sábado, janeiro 10, 2009

Vale da Corça (Douro) Colheita 2001


Viver uma vida sem paixões ou sem ódios, verdade seja dita não tem graça. É como se estivéssemos a trincar qualquer coisa sem tempero. O meu olhar sobre os vinhos não anda longe disto. Tenho assumidamente paixões e tenho, também, alguns ódios de estimação. São sustentados, apenas e apenas, pelo meu gosto. Pouco mais interessa. Acho, particularmente, enfadonho andarmos a falar do mesmo e a gostar do mesmo. É tudo muito cinzento, tudo sem sangue nas veias. Então se olharmos para os nossos críticos, raras são as vezes em que sobem ao palco para dizer: Epá não gostei! Epá, gostei! Epá comprem aquele! Epá, não gastem dinheiro naquele!
Tanta ladainha para quê? Simplesmente para encher mais linhas!

Vale da Corça (o topo de gama do produtor) veio de uma vinha da Quinta da Brunheda. Tem a originalidade de ter a casta souzão no lote (as outras são a touriga nacional e o tinto cão). Mas embrenhemos-nos dentro do vinho. Cheiros, muitos cheiros de fruta caramelizada. Saltavam, em redor do nariz, fartas sensações meladas, de marmelada, de ameixas e figos bem maduros. Acreditem que, em certas alturas, fixava-se a imagem da mistela que a minha mãe fazia quando estava constipado. Chá de cenoura com açúcar mascavado (lembram-se?). Era tão doce. Passas, sultanas acercavam-se do copo. Espesso.
Mudou um pouco de estilo, aliviou um pouco o peso e surgiram pela frente algumas ervas aromáticas, pimentas e chocolate. Sempre eram aromas diferentes. Graças a Deus.
O paladar, curiosamente, conseguiu apresentar uma saudável faceta vegetal. Aliviou, deste modo, a pressão, o peso que existia. As pimentas sentiam-se (estranho, não é?). Bem vincadas, fortes (para não destoar). O final, como seria de esperar, estava carregado de intensidade.
Decididamente é uma forma de ver o vinho que não agrada aos meus sentidos. Impressiona, é um facto, mas não acompanha decentemente uma refeição. Depois o preço, para não destoar, é elevadíssimo (em alguns locais custa quase 100€). Nota Pessoal: 15

Post Scriptum: Estes vinhos parecem generosos sem aguardente. Dou de barato que possa estar enganado.

4 comentários:

j... disse...

Caro RM,

concordo inteiramente com a sua avaliação. Bebi-o há... ok, mais de um ano... no meu restaurante de estimação @Parvónia,

onde custou (redondos) 150€

e só não chorei porque... [é segredo, dirty one, ehe]

j... disse...

Ah, outra [a meu ver] grande banhada do Douro, mais ou menos a este preço e não muito diferente deste, chama-se «Auru».

Pedro Guimaraes disse...

Caro Rui Miguel,

Nunca bebi este vinho, no entanto bebi à pouco tempo o Brunheda V.V. 2001 e achei-o muito bom...com muitas pernas para andar, ainda!!!

No caso do Brunheda V.V., lembro-me de ter sido muito elogiado, depois esquecido (odiado seria um termo forte)....eu no entanto sempre achei que eram vinhos que precisavam de tempo....exuberantes na juventude para depois se fecharem em copas. O Vale da Corça fiquei sempre com a ideia do que aqui escreveste - ultra extraído e demasiado quente....portanto não comprei!!!

Abraço
Pedr Guimaraes

Copo de 3 disse...

No Pingo Doce vendem geleias de melhor qualidade.