sexta-feira, dezembro 28, 2007

De volta ao LIDL

Encontram-se ao nosso dispor nas prateleiras de uma superfície comercial conhecida por oferecer produtos baratuchos, sem pedigree, aos que não possuem bolsos carregados de euros.
Numa investida final antes de ir até à terra para comer a couve, o polvo e o borrego, passei pelo LIDL e tirei de lá dois vinhos chilenos (Viajero Gran Reserva). Um Chardonnay e um Carménère. Ambos de 2006. As garrafas mostravam cuidado e aprumo na forma que se ofereciam ao consumidor. Bonitas.

O branco (chardonnay) revelou uma face bonita, cristalina, límpida. Os aromas andaram perto da fruta em calda. Pêssego, ananás e alguns nacos de manga. A madeira, apesar de formar com a fruta um bloco com alguma coesão, pareceu-me ter demasiado protagonismo (Foi deixando a sua marca ao longo da refeição). Frutos secos, baunilha e coco acabaram por saber bem (Estamos no Inverno). Alguma lima e erva tentaram, sempre que possível, deixar um saudável rasgo de limpeza. Nada mau.
Os sabores encaixaram no mesmo registo dos cheiros. Fruta e madeira (com a esta a notar-se lá para a frente). Razoável nível de frescura. Final amendoado e baunilhado.
Pena o aparente excesso de madeira. Acredito que seja um pormenor (pessoal). Nota Pessoal: 14

O tinto (Carménère) encaixa no grupo onde se encontram aqueles vinhos a que não viramos a cara. Gulosos e redondos. Este criou empatia desde o início. Não sendo um exemplo de extraordinária complexidade, mostrou-me que não estava ali para envergonhar ninguém. Tinha objectivos (bem) definidos. Proporcionar prazer em qualquer altura.
Cacau, fruta, licores e tabaco marcaram os aromas e os sabores. Souberam bem e nunca chatearam. Acompanharam perfeitamente a tagarelice (com a família numa noite passada). Foi bebido literalmente até à última gota e mais não digo. Nota Pessoal: 15

Caiu uma sensação de alivio. Tinha arriscado em vinhos (para alguns serão apenas coisas) que vieram do tal supermercado. Sou capaz de lá ir para trazer o Cabernet Sauvignon e o Pinot Noir&Syrah. Não é tarde, nem é cedo.

Post Scriptum: Lembram-se deste texto? As amarras do preconceito estão literalmente quebradas. Quero lá saber do que podem dizer por aí.
Post Post Scriptum: Gostava que, um dia, estes e outros vinhos fossem provados pelos críticos. Só para comparar com os que têm rótulo.

sábado, dezembro 22, 2007

Aos que acreditam!

Passou muita água por debaixo da ponte. Promessas, intenções, desejos foram sendo feitos ao longo do ano. Que ficou? Pouca coisa. Renovam-se, outra vez, as mesmas intenções, fazem-se as mesmas promessas, pedem-se os mesmos desejos. Espera-se que na próxima remessa surja aquilo.
Detestável é a hipocrisia que nos afoga nesta altura. É como se um pano encharcado em lixívia andasse por aí a limpar os detritos, a imundice, a vilanagem de 12 meses. Por breves momentos, tudo surge enganosamente limpo, esterilizado e incólume.
Defende-se a máxima: o Natal é quando um homem quiser. É pena que ele não queira vivê-lo mais vezes. Se o fizesse, o pano não precisaria de tanta lixívia.
Resta-nos, apenas, fingir que somos felizes e que ao virar da esquina seremos todos amigos, mesmo para além do dia 2 de Janeiro.

Apesar de não sentir o Natal, desejo a todos vós o melhor do mundo. Faço um brinde aos que conseguem acreditar, aos que ainda ouvem os guizos.

Post Scriptum: Durante estes dias, costumo ser uma personagem diferente. Serei um indivíduo que crê na magia, por causa da filha.

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Vila Santa

Estamos atravessar uma época em que os interesses navegam por outras bandas. Por estes lados, mesmo não ligando ao que se passa em redor, o tempo não tem sido muito para vir até aqui. De qualquer modo, e para manter o fogacho aceso, trago mais um tarolo para que a conversa não morra.
Um vinho que não precisa de apresentações, de grandes dissertações. É um exemplo de consistência. Desde os idos 1997 que este tinto ensina como é possível manter o desejado equilíbrio entre preço e qualidade. Todos os anos verto uma garrafa para ver como ele anda.
Coisa a mais
, coisa a menos, percebe-se que as alterações são poucas. Assim de passagem, e para não perder muito tempo, o Vila Santa 2004 apresentou aromas que andaram essencialmente em redor das sensações terrosas, vegetais e silvestres. Bem alinhavados e sem que a fruta marcasse presença assídua. Original sensação a camurça oferecia ao vinho um toque rústico. Longe de exuberâncias desmedidas, afastado de calores desnecessários. A frescura saltava do copo. Pequena evolução para canela, cacau amargo e folhas secas. A madeira pareceu-me ter, por momentos, aspecto exótico. Cheiros com alguma classe.
O paladar era ameno, aprazível. Sentiam-se sabores balsâmicos e silvestres. Reforçou, mais uma vez, a sensação terrosa do vinho. Taninos macios (a indicarem que estariam, provavelmente, no ponto alto de afinação. De vez em quando, olhavam lá para baixo). Final levemente mentolado. Um vinho que, ao ser vendido por 10€, bate com luva branca na face dos finórios. Este 2004 está calmo e pede para ser bebido. Nota Pessoal: 15,5

É fácil falar bem deste vinho. Todos gostam.

domingo, dezembro 16, 2007

O Cabernet Sauvignon da Ermelinda

Ao provar este vinho, lembrei-me, várias vezes, de um pequeno texto que escrevi para o Pingas no Copo. Na altura, tracei umas quantas linhas para falar da influência do rótulo no consumidor. Aliás, e passado algum tempo, continuo a olhar para o assunto da mesma forma. O rótulo e agora a casta (vejam a loucura que existe em redor da Touriga Nacional) influenciam e muito. Se é famoso e caro, facilmente poderemos, ou não, gostar dele. Se for o oposto, é facilmente desculpabilizado. É a gestão das expectativas. Este varietal produzido por Ermelinda Freitas encaixa que nem uma luva no que acabei de referir. A casta matutava na cabeça. Olhava para o rótulo (que é acidentalmente parecido com outro que existe para os lados da COOP de Pegões) e via escrito: Cabernet Sauvignon (C.S.). Estaria ali, finalmente, um vinho onde esta casta faria abrir a (minha) boca de admiração e levantar-me para aplaudi-la? Estão, ainda, bem presentes aqueles que já provei. Vinhos que, na sua maioria, eram marcadamente vegetais, onde sugestões a talo de couve, a verdete e a pimentão impuseram registos aromáticos e gustativos pouco apelativos, pouco atraentes. Tudo, quase, sem interesse.
Influenciado por esse passado sinistro, este Cabernet Sauvignon de Ermelinda Freitas acabou por não sair da mediania de outros C.S. portugueses (que são os meus pontos de referência). O talo de couve voltou a surgir, o verdete reapareceu, o pimentão (que detesto) marcou presença. A coisa tentou animar, por momentos, com uns tímidos apontamentos a mentol e a hortelã, amparados por uma breve impressão mineral. Pensei que iria libertar-me dos meus preconceitos. Sol de pouca dura. O paladar era (muito) vago. Poucos sabores, com uma ligeireza absurda, liso. Estranho. Que raio. Seria vinho? A minha incompreensão e o meu amadorismo terão, certamente, influenciado as apreciações. Peço desculpa por isso. Nota Pessoal: 12,5

Ganharemos alguma coisa em beber sistematicamente maus Cabernet Sauvignon? Valerá a pena continuar a investir em varietais portugueses feitos unicamente com esta casta?

sexta-feira, dezembro 14, 2007

A Trincadeira da Ermelinda

Existem vinhos baptizados de fáceis, ligeiros e directos. São estinados aos maçaricos. Os outros são para a elite, para os que frequentam o clube.
Na ansia de tentar um lugar nesse estranho e obscuro meandro, muitos lançam-se para o meio dos vinhos difíceis, duros e complexos. Na maior parte das vezes, a infelicidade cai sobre o copo porque não proporcionaram o prazer que era esperado. O esforço é enorme para demonstrar que conhecem e dominam a ciência. Acreditam, deste modo, que um dia poderão ser respeitados pelos que frequentam o clube. Pura ilusão. Não existe democracia no mundo dos apreciadores de vinhos. Está literalmente dividido entre uns e outros.
Esta ladainha serviu meramente para ovacionar um Trincadeira (2005) das Terras do Sado. Despontou da garrafa com muitas flores e com uma valente pazada de terra negra. Os aromas adensaram-se, um pouco, com uma pitada mineral que surgia envolvida por sensações balsâmicas e mentoladas. Registo alegre. Não fingiu que era outra coisa (mais séria). Aplausos para a sinceridade. Fruta fresca, sumarenta e bem lavada. Infantil sensação a leite com chocolate e pastilha elástica aumentaram a alegria do tinto. Grão de café e meio charuto intrometeram-se pelo meio, marcando a parte final. Uma panóplia de cheiros joviais, pouco complicados e apelativos.
Os sabores eram agradáveis. As sensações vegetais misturaram-se com a fruta e com tosta formando um bloco coerente. Tudo afinadinho e com equilíbrio (não esperem um tinto extraído, quente e pujante. Decisão acertada de Ermelinda Freitas). Um tinto que merece ser provado. Melhor, merece ser bebido. Alivia o cansaço e distrai-nos um pouco. É preciso mais? Para mim não. Nota Pessoal: 15

Post Scriptum: Só não percebo uma coisa. Porque carga de água os rótulos que vestem os varietais da produtora Ermelinda Freitas são acidentalmente parecidos com os varietais da Adega Cooperativa de Santo Isidro de Pegões?

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Três Bagos, Três Colheitas (Parte I)

No meu currículo de enófilo, participei em poucas provas verticais. Dizem os verdadeiros especialistas que provas verticais são excelentes momentos para percebermos a filosofia de um produtor, observar eventuais mudanças de estilo e tomar o pulso à evolução dos vinhos.
Irei apresentar-vos e partilhar alguns comentários sobre duas provas verticais em que participei recentemente (Três Bagos Grande Escolha e Pintas). Pequenas amostras baseadas em 3 colheitas: 2001, 2003 e 2004. Verdade seja dita, falamos de nomes que existem há poucos anos.
Dividi a referida prova em dois textos que serão publicados em momentos distintos. A leitura fica mais facilitada, permite analisar melhor o perfil do produtor e dos vinhos. Tentei ser objectivo, directo e simples no discurso. Evitei ao máximo meter-me por caminhos enviusados, apesar do prazer que tenho em perder-me no meio dos vários enredos que teço sobre o vinho. Ele é, para mim, um elemento que deve proporcionar prazer, feito para fazer companhia nas viagens. Assim continuarei. Regresso ao que interessa.

Três Bagos Grande Escolha, Lavradores de Feitoria. O topo de gama desta associação de produtores do Douro. Estamos perante um vinho que passa, em muitos casos, completamente despercebido. Não é a primeira escolha quando falamos em topos de gama. Diria que é injustamente preterido. Tal como num filme, existem actores que podem enriquecer o elenco. E este desempenha muito bem esse papel. Mas adiante.

Na colheita 2001 surgiu inicialmente com face ligeiramente rústica, onde sugestões a lagar combinavam com cheiros vegetais. Deslumbrava-se no horizonte um tinto com cunho clássico e muito personalizado. O balsâmico, o silvestre, bem como uns valentes nacos de flor rasteira reforçavam o toque vegetal. Impressionante a largada de ervas aromáticas. Rodopiavam em roda-viva. Tomilho, alecrim, carqueja, erva-doce. Um conjunto de aromas, de cheiros, de odores, onde a fruta nunca ditou leis. Tudo bem feito.
Na boca, comportamento distinto. Os sabores revelaram classe e aprumo. Surpreendente, mais uma vez, o equilíbrio demonstrado. Sem magoar, sem aleijar.
Não teve percalços no caminho que trilhou ao longo destes 6 anos. Agora, com a idade virou-se para a contemplação. Quem o tiver, durma descansado ou, em última análise, beba-o. Faça como quiser, não haverá arrependimentos. Nota Pessoal: 17,5

Colheita 2003
, ano diferente. Semelhanças apenas no cunho vegetal, na rusticidade. De resto, andou um pouco longe da classe, da complexidade, do anterior. Apesar das diferenças, valeu pelas interessantes sensações minerais que foi largando ao longo da prova. Muita lasca de pedra, muita lousa. A alfazema tentou, sempre que lhe era possível, perfumar o copo.
Os sabores surgiam um pouco débeis. A acidez insinuou-se de tal maneira que me levou a pensar que tinha, ali à frente, um vinho com aptidão gastronómica. Foi curioso constactar que uma colheita mais recente e quente, deu origem, em termos gerais, a um vinho pouco frutado, pouco quente e aparentemente fresco. Não deixa de ser interessante. Nota Pessoal: 15,5

Colheita 2004
.
Pareceu-me ser uma colheita de transição. Foram feitos compromissos entre o passado e o futuro. O lado vegetal detectado nas outras duas colheitas, apesar de voltar a surgir em 2004, mostrou-se, agora, recheado pela fruta e pelas passas. O cacau amargo e o chocolate que surgem aqui, ajudam a mudar a face do vinho. Cheiros mais pujantes, mais vivos. A juventude a falar. As sensações terrosas e a esteva reforçam a força do vinho.
No paladar revelou (alguma) ligeireza que não esperava. Boa acidez, com os taninos bem domesticados. A discrepância entre a exuberância dos aromas e a tal ligeireza de sabores foi, para mim, o que mais marcou. Fiquei com algumas dúvidas, com a pulga atrás da orelha, por causa dessa diferença. Preciso de tirar as teimas mais tarde a esta versão moderna. De qualquer modo, um vinho que já desafia. Nota Pessoal: 16

Post Scriptum:
Uma experiência interessante que ajudou a mudar o olhar que tinha sobre estes tintos. O mais velho ganhou, por muito, aos mais novos.

sábado, dezembro 08, 2007

Monte Maior 2005

Vou perder pouco tempo na descrição deste tinto. Existem momentos em que ao esticarmos a coberta, vemos que ela não dá para tudo. Tapam-se os pés. Destapa-se a cabeça.
Fruta em catadupa. Fruta madura. Muitas amoras, carradas de ameixas (informações do contra-rótulo). Esbugalham-se os olhos. Pelo meio da fruta, tentei olhar para a frente, para os lados e para atrás à procura de qualquer coisa diferente. Por momentos, animei com umas pequenas sugestões vegetais. Mas a fruta voltou. Sempre madura e sempre a mesma. Soltaram-se enormes bocejos. O dedo batia na mesa, cabeça estava inclinada e sobrolho descaiu. Não há mais nada? Tudo muito trivial, roçando o desinteresse.
Fruta na boca. Fruta do principio ao fim. Apresentava-se com fruta, deixava fruta por todo lado e ia-se embora deixando fruta. Mais nenhum sabor para partilhar. Pouco ficou na memória. A estrutura era débil. Demasiado ligeiro para continuar a falar dele.
Percebe-se que é feito para ser bebido e pouco mais. Caramba podiam (lá na Adega Mayor) ter feito a festa mais barata para o consumidor. Por (quase) 7€ torna-se numa péssima opção. Engrossa, apenas, as prateleiras de vinhos indiferenciados. Nada mais. Num confronto com este, perde por Knock Out. Ambos são alentejanos e têm a mesma idade. Nota Pessoal: 12,5

Post Scriptum: A minha sorte foi o cafézinho que tomei no final da refeição. Deixou mais sabores, mais aromas.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Quinta do Quetzal

Este nome passou pela minha frente n'A Hora de Baco (já agora, acabou?). Depois voltou a reaparecer numa reportagem da Revista de Vinhos. O tema andava à volta da nova relação entre a arquitectura e o vinho. Tudo isto era suficiente para despertar a minha curiosidade. Estava perante um produtor que não conhecia. Era necessário que essa esquina fosse torneada.
Começo a ronda com o Quinta do Quetzal (Vidigueira, Baixo Alentejo), um vinho branco de 2005 (não deixa de ser curioso). Na caldeira onde foi feito aparece apenas a casta Antão Vaz. Depois adormeceu envolto em madeira. Por lá ficou durante algum tempo.
As sugestões vegetais marcaram os aromas, proporcionando frescura e alegria. Erva na fase inicial, folha de tomate e figueira lá mais para a frente. A fruta, que foi despontando com o desenrolar da prova, revelou uma faceta ácida, onde a maçã, a lima e o limão encarregavam-se de reforçar a frescura do vinho. Por entremeio, surgiram pequenos pedaços de ananás. Um pequeno ramalhete de flores brancas (gostei desta expressão) perfumava o copo. Toques amendoados e um pouco melados faziam o remate final, sem protagonismos exagerados.
Na boca o vinho pareceu estar equilibrado, bem arranjadinho, com nenhuma ponta fora do sítio. Bom nível de frescura. A madeira, mais uma vez, não apresentou pose autoritária. Mastigavam-se (não esperem coisas brutas) amêndoas, avelãs e um pouco de mel.
Um vinho que revelou ter um comportamento harmonioso, sem recorrer a grandes exuberâncias. Acima de tudo mostrou-se sadio, directo e calmo. Uma feliz descoberta. Pessoalmente, não o guardava muito mais tempo. Nota Pessoal: 15

Post Scriptum: A enologia é da responsabilidade de Paulo Laureano.

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Permitem-me?

Estão filiados num clube onde raramente entro. São vinhos que raramente bebo e raramente são descritos por mim. Quando acontece, é com muito cuidado que o faço. Nos brancos, nos tintos, nos moscatéis e nalguns colheitas tardias aventuro-me um pouco mais além, atrevo-me a ir mais longe, consigo trocar algumas ideias com vocês. Quando a coisa vai até aos Vintages e Colheitas fico, quase sempre, pela observação. Ouço quem sabe. Mas agora não aguentei, não resisti. Vim a terreiro partilhar algumas palavras sobre o Niepoort Vintage 2005 e o Niepoort Colheita de 1976. Permitem-me?

O primeiro é um típico exemplo de um Vintage bastante jovem, com muitas sugestões químicas. Depois de quebrado o colete químico, a fruta madura (ameixas pretas) apodera-se do vinho. Vastas sugestões de violetas rompem por entre o (enorme) aglomerado de frutos e perfumam o vinho. A presença de odores minerais refrescam o nariz. As especiarias, uma ponta de baunilha e o caramelo fecham um bloco espesso, escuro e negro.
Ao entrar pela boca mostrou, mais uma vez, a força da sua juventude, o seu vigor. Pastoso e muito mastigável.
Um generoso que irá caminhar, certamente, com segurança durante muitos anos. Fica apenas a (minha) dúvida. Bebê-lo enquanto jovem ou deixá-lo adormecer uns belos anos. Por mim, é já. Não sei se estarei cá ao virar da esquina. Nota Pessoal: 18

O segundo, engarrafado em 1997, ditou uma pauta diferente. Uma pauta que aparentemente percebi melhor. Era a (minha) inocência a pregar partidas. Perfumado, muito cheiroso.
Fingiu ser frágil. Servia, apenas, para caçar, prender ao copo.
O desprender do vinho libertou uma profusão de aromas que iam desde o verniz, a madeira, a folha seca, o tabaco, o caramelo, a canela e muita farripa de laranja caramelizada. Encontrar outras palavras, outros adjectivos, tornaria este texto vácuo, inócuo, palerma. Não quero.
É um vinho que, apenas, pede para ser bebido, desfrutado, não para falar dele. Nota Pessoal: 18,5

Post Scriptum:
As minhas notas revelam a falta de referências. Acredito que haja melhor, muito melhor. Mas que fazer quando não existe com quem comparar?

domingo, dezembro 02, 2007

Santa Vitória 2005

Tenho reparado que se torna difícil encontrar um vinho a baixo preço (<5€) que consiga proporcionar um nível de prazer interessante e ao mesmo tempo mostre algo diferente. Apesar disto, noto que os vinhos que circulam pelas gamas baixas revelam mais qualidade. É bom para o consumidor. O risco de apanhar uma bela zurrapa é menor. Ainda bem.
O que cansa é olhar para eles e ver que comportam-se, quase sempre, da mesma maneira. Possuem os mesmo argumentos, oferecem os mesmos sabores, os mesmos cheiros. Só o rótulo os distinguem. Bem vistas as coisas, também nas gamas mais ricas isto acontece. Só que aí a compreensão é menor e os erros não se perdoam com tanta facilidade.
Notícia, para mim, é apanhar uma pérola no meio deste mar homogéneo. Com 5€, cacei um vinho tinto alentejano curioso, bem conseguido, que conciliou facetas raras nesta gama. Boa escala de aromas, bom paladar, nunca caindo em monotonia. Não soltei um bocejo. Vem daqui.
Aromas vegetais, terrosos e pequenas sensações florais prenderam a minha narina ao copo. Era fresco, alegre, quase primaveril. Curiosa, muito curiosa, a impressão a carvão (pensem no cheiro que se solta quando afiamos o lápis). Durante a sua estadia no recipiente, ganhou cheiros especiados que sugeriram canela. Estava misturada com o tabaco, com a baunilha, com uma leve sugestão a cacau amargo. A fruta? Silvestre, sem açúcar. Sedosa.
Os sabores eram sadios e vivos. Fui confrontado, mais uma vez, com um comportamento que combinou alegria com seriedade. O vegetal, a tosta e a fruta formavam um bloco bem conseguido. Apetecível, saboroso, com boa largura. Nunca se tornou chato, monocórdico. Pelo preço que paguei não posso pedir mais. Não posso. Nota Pessoal: 15

Post Scriptum: Nunca tinha provado este vinho. Olhei muito para ele. Sempre julguei que era igual aos outros. Como tal, não valia a pena prová-lo. Enganei-me. Parabéns à casa.