quarta-feira, janeiro 30, 2008

Touriga Nacional de Tavares

Terras de Tavares. Um Touriga Nacional que mostrou um conjunto de aromas cheio de flores (certamente foi influência do rótulo). Estas flores surgiam espalhadas em terreno escuro, revolvido e húmido. Um chão, onde debaixo das copas das árvores, apareciam nichos de cogumelos (este ano não comi míscaros). Passavam pelo nariz inúmeras sensações a mato denso, com fetos por todo lado. Muito pinheiro, alguns cedros. Muita giesta em volta. A fruta, para não fugir à regra, possuía matriz silvestre. Sempre com perfume. O chocolate, que começa a ser um habitué nos vinhos, é negro e amargo. Julguei sentir, também, um pouco de caramelo misturado com a baunilha. Mas acredito que seja exagero (da minha parte).

Na boca mostrou um belo equilíbrio, com sensações a hortelã muito refrescantes.
Um Touriga Nacional do Dão (de 2005) que gostei francamente. Denso, com um nível de vivacidade interessante.

Apesar de intenso, de exuberante, não é espampanante. Não farta o nariz, nem a boca. Teve amabilidade de não enjoar. Pareceu-me, com toda a subjectividade que existe, um vinho com boa capacidade para evoluir.
Agora, fico à espera do preço que irão pedir por ele. Espero que seja comedido. Nota Pessoal: 16

Post Scriptum: E a febre da Touriga lá continua. Sinto, por vezes, algum fastio.

domingo, janeiro 27, 2008

Das Altas Quintas: Uma Mensagem em Aragonês

Quantos vezes ouvimos e lemos que o pecado, a luxúria destrói a alma do indivíduo? Quantas vezes somos avisados para não viver em ostentação? Pedem-nos para ter uma vida prosaica, meio fugaz. Quando nos pedem isso, dizem que seremos recompensados noutro lugar, noutro sítio. Não neste. Complicado para quem não advoga estas teses. Cruel para quem as segue. Luta sistematicamente contra si, contra o seu corpo, a sua carne.

Embalado nesta confusão, meti pela goela adentro um aragonês. Um tinto (de 2005) apurado, com sensações requintadas. As imagens que surgiam pela frente, entrelaçavam-se umas nas outras. Um rodopiar constante. Em certos momentos surgiram enigmas para desmontar.
Sentia cheiros a lasca, a pedra, a lousa. Apara de lápis. Surge a visão da sala de aulas da Primária. Pensa-se um pouco na infância. Vem à memória a cerejeira (que estava a um canto do recreio). Era descascada pela malta. Em frente, tínhamos em enorme pinhal. No Inverno e no Verão o ar que saltava de lá era perfumado. Intenso. Olhávamos e sonhávamos. Os olhos ficavam húmidos com o vento. Os cabelos ficavam arrebitados. Agora já não existe.

A fruta está longe de enjoar. Não era madura e não era a principal marca do vinho. Nem de longe, nem de perto. Foi preciso esperar que os ponteiros dessem mais umas voltas para que ela aparecesse de facto. Em certas alturas, dava a ideia que vinha embebida em licores. Ao mesmo tempo, um suave fumo libertou-se. Ao penetrar pelas narinas, foi deixando uma impressão levemente resinosa.
Um original rasgo a chá, aliviava o espírito. Afastou durante muito tempo o remorso inicial. Transmitia paz.
O gosto reafirmava a elegância, a classe. Sabores a cacau preto, a tabaco e a baunilha completavam, fechavam o rol de sensações. Uma finura que fez esquecer a presença dos taninos e da acidez. Até o álcool passava despercebido. Tudo parecia bem feito. Nota Pessoal: 17

Em Aragonês ou em Tinta Roriz temos aqui um belo vinho.

sábado, janeiro 26, 2008

Herdade dos Lagos

De um momento para o outro vejo-me outra vez no meio do Alentejo. Enterrei-me lá para baixo, mesmo no meio. Sinal que alguns tintos alentejanos deixaram, para trás, a sua monotonia, do seu excesso de doce, a sua maturação. Depois têm apresentado um nível de frescura que surpreende. Magia na adega?

Não é certamente uma novidade, no entanto queria deixar aqui o meu testemunho sobre um tinto (de 2005) da Herdade dos Lagos. Um vinho que agradou (não se esqueçam que falo sempre na primeira pessoa do singular) e que foi capaz de proporcionar uma prova agradável.
Os aromas mostraram-se directos, francos, claros na interpretação. Leves sensações minerais, suportadas por um lado vegetal muito presente, tornavam o vinho fresco. A fruta, em estado maduro, parecia que tinha sido molhada, bem lavada, antes de ser servida. Acentuava a gulodice. Uma alegre nota balsâmica dava-lhe um pequeno toque de seriedade.
O gosto pareceu-me levemente picante, talvez tivesse temperado com um pouco de pimenta. A frescura volta a ser sentida. Saboroso. Um conjunto homogéneo, que vale pela simpatia demonstrada, por alguma graciosidade. Para obter o maior prazer possível, é bebê-lo enquanto as rugas não o atacam. Provavelmente terá sido esse o seu objectivo. Mais uma opção para nós. Nota Pessoal: 14

Post Scriptum:
O problema será certamente o preço pedido. Facilmente chegará aos 7/8€.

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Roma Pereira

Por diversas vezes, partilhamos entre nós a enorme dificuldade que temos para encontrar, para descobrir um vinho diferente e que nos surpreenda. Ao penetrarmos pelas enormes entranhas da enolândia surgem vinhos, que apesar serem bem feitos e com poucos erros, são indiferenciados (não sei quantas vezes usei esta palavra nos últimos dias). Ao fim de um copo, de um trago, o ímpeto esmorece e o vinho fica de lado. Perdem-se euros desnecessariamente.
É motivo de regozijo (para mim) quando, por momentos, surge um nome que nunca ouvimos falar, que não sabemos quem é, nem de onde vem. A surpresa é maior quando o contacto é feito às cegas, sem qualquer marca exterior. Estamos despidos de qualquer preconceito, de qualquer ideia feita. Existe apenas o indivíduo, o copo e o vinho (sem rótulo).
A apresentação foi estabelecida de modo muito cordial, cheio de gestos surpreendentes (acho que vou-me esticar em comparações).
Aos primeiros goles, foi servida fruta bem preta. Apesar de doce e pecaminosa, mostrou muita subtileza. Parecia enfeitiçada. Depois abre-se uma arca, de madeira exótica, que lentamente largou aromas a especiaria. O cacau e baunilha libertaram-se, sem pressas. Criou-se em volta do copo um ambiente cheio de imagens orientais, luxuriantes, distantes do nosso (prosaico) mundo.
A complexidade de cheiros ia aumentando com flores que se colocaram defronte do nariz e da imaginação (que se pôs a ditar as regras). Alfazema, a rosa, a lavanda pareciam organizadas em vasos. O doce floral rodopiava por entre o doce da especiaria e da madeira. Os (meus) olhos esbugalhavam-se. Parecia que tudo tinha sido feito ao pormenor.
O paladar prendia-me. Mastigava-o lentamente, sem pressas. Sabia-me bem (Nem quis saber das opiniões contrárias. São deles). Flores, fruta, madeira (muito gulosa) e especiaria agarravam-se por todo o lado.
O voltar das costas fez-se com pena. A prova ainda estava longe de terminar. Outros perfilavam-se à espera de se apresentarem.
Solta a máscara que envolvia o vinho, revela-se ao mundo um tinto alentejano (2005), de Mora. Promete muito (uma aposta minha) e certamente não o deixarei fugir. Tenho na minha garrafeira muitos lugares vagos para preencher com vinhos que gosto.
O resto é (ou são?) histórias. Nota Pessoal: 17

Post Scriptum:
Reparem bem. Tem apenas 12,5% de graduação alcoólica.

quinta-feira, janeiro 24, 2008

Zimbro do Douro

A curiosidade pelo vinho (tinto de 2005) tinha já surgido algum tempo, espicaçada pela classificação que obteve na Revista de Vinhos. Olhava para ele nas diversas vezes que passava pela secção dos vinhos. O preço parecia algo despropositado (quase 9€). Acabava por forçar a mão a escolher outras opções.
Mas num ataque de consumismo puro, acabei por trazer uma garrafa para executar o meu contraditório, para sentir se o preço pedido tinha ou não correspondência à qualidade enfiada na garrafa.

Pressentiam-se aromas a coco (invenção minha?). Um rasgo a leite com chocolate (pouco carregado) marcou a espinha dorsal e que se manteve durante muito tempo. Amoras pareciam rechear uma curiosa sensação a bolo de iogurte (acabado de sair do forno), marcando o resto dos cheiros que saltavam do copo para fora. Uma leveza agradável.
O paladar era razoavelmente fresco, com um nível de vivacidade interessante. Sentiam-se curiosos toques apimentados, meio picantes. Sempre acompanhados pelo tal leite com chocolate.
Apesar de ter estado perante um vinho aprumado, com um manancial de aromas e sabores apelativos e sem arestas, não mostrou o suficiente para arregalar os (meus) olhos. Depois o preço, pedido por ele, não tem justificação. Engrossa, apenas, o enorme conjunto de vinhos indiferenciados que todos conhecemos. De qualquer maneira, a curiosidade foi morta. Nota Pessoal: 14

terça-feira, janeiro 22, 2008

Três Pintas, Três colheitas (Parte II)

Não perderei muito tempo na introdução. Ela foi feita, em traços gerais, nesta altura. Depois os meus rascunhos estavam mais ou menos alinhavados já algum tempo. A dificuldade esteve em descrever os vinhos de forma correcta, em caracterizá-los de forma consistente e coerente, tentando que vocês conseguissem perceber o que nariz e a boca iam descobrindo.
São três colheitas de um tinto que anda debaixo do meu olho, desde a primeira colheita (2001). Tenho bem presente a correria que fiz para caçar uns quantos frascos deste vinho desenhado por Sandra Tavares da Silva e Jorge Serôdio Borges. Tirando a colheita de 2002, que pareceu-me um pouco inferior - talvez influência do ano, a desilusão nunca se abateu sobre a mesa. Os valentes euros que custam estes vinhos tem que ser bem justificados.

Descasquemos Pintas de 2001. Confrontei-me literalmente com um individuo que mostrou o que é apresentar-se com maneiras. A potência e o vigor da juventude estão bem controlados. Amadureceu o suficiente para que os cheiros largados sugerissem um vinho profundo e misterioso. Fresco, com a fruta (mesmo doce) a surgir sadia, viçosa, sumarenta. No vidro reflectia uma visão matinal, repleta de pequenas flores orvalhadas, envolvidas sob uma ténue camada de neblina. Madeira de aspecto exótico e especiaria eram largadas por todos os lados, por todos os cantos do copo.
Na boca demonstrou um comportamento cheio de precisão, de equilíbrio. Filigrana pura. Os sabores ofereceram-me sensações difíceis de descrever. Bebam-na até à última gota. Ao virar da esquina quem sabe se a garrafa não se partirá? Nota Pessoal: 18
Em 2003, o Pintas pareceu-me mais directo, bem mais quente. Os aromas, os cheiros, aqui, andaram de volta de impressões mais doces, mais ardentes, mais redondas. Mais anglo-saxónicas. A baunilha, o caramelo eram reforçados pelo chocolate com leite, pela canela. O registo adensava-se com odores a charuto, a tabaco, a folhas secas. Um ardor alcoólico vagueava por entre as paredes do copo criando algum incómodo ao nariz e à boca. Começo a acreditar no que tenho ouvido por aí. Os vinhos deste ano são picantes. Impressionam (ninguém fica indiferente), mas falham um pouco na finura, na classe. Nota Pessoal: 16
Com a colheita 2004, regressa a frescura, retorna o equilíbrio, a alta joalharia. A balança apresenta os dois pratos alinhados (força e finura). Aparentemente são abandonados (ou domados) alguns excessos revelados na colheita anterior. Apesar de ter apresentado uma face muito sensual, com uma voluptuosidade quase chocante, parecia que tentava combinar aspectos da colheita de 2001 com a colheita de 2003. Dois extremos obrigados a partilhar o mesmo vasilhame. O mentol envolvia-se com os frutos, com a madeira. Os meus sentidos eram levados a entrar num ambiente enigmático, onde chocolate preto e apara de lápis iam surgindo sorrateiramente. O paladar era concentrado, cheio. Balanceava entre o lascivo e o sóbrio. Uma vez para um lado, outra vez para o outro. Aposto muito nele. Nota pessoal: 17,5


Fica a ideia que vale a pena continuarmos a guardar Pintas e Três Bagos Grande Escolha (de 2001). Tintos que, aparentemente, não sofreram amarguras ao longo de 6 anos. Passaram incólumes pelos vários desafios. É certo que este espaço temporal não é suficientemente alargado para tirar mais conclusões, mas deram indicações (falo por mim) que irão continuar a evoluir.

Post Scriptum: As fotos da vinha foram retiradas do site Wineanorak.

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Moon Harvested, a colheita da Lua

o tinha visto por muitos sítios, já tinha ouvido falar dele. Independentemente das diversas opiniões que foram surgindo pelo meio enófilo (todas elas respeitáveis, mesmo que em alguns momentos surgissem antagónicas) nunca lhe tinha dado grandes atenções. Às vezes, dispersamo-nos com tanta oferta (fartura). Basta pensarmos no risco que corremos em beber qualquer coisa parecida a outra para desistirmos.
Mas antes de escalpelar o vinho, este Herdade dos Grous Moon Harvested 2006 não ficaria melhor se fosse rebaptizado de Colheita da Lua? Ficaria com um semblante mais misterioso, mais enigmático. Com este epíteto anglo-saxónico, parece-me que roça um pouco o enlatado comercial. É uma questão de gosto pessoal. Adiante no texto que os considerandos já vão longos.

Temos um tinto que, apesar de algumas opiniões discordantes (no dia em que foi provado), revelou uma frescura interessante. Nas primeiras inspirações, uma sensação floral prende o nariz. A evolução permitiu-me que apanhasse na cara com uns quantos cheiros a hortelã. Independentemente da influência que o rótulo poderia ter, no nariz ou na boca, emergiram nuances a terra molhada e a cacimba.

O registo aromático adensou-se um pouco com a pimenta. Atrevo-me a dizer que teria, provavelmente, cor verde. A fruta, após algum tempo, surge doce (não enjoativa), bem envolvida pela baunilha e pelo chocolate.
Na boca mostrou um comportamento bem balanceado, sem pontas para limar ou cortar. Combinava bem a doçura da fruta com a frescura do vegetal. Manteve-se por lá o tempo estritamente necessário. Coeso. O final deixou marca.

Um alentejano muito bem feito, moderno, onde o equilíbrio é nota dominante. Não ligando ao factor Lua, e à sua hipotética influência, fiquei contente por tê-lo provado e bebido. Voltaria a fazê-lo. Nota Pessoal: 16,5

quinta-feira, janeiro 17, 2008

170º 2005

Para mim foi diferente. Os traços gerais da sua personalidade andaram longe do que habitualmente bebo por aí. Como já disse, volta na volta, caímos sempre no meio do Douro, do Alentejo. Por vezes, vamos até ao Dão ou Bairrada. Uma vez por outra, lá arriscamos a provar um vinho da Estremadura, das Terras do Sado ou Ribatejo. Se tomássemos a coragem para sair do socialmente aceite, acreditem que teríamos mais uns quantos momentos de alegria pessoal (que é a que interessa).
Reincidindo com a Companhia das Lezírias, escolhi, desta vez, um tinto de 2005 que comemora o 170º aniversário desta Companhia.
Ao abrir a garrafa ficou livre um conjunto de curiosas sensações odoríferas que não deixaram qualquer margem para dúvidas (perdoem-me esta afirmação absoluta). Era evidente a presença de um largo número de ervas aromáticas. Facilmente preencheria umas valentes linhas só com os nomes delas. Depois folhas de chá remetiam-me para o meio de sacas de pano a transbordarem de lúcia-lima, de tília, de príncipe. O mentol, juntamente com um pequeno rasgo a erva verde, impunha um registo fresco e campestre. Sempre com uma delicadeza que merece ser referenciada.
Os sabores oferecidos estavam, também, repletos de sensações campestres, vegetais e mentoladas. As folhas de chá e as ervas aromáticas influenciavam, também aqui, o comportamento do vinho. Com vivacidade e com jovialidade.
Fiquei surpreendido com este ribatejano. Um estilo algo anacrónico, longe do que habitualmente estamos à espera. Nunca lhe apanhei qualquer ponta de fruta, de chocolate, de tabaco, de baunilha. Gostava de saber como isso é possível! Não deixou de ser curioso.
Não será, provavelmente, um vinho consensual (Num grupo de sete indivíduos apenas um gostou verdadeiramente dele). Nota Pessoal: 16,5

terça-feira, janeiro 15, 2008

Relativo ou Absoluto?

Ao fim de algum tempo no meio das garrafas, começamos a ter mais cuidado nas escolhas que fazemos. Ponderamos o que vamos comprar, quanto queremos gastar. Não enfiamos o barrete com tanta facilidade quando alguém diz que aquele é que é. O sobrolho descai um pouco e colocamos um pé a trás. Só um incauto é que comete o erro de acreditar piamente no que o critico diz ou afirma. Com a informação a saltar por todos os lados, com os produtores a sairem da quinta, da herdade ou de outro sítio qualquer, só não constrói a sua realidade enófila quem não quiser.
Penso, cada vez mais, que as notas atribuídas (pelos críticos) deviam estar, se possível, relacionadas com o preço que custa determinado vinho (não sei em que moldes). Julgo que seria mais esclarecedor para o consumidor e eliminaria alguma da entropia que existe neste momento. Dito de outra forma, e para não enredar, faz-me enorme confusão ver atribuída a mesma classificação a vinhos que apresentam preços finais substancialmente diferentes (lembram-se, por exemplo, da loucura que foi com o Montes Claros Reserva 2004 ou com o Vértice Grande Reserva 2003?). Parece-me que a bota não bate com a perdigota. Perante a discrepância de euros que muitos vinhos apresentam, o que deve fazer o consumidor? Deve acreditar que um vinho que custou cinco euros (estiquemos até aos dez) tem, de facto, a mesma qualidade, o mesmo potencial (envelhecimento, complexidade, ...) que o outro que custa quatro vezes mais e que só impõe mais respeito por causa da fama que o precede? Será que deve perceber que está perante vinhos com objectivos diferentes, e que as diversas classificações atribuídas são, em muitas situações, relativas e não absolutas (como nos querem fazer crer)?

Post Scriptum: A prova cega dá, muitas vezes, respostas esclarecedoras. Será por isso que muitos topos de gama não surgem em determinadas provas comparativas? E quanto vale meio ponto ou mesmo um ponto de diferença?

domingo, janeiro 13, 2008

Reserva Conventual

Quando olho para o Alentejo, é na zona de Portalegre que a paixão desperta. Talvez seja a proximidade com a Terra Mãe. Talvez sejam as montanhas, talvez seja a frescura que suaviza a terra amarela. Durante muito tempo, o vinho alentejano era um produto distante. Poucas vezes aparecia na mesa. Raros eram os momentos que substituia o Douro ou o Dão. Eram vinhos lá do Sul. Mas recordo com um leve sorriso a primeira vez que bebi o Conventual tinto.
Envolvido pela memória, pelo que ela ia dizendo, peguei no Conventual Reserva (de 2005) para acompanhar umas singelas costeletas de borrego marinadas em ervas aromáticas.
O copo ficou escuro, opaco. As cores impunham ao olho uma paisagem densa e austera. Os odores que saltavam, cá para fora, estavam indefinidos, fechados. Não conseguia separá-los uns dos outros. Rústico, monolítico. Por momentos, bruto. Os ponteiros iam rodando, rodando. Segundos, minutos, horas e pouca coisa ia surgindo. Bálsamos, folha de eucalipto e terra foram as primeiras sensações a serem catalogadas. A fruta, que por lá apareceu, tinha tez escura, preta (provavelmente induzido pela cor). Densa. Depois de mais umas voltas em redor do relógio, pareceu-me ter avistado algumas flores, logo ali ao lado da especiaria. Tostados, bem vincados, finalizavam os aromas.
O gosto impunha, mais uma vez, sensações monolíticas, espessas. Pujante. Acidez colocava-se num registo relativamente alto. Final longo. Não o consegui domar. Um estilo de vinho. Nota Pessoal: 15

Um tinto que apresentou uma compleição respeitável. Fiquei, no entanto, com a sensação que a força foi usada em demasia. Pessoalmente, precisa um pouco mais de elegância. Deu ares de que teria capacidade para envelhecer (bem). Daqui a uns valentes meses, talvez a história seja contada de outra maneira. Cabe-nos decidir se o queremos assim ou de outro modo. Por menos de 7€, afigura-se uma boa opção. Vou guardar uma.

Post Scriptum: Como devem ter reparado as fotos dos rótulos revelam a enorme inaptidão que tenho para manusear convenientemente a máquina. Estas, pelo contrário, ficaram no ponto.

sábado, janeiro 12, 2008

Outra vez com a Companhia

Não levem a mal, mas ainda são resíduos da semana, dos imbróglios. O tempo disponível dava apenas para molhar a beiça com pingas ligeiras. Com poucas histórias para contar. Serviam para acompanhar o meu almoço, o jantar. Entre elas, escolhi uma que merece ser falada. Parece-me justo que ocupe umas linhas com uns quantos comentários sobre ela. Merece que seja diferenciada.
Companhia das Lezírias 2003. Um tinto alegre, jovial, bastante fresco. Usando a memória, os cheiros que saíram da garrafa mostraram que havia acerto entre a fruta (apostaria na cor vermelha), um pequeno punhado de alecrim (ou outra erva aromática) e alguns laivos de mentol. Bem arejado, com desejada vivacidade. Não caiu na facilidade e na fatalidade de oferecer apenas fruta madura. Notei o esforço que imprimia para ser diferente, para não cair na inocuidade. Coisa difícil nesta gama de preços. Por breves momentos, talvez por influência do contra-rótulo, julguei sentir um pouco de pimentão e umas quantas aparas. Nada de incomodativo. Pelo contrário. No timbre adequado.
Os sabores impunham na boca, mais uma vez, um registo limpo, sadio, alegre e fresco. Dei conta de uma ponta de chocolate, uma nota de baunilha.
Provem. No mínimo, saem das fatídicas escolhas: Douro ou Alentejo. Nota Pessoal: 14,5

Post Sriptum: Alguém chegou a provar, um dia, um Companhia das Lezírias branco Reserva de 2002 (com estágio em madeira) que custava menos de 3€? Impressionante o preço e a qualidade que demonstrava.

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Senhora Companhia

Andei longe. O silêncio acabou por abater-se para estes lados. Nada de mais, nada de grave. Houve a necessidade de tomar conta de outros imbróglios. Vicissitudes da vida. Tratados esses imbróglios, arquivados alguns assuntos, é tempo de voltar e continuar a traçar mais umas quantas linhas sobre o vinho. Estranho, para vocês, será verem-me regressar com um licoroso branco (existe um tinto) produzido pela Companhia das Lezírias, debaixo do braço. Um vinho elaborado com a casta vital, fermentado em ânforas argelinas (Curioso. O que são?) e envelhecido em cascos de carvalho (retirei estas informações do site da Companhia. O contra-rótulo nada refere).
A face possuía nuances alaranjadas carregadas, com uns quantos laivos acastanhados pelo meio.
O cheiro que soltou estava carregado de sugestões meladas. A canela, que deambulava pelo copo, salpicava a casca de laranja e uns quantos gomos de tangerina. Aqui e além, pareceu-me que deslumbrava uma avelã, uma noz, uma amêndoa. Bem arranjadinho, nada desprezível. Uma pequena aragem proporcionava uma saudável (e desejável) frescura. Em certos momentos, parecia-me muito com o outro. Com os olhos tapados era capaz de afirmar que era moscatel.
Os sabores eram adoçados pelo mel (demonstrou, portanto, coerência com os aromas), onde sensações a farripa de laranja misturavam-se com uma pequena mão de frutos secos. Ao acenar fez lembrar um conjunto de sensações interessantes. Não foi inócuo. Nota Pessoal: 14

Não temos aqui nada de extraordinário. Mas temos um vinho curioso, bem feito, onde se nota aprumo e limpeza (perdoem-me este abuso). Não envergonha. Só gostaria de saber como pode custar apenas 2,99€? Dá para pensar.
Vale a pena arriscar. Se gostarmos, ainda bem. Se não, o prejuízo é reduzido.

Post Scriptum: Disparando em outra direcção. Manifesto aqui a minha desconfiança relativamente ao novo aeroporto. Continuo sem saber se, de facto, precisamos de uma estrutura daquela envergadura. Olhando para o assunto, com os olhos de leigo, de povo, parece-me que estamos perante um pobre que vai investir mais um pouco da sua vida num luxo.
Depois terei que me preparar para a
betanização desejada (pelos autarcas). Em redor, surgirão tapetes de cimento. Enfim.

domingo, janeiro 06, 2008

A Reserva do 2º Grou

No início, logo que meti a narina dentro do copo cheguei a temer que, lá do interior, surgisse apenas a maldita fruta. Receei que fosse atacado pelo enjoo e enfastiasse a refeição (um risoto de espargos que preparou a vinda de um borreguinho assado no forno, com pouco tempero). Não seria a primeira vez que largaria um vinho, puxando a água para a minha beira.
Apesar de ter mantido a sua matriz frutada, ao longo da minha noite, foram irrompendo a bem do meu nariz várias sensações aromáticas de semblante floral. Iam puxando cá para fora uma pequena quantidade de bálsamos que ajudaram a refrescar o vinho, aliviando o hálito, tornando-o mais leve e sadio.
Os ponteiros do relógio foram essenciais no ajuste dos aromas (e dos sabores). Tornaram-se num amigo, num grande amigo. Dele e meu. Carvão e gotas de tinta da China acercavam-se, agora, tentando erguer mais uma cerca em volta da fruta. Insuficiente para barrá-la convenientemente.
O gosto era mentolado, frutado, com uma sensação final a baunilha. A estrutura, o esqueleto era mediano, com capacidade muscular suficiente. Nota Pessoal: 14,5

À medida que lançava os meus apontamentos na folha, encalhei num fatídico pensamento: "Qualidade é visível, mas não sai do tradicional intervalo compreendido entre 14 e 15,5. Por mais que prove, não saio daqui."
A maior parte dos vinhos, que andam por aí, apresentam poucas diferenças entre eles. 0,5 para cima ou 0,5 para baixo, no essencial, querem dizer a mesma coisa.
O Grou 2 Reserva 2005 é um tinto alentejano com interesse, mas longe de proporcionar uma correria para o apanhar. Por 10€, parece-me que existem melhores opções.

quarta-feira, janeiro 02, 2008

1980

Olhamos para o passado e escolhemos um sketch específico. Aquele que marcou mais.

Os anos 80 estão na moda. Para aqueles em que o relógio biológico anda pelos 30 e 40 anos, foi a década onde tudo aconteceu. A música, as roupas, o VHS, as discotecas, os convívios na escola secundária, aos sábados à tarde, os ténis Sanjo. Um rol de lembranças que surgem por todo lado. Está na moda.
Vinhos dessa altura é que não estão na moda. Quem tem paciência para vasculhar garrafas com o carimbo dessa década? Quem se entretêm a perceber o que eles dizem?
Em jeito de provocação peguei num esquecido Frei João Reserva de 1980 (para o almoço do primeiro dia do ano).
Muita dificuldade para descrever, para interpretar os aromas. Eram registos diferentes. Difíceis de decifrar. A chave do código não estava ali à mão de semear. Passo a passo, tentei que a sequência fosse revelada. A cada pergunta, uma resposta. Muitas delas erradas. Novas tentativas, novos falhanços. Incrível a forma como esqueci as minhas primeiras lições. Tentei recordar os primeiros apontamentos que fiz sobre o vinho. Tinha sido na companhia dos tintos de 70 e de 80 (do Dão e da Bairrada) que comecei a beber vinho. Durante muito tempo, foram os meus únicos pontos de referência. Era por essas bandas que andava. Depois numa louca tentativa para modernizar-me, apanhei o comboio dos outros (bem mais rápido que o meu). Interessava, apenas, provar as novidades. Desliguei-me do passado. É, agora, uma efémera lembrança.
Urze e carqueja pareciam quer sair lá de dentro. Depois, cerrando os olhos, julguei sentir qualquer coisa parecida a cogumelos. Estariam debaixo de cedros. Terra? Passo à frente, passo a trás, andei em redor do copo para enxergar outras sensações. Muitas delas não tinham paralelismos. Depois como um amigo diz: "Esqueces que os vinhos são para beber, para serem desfrutados."
Os sabores, infelizmente, estavam débeis. Revelavam uma fragilidade meio desoladora. Foi tratado de forma respeitosa. Não puxei mais por ele.

Não atribuo Nota Pessoal, por assumida incompetência pessoal e reverência. Fica o registo de um momento que não esquecerei.

terça-feira, janeiro 01, 2008

Viajero Cabernet Sauvignon

Assim foi. Num ápice lá voltei (ao LIDL). Tinha esperança que as surpresas continuassem. Trouxe para casa o Cabernet Sauvignon (Viajero Gran Reserva 2006). Esta casta que tem dado água pelas barbas.
Este chileno andou, durante algum, preso a aromas que levaram as narinas para o meio de carvão, da grafite (e onde se mantiveram durante algum tempo). Acompanhavam com algo ou alguém que largava um odor metálico, meio ferroso. A evolução permitiu que fossem acordando lentamente cheiros a ginja, a bagas vermelhas, a licores. Casca de árvore, bálsamos e terra negra iam surgindo com o girar do copo. Canela e baunilha especiavam o vinho. Incomodativo era a constante sensação ferrosa. Andava por ali. Um pouco mais longe, um pouco mais perto. Chata.
Não tendo muitos recortes técnicos, mostrou-me que sabia tocar a pauta decentemente. Está certo. Numa equipa também são precisos operários. As estrelas servem, apenas, para marcar a diferença. O que são umas sem as outras?
Na boca sentiam-se sabores levemente mentolados, envolvidos por sugestões silvestres. Mantinha-se lá dentro discretamente, de forma aprazível e amena. Os taninos pareceram-me finos (talvez em demasia). Com razoável arredondamento. Apesar de calmo e correcto, ganharia mais se mostrasse um pouco mais de garra, de arcaboiço.
Olhando, globalmente, para este Cabernet Sauvignon de marca branca, arrisco afirmando que portou-se melhor nos aromas que nos sabores. Não foi tão consistente como o carménère.
É, no entanto, mais um exemplo que os vinhos podem andar por muitos lados. Nota Pessoal: 13

Post Scriptum: Curioso foi a (quase) ausência de pimentos. Nada mau.

Posfácio
Para terminar este circuito, digo-vos que achei graça ao Sauvignon Blanc (2007). Mostrou, na totalidade, aromas e sabores identificativos da casta. Bom para aperitivo. O Pinot Noir&Syrah (2006) revelou ser um vinho apelativo. Para agradar à malta.
Não irei escrever qualquer texto sobre eles (que pertencem à família Viajero Grand Reserva). Acabaria por tornar a coisa chata. Uma sequela interminável e redundante.