os galões"?

Uff, cansativo!

Copo de 3 disse...

Só complica quem quer.

Tentar não complicar e simplificar leva a que passado pouco tempo as coisas se tornem repetitivas e isso temos de admitir que mesmo com vinhos semelhantes entre eles há sempre diferenças, que na simplicidade das palavras podem não ser suficientemente destacadas.

jms disse...

Percebo perfeitamente o teu texto, o que ele tenta revelar do teu posicionamento.

És amador no relacionamento com o mundo dos vinhos, emquanto os produtores são profissionais, em exclusividade de funções ou não.

De resto penso que és um agente deste mundo dos vinhos. Como os produtores, os enólogos, os distribuidores, os retalhistas. Tu normalmente falas de vinhos, não de pessoas, ainda que os vinhos tenham que ver com a vinha, com o clima, com o enólogo, com o vitivinicultor.

Mas, repara, quando falas com eles, os produtores, ou quando depois falas dos vinhos deles, não estás a pagar favor nenhum, estás a dar a tua opinião de acordo com as tuas capacidades e sensibilidades.
Tal como eles quando fizeram os vinhos.

Pingus Vinicus disse...

jms, efectivamente essa questão "do eventual pagamento ou da cobrança" é que tem andado a matutar a cabeça.
Assumo que não tem sido fácil a gestão de situações dessas.

Como solução, evito tecer comentários e já disse isso a alguns produtores.

jms disse...

Do alto da minha incompetência te digo que fazes mal.

És um agente que a certa altura decidiu intervir publicamente como enófilo. É evidente que não és amorfo ou inócuo. É evidente que te relacionas com outros agentes do mundo do vinho. É evidente que pode haver conflito de pontos de vista e/ou de interesses.

Quando houver lugar a uma declaração de interesses deverás fazê-la (por seres amigo ou familiar, por exemplo, de alguém) previamente. Isso não te tira o teu lugar, o teu posicionamento a tua independência.

É evidente que pode haver, por vezes, algumas fricções mais ou menos dolorosas. O que eu penso, em abstracto, é que um blogger não é, por definição, inferior a um produtor de vinhos.

Hugo Mendes disse...

Bem meu caro, tens uma hipótese. Corta a ligação com a metade do cérebro que faz de ti o ser humano que és e manda-te para a maralha dos lobotomizados que andamos por aí.
Agora mais a sério! Eu penso que exageras! Eu prefiro ouvir de um amigo que o meu vinho é uma bosta que de um cliente. De cada vez que alguém acha um vinho esquisito e mo diz, dá-me oportunidade de explicar a diferença. Se de facto o vinho é uma merda, achas que quem to está a dar não sabe disso?
Se te enviam vinhos para provar e sabem que à partida não valem nada, ou são eles próprios maus (e assim é um favor que prestas á sociedade) ou então estão-te a passar um papel de atrasado (não admito isso a nenhum amigo!).
Sobre o artigo citado pelo AJS, concordo com a apreciação que têm feito dele. Contudo, mais uma vez, penso que não se aplica aos blogues cuja vantagem é precisamente serem cidadãos normais sem dinheiro nem peneiras, nem contactos para comerem Adrià nem beber Petrus. Falam ao povo como povo que são. Essa é a vantagem!

Pingus Vinicus disse...

Hugo claro que sim, claro que sim. Há, eventualmente, elevado nível de complicação, da minha parte, sem necessidade.

Mas digo-te preocupa-me grande ligeireza na forma como se tratam muitos assuntos.

Parece que tenho de ser lobotomizado para compreender, ou não, tanta coisa.