terça-feira, outubro 30, 2007

Uma decisão polémica

O cenário era composto por três vinhos alinhados, que foram caindo para dentro do copo na mesma altura. Estiveram, durante algum tempo, a olhar para mim. Notava-se o esforço que faziam para que um deles fosse escolhido como o melhor. O silêncio encobria uma aguerrida disputa. Ninguém queria ficar preterido. A liça, apesar de curta, foi acutilante e voraz.
Não descortinei um claro vencedor, que esmagasse os seus adversários. Estavam todos bem preparados. Eram, apenas, vinhos com estilos, modos de estar diferentes.
Tive que decidir, tive que optar. A decisão foi controversa. Houve reclamações e contraditório. Um deles não ficou nada satisfeito. Barafustou. Tinha, segundo o próprio, demasiados argumentos para vencer sem qualquer contestação. Julgava-se mais apto, mais próximo do que se pretende de um Colheita Tardia. Notei um pouco de altivez (desnecessária). As (minhas) deliberações foram, sem dúvida, polémicas e provavelmente (muito) pouco consensuais.

H.E. Late Harvest 2006. Acordou para a sessão com aromas que fizeram lembrar combustível, que se envolviam suavemente com algo que recordava pão quente, panificação (Pensem numa padaria a laborar ao longo da noite). O caminhar foi delicado, muito cativante, onde, por momentos, odores a erva verde e calhau molhado proporcionavam um ambiente primaveril. A doçura era disponibilizada através de umas nesgas de nougat. O corpo apresentava (alguma) elegância e descrição. Níveis de doçura pouco elevados. Frescura bem projectada.
Pareceu-me que não tinha grandes argumentos para evoluir em garrafeira, mas fiquei surpreendido pelo equilíbrio e acerto que demonstrou. Cometi o sacrilégio de lhe atribuir a Nota Pessoal de 16,5.

Projectos Vindima Tardia 2003. Muito seco na fase inicial. Aliás, a secura marcou indelevelmente o perfil aromático deste Niepoort Tardio. Mais uma vez, os aromas petrolados andaram por perto misturando-se, desta vez, com flores brancas e feno. Na boca, o paladar era fresco e seco. Manteve a balança da doçura bem equilibrada. Pareceu ter capacidade para evoluir com dignidade (Acidez bem colocada).
Em linhas gerais, um vinho muito afinadinho que revelou ser diferente. Um projecto bem conseguido. Atribui-lhe a Nota Pessoal de 16,5.

Grandjó Late Harvest 2005. Ora aqui está o vinho que me deu água pelas barbas. Mais melado que os anteriores. Com um estilo mais tradicional, com uma forma de actuar mais consentânea com o que estamos à espera de um Late Harvest (Esta afirmação deu pano para mangas. Discutiu-se, e muito, a ideia de que não podemos olhar para este Grandjó como o único exemplo a seguir).
Uma trupe constituída por casca de laranja caramelizada, mel e passas encarregou-se da actuação. Muito voluptuoso, com alguma gordura e doçura que se podiam (eventualmente) dispensar. Os sabores eram, naturalmente doces, gordos e cheios. Fui martirizado ao atribuir-lhe a Nota Pessoal de 16.

De qualquer maneira, gostos e polémicas à parte, estive perante uma pequena amostra do que se anda a fazer em Portugal no que respeita a colheitas tardias. Não fiquei desiludido (Tomar nota que o conhecimento que tenho sobre este tipo de vinhos é muito reduzido).


domingo, outubro 28, 2007

Outros sabores

As modas da gastronomia apontam, actualmente, para caminhos que parecem, em muitos casos, tratados de ciência (eu sou um apaixonado pela ciência). Fico com a ideia que é esquecido o essencial (acredito que seja um pouco redutora esta consideração).
Tal como nos vinhos, surgiram inúmeros indivíduos que se lançaram desenfreadamente à procura de acepipes que demonstrem, visualmente, que têm classe e que possam contribuir para fazer um brilharete, junto dos amigos. Muitas vezes, não acrescentam nada, do ponto de vista gustativo.
Depois é sugerida a obrigatoriedade (se houver capacidade financeira) de correr em direcção de um restaurante, mais ou menos badalado, em que as propostas oferecidas tenham por base o estranho conceito: Cozinha de Autor. Estou, ainda, para perceber o que isso quer dizer. Parece-me que, em última análise, toda a cozinha é de autor. A que vocês fazem, a que o Ti Manuel faz na tasca, ali da esquina.
O que me leva a preencher estas linhas é a necessidade de partilhar com vocês sabores quase esquecidos. Para muitos, ou melhor para alguns, serão sabores tacanhos, simplórios, de pouca complexidade, que representam um passado que deve ser esquecido bem depressa. Limpo com um pano cheio de lixívia.
Foi com emoção que vi uma mesa coberta de compotas, marmelada, frutos secos, maçã bravo de esmolfe. O perfume largado impregnava a sala. Entranhava-se no corpo, na roupa. Os olhos humidificaram, ficaram brilhantes. "Ainda existem!" Um pequeno retalho de um mundo que caminha, a passos bem largos, para a extinção. Pertença de homens e mulheres sem malícia, que respeitavam, que compreendiam as ordens da Natureza. Pão escuro e queijo já envelhecido compunham o resto. Copos de curta capacidade serviam para molhar a goela. Por entremeio, ouviram-se estórias. Tudo muito simples, com uma ingenuidade quase chocante. Caramba, o que esquecemos.

Post Scriptum: Peço desculpa, por ter faltado à palavra. Não regressei a falar de vinho.

Post Post Scriptum: Em termos genéricos, o crítico de vinhos João Paulo Martins disse que, qualquer dia, um simples tomate, verdadeiramente natural, será considerado um produto gourmet. As voltas que o mundo dá!

sexta-feira, outubro 26, 2007

Um pequeno descanso

Irei até à terra, em véspera de celebrar a memória dos que já foram. Irei aproveitar umas curtas, mas desejadas, horas no meio de um povo que muito estimo. Falarei, olharei, pensarei sobre estes e os outros mundos. Descansarei. Voltarei para a semana para falar novamente de vinho (que é o actor principal desta novela), de nós e fatalmente de mim.

Levanto o meu copo e brindo a todos vós!

domingo, outubro 21, 2007

Com a Têmpera Ideal

Acabei de realizar uma limpeza na garrafeira. Foi mais uma vistoria a alguns vinhos que andam aqui por casa. Objectivo foi, tão somente, verificar se valem a pena continuarem a dormir ou, se pelo contrário, merecem sair (rapidamente) do escuro, do vidro. É, apesar de tudo, uma tarefa complicada. Por diversos momentos, confrontei-me com situações ambíguas. Duas garrafas (do mesmo vinho), acondicionadas no mesmo local, apresentaram níveis de evolução algo díspares. Depois, alguns dos vinhos que adquiri, no passado, não trilharam os melhores caminhos. Os níveis de afinamento, não tomaram os patamares desejados (para mim). Uns pararam, outros perderam-se.
De uma forma geral, dizer que um vinho estará em boas condições ultrapassada a barreira psicológica dos 5 anos roça, em muitos casos, a adivinhação. Estou a pensar na maioria dos nossos topos de gama. São os vinhos em que depositamos mais esperanças. Acreditamos que irão evoluir dignamente, justificando todos os euros que custaram. Muitas vezes, carpimos bem alto.
Entre brancos e tintos abertos, partilho com vocês alguns comentários sobre um vinho de José Bento dos Santos. Têmpera 2001. Um tinta roriz da Estremadura que estava recolhido há muito tempo. Precisava de saber se valeria a pena manter a sua hibernação ou despachá-lo, o mais depressa possível.
Saiu do vidro de forma suave, delicada. Agradeceu com um molho de flores, de aspecto silvestre. A canela e o caramelo surgiram envolvidos por bálsamos, criando em redor do copo um ambiente de conforto, de alívio. Uma curiosa sensação a pastilha elástica, de sabor a morango, transmitia um pequeno rasgo de juventude. Tudo num registo fresco e leve (mas não leviano). Adensou, um pouco mais, a sua complexidade com sugestões minerais. Como num qualquer encontro, as despedidas foram feitas com um trago de licor de ginja e uma pequena porção de baunilha.
Na boca, o paladar era fresco e vermelho. Mais uma vez mostrou timbre meigo e delicado (avisando que não irá aguentar muito tempo). Taninos e acidez bem envolvidos no corpo. Terminava deixando tudo arrumado. Nota Pessoal: 16,5

Um vinho que merece ser bebido. Não irá ganhar com o prolongamento da guarda. Acordem-no e desfrutem. Um tinto que não cansa. Não enjoa, não farta. "É a Têmpera que transforma o ferro humilde no nobre aço."

sexta-feira, outubro 19, 2007

Perene 2003

Um tinto que nos convida a entrar (sem pressões) num ambiente simpático, muito cordial. Os olhos, aqui, esbugalham-se de admiração. Estava à espera de algo mais bruto, mais rude.
Serviu fruta madura, sumarenta e suculenta. Sem enjoar. Parecia que tinha sido colhida, não há muito tempo. Escorria pela goela, sem atritos. Levou-me, depois, num pequeno passeio ao longo de uma estrada tolhida pelas encostas de xisto, onde surgiam pequenas manchas de estevas floridas. Viagem suave, discreta, mas relaxante. Parámos aqui, além, para beber um pouco de chocolate, saborear a baunilha. Tudo ligeiro e brando. A vontade que tinha em continuar a viagem esbarrou na limitação do condutor. Não conseguiu ir mais longe. Meio acanhado, despediu-se timidamente.
Fiquei à beira de desfrutar um belo passeio. Tinha tanto para visitar. Ainda vi de relance, ao longe, meio tapado pelos morros, qualquer coisa que acenava. Escapou-me.
Talvez para a próxima, com outra companhia, com outro vinho, noutro ano. Nota Pessoal: 14,5

Post Scriptum:
Um Douro que anda, por aí, perdido nas prateleiras.

quarta-feira, outubro 17, 2007

Ainda existem!

Lembro-me com nostalgia os tempos em que comecei a olhar para o vinho de maneira diferente. Na altura, os vinhos possuíam nomes e rótulos mais prosaicos. Transmitiam, no entanto, um semblante de responsabilidade, de veneração, que agora parece não existir. Com o caminhar do tempo, com o refinamento dos (nossos) gostos (não sei muito bem o quer dizer) esses vinhos começaram a ficar para trás. Deixaram de ser interessantes. Foram escondidos propositadamente. Todos negavam que os bebiam (era pecado). Pertenciam, segundo alguns, a um passado que merecia ser esquecido, apagado. Os novos vinhos que estavam a surgir, em catadupa, eram mais bonitos, mais apelativos. Transmitiam, ao contrário dos mais velhos, um ar moderno, mais acessível, mais cosmopolita. Os velhos foram completamente relegados para as filas lá de trás, sem dó nem piedade. Agora preenchem vastas prateleiras, meio esquecidos. Parecem estrelas do cinema mudo a lutar por um qualquer papel (figurante não seria mau).

Percebendo o risco que estava a correr (muitos não bebem, não perdem tempo com os velhos) provei um Frei João (br) de 2004. O ano da colheita era, por si só, uma variável que poderia complicar, deturpar o meu olhar. Não estava à espera de grandes exibições, de grandes performances. Não era esse o cerne. Queria, acima de tudo, perceber se o meu gosto tinha, também, mudado de forma que impedisse uns quantos tragos.
De uma forma geral, este clássico branco da Bairrada libertou-se do copo com sugestões petroladas que foram atenuando e dando lugar a uma curiosa sensação a feno, a vegetal seco. Aliás, todo o perfil aromático do vinho era uma simpática combinação entre cheiros secos e ácidos (onde pontificavam a casca de limão, a maçã e erva verde), rodeada por uma aragem mineral.
Na boca, as sensações eram fumadas (curiosa esta marca), minerais e muito secas. Um prolongamento curto (é certo), mas nada desprezível.

Fiquei perante um vinho que mereceu mais que dois tragos. Deu, pelo menos, para falar com o meu pai sobre vinhos do antigamente, sobre o que se bebia no passado. Levei uma lição que calou o meu empertigamento enófilo. Tenho tanto para aprender. Nota Pessoal: 13

Post Scriptum:
Andei a vasculhar várias fontes, mas fiquei sem saber ao certo quem era o Frei João.

domingo, outubro 14, 2007

Passado, Presente, Futuro

Ao longo da refeição, e num inútil momento de reflexão pessoal, foram passando pela vista pequenos relâmpagos, sequências da (minha) vida, do meu passado. Soltos, sem qualquer conexão aparente entre eles. Tentei encadea-los com o presente, de modo a compreender o que faço. Ver se tudo era resultado de actos passados.
Tentei atalhar, depois, caminho para o futuro, para perceber (melhor) o que estaria ainda para desenrolar-se e tentar escolher o caminho. Deparei-me com varias encruzilhadas. As indefinições não permitiam estabelecer um contínuo temporal consistente. Não descortinei uma única imagem clara. Regressei ao presente e confrontei-me com o que estava dentro do copo.

Quinta das Estrémuas Touriga Nacional 2004. Um vinho espesso, grosso, extremamente torneado, roçando em certos momentos o exagero. Fiquei de olhos esbugalhados. Era impossível ficar indiferente. Um vinho do Dão?
Libertava-se do vidro com cheiros a cedro, a verniz, a tinta. A componente química marcava uma presença (muito) forte na fase inicial. Caminhou, posteriormente, para o novo mundo. O caramelo, a canela, a baunilha, marcaram (assertivamente) todo o comportamento aromático, deste anacrónico tinto do Dão. Licores de ginja, uva madura (lembrando, por momentos, a passa) contribuiram para o aspecto pujante do vinho. Por entremeio, surgiram sensações de terra revolvida e uma estranha impressão a rosas. Tudo numa intensidade que (quase) desentupia as narinas.
Os sabores, apesar de possuírem frescura balsâmica, eram vigorosos, cheios. Faltavam-lhe, no entanto, alguma delicadeza, alguma finesse.

Um estilo de vinho que poderá cansar um pouco (questiono-me se foi de propósito), em que será necessário ter algum cuidado com a temperatura de serviço. Não passou despercebido, mas senti que faltava ali qualquer coisa. Nota Pessoal: 15,5

Será que o Dão está comportar-se como a economia portuguesa e vai andar (sempre) em contra ciclo? Seria (muito) importante que fosse encontrado um saudável equilíbrio entre o passado, o presente e o futuro. Se assim não for, corre o risco de voltar à amargura do passado recente (o distante foi de glória). Poderá ser uma tarefa inglória, um pouco desmobilizadora, mas insistir na robustez, na força, poderá fazer voltar o "feitiço contra o feiticeiro" e tornar o vinho do Dão igual a tantos outros.

quarta-feira, outubro 10, 2007

Pensando

Os rolos de trabalho que se desenrolam, aliados à enorme falta de vontade para provar ou beber vinho, fazem com que o Pingas no Copo ande a meio gás. Tenho, como sabem, enorme dificuldade vir até aqui, quando a ponta da caneta não desliza como eu desejo. O que surge, na terrível e extensa folha branca, não tem interesse. São palavras fúteis, repletas de inocuidade, forçadas a partilhar a mesma linha, o mesmo parágrafo. Iguais a tantas outras que se dizem por aí.
Entretanto, vou pensando no que se alega por outros lados. Vou aprendendo.

Post Scriptum: Pode ser que surja qualquer coisa.

domingo, outubro 07, 2007

Touriga Nacional da Atela

Olhando para a vizinha região do Ribatejo (vivo muito perto da placa que separa o Distrito de Setúbal do Distrito de Santarém), reparo que consumo mais os seus brancos, que os tintos. Olho, ainda, de soslaio para eles. Assumidamente tenho algum preconceito. De qualquer modo, por uma razão ou por outra, lá me calha provar um tinto da Lezíria. Desta vez, a sorte caiu no Touriga Nacional da Casa da Atela.
Por falar em Touriga Nacional (T.N.), começo a notar algum bocejo, enfastiamento, quando reparo na enorme profusão de vinhos que ostentam esta casta (sejam eles na versão monocasta ou em lote). Tenho andado cismar sobre a forma como a T.N. anda a ser tratada e explorada (por todos). Começa a ser excessivo, cheirando muitas vezes a campanha publicitária. Criou-se a ideia no consumidor (e no produtor) que basta ser ou ter T.N. para termos um bom vinho e consequentemente vender bem (aliás, produzir ou provar um T.N. é quase condição sine qua non para se poder entrar na 1ª liga do clube dos vinhos). Considero profundamente redutor!
Depois, confronto-me com um conjunto, cada vez mais alargado, de Tourigas Nacionais de vários cantos do país, muito parecidos, pouco individualizados e muito estandardizados. Em certos momentos, fico com a ideia de falcatrua! Tipo: Aplica-se a receita e já está!
Por aqui, em Atela, a Touriga Nacional de 2005 apresentou-se com uma combinação de aromas que iam desde o cedro, a canela, o caramelo e tabaco, passando por uma leve sensação de pedra lascada. Tudo muito redondo, apelativo e moderno. Os sabores mostravam algum acerto e finura no trato. Fresco.
Em termos genéricos, pareceu-me ter pela frente um vinho destinado às massas. Bem feito, mas longe das tradicionais características que esta casta eventualmente revela. Nota Pessoal: 14

quarta-feira, outubro 03, 2007

Pequeno Briefing sobre JMF

Uma pequena informação que passo para vocês. Rápida, directa e concisa (assim espero). O objectivo é, meramente, partilhar a minha opinião sobre dois vinhos pertencentes ao Portefólio da Empresa José Maria da Fonseca. Dois tintos que sofreram alterações bem visíveis nos rótulos. Visualmente estão muito atractivos e modernos. Faltava-me perceber se, eventualmente, o conteúdo das garrafas corresponderia à vestimenta exterior (nota: nunca fui um assíduo consumidor desses dois vinhos. Provavelmente, uma mão contará as vezes que os bebi. As minhas opções tenderam, quase sempre, para os Garrafeiras e para os incontornáveis Moscatéis de Setúbal). Feita a pequena apresentação, passemos para as (minhas) considerações sensoriais (que, como sabem, estão repletas de fragilidades).
Pasmados 2005. Um tinto que soltou-se do copo com sugestões de fruta (que foi evoluindo para o estádio cristalizado) e mentol. Vagamente senti qualquer coisa que me levava a pensar em terra escura (humidade?). Fugazes notas de couro, especiaria e cera, tentavam dar maior graça ao vinho. Tudo num registo muito light, sem grandes exuberâncias e complexidades, mas relaxante.
Paladar fresco e jovial, onde a sensação balsâmica e mentolada parecia querer marcar o compasso de todos os sabores. Sempre num registo mediano e franco. Um vinho pronto a beber, de fácil empatia. Na mesa, fará parelha com um prato pouco puxado. Não será para grandes guardas.
Nota Pessoal: 14,5
Falemos do outro. Periquita Reserva 2004. Desperta com sugestões a verniz e alguma azeitona preta. Depois desponta para cheiros a mentol (curiosa esta impressão, comum aos dois vinhos). Bolo recheado com figos secos e passas aparece de forma algo inesperada, provocando uma (chata) sensação doce. Encerra com cheiros de chocolate com leite e caramelo.
Sabores muito limados, sem qualquer tipo de arestas, onde o tabaco, o chocolate com leite e o caramelo reforçam a doçura do vinho. Confrontei-me com um estilo de vinho que não estava à espera. Um pouco monótono.
Aparentemente destinado ao consumidor urbano e jovem que gosta de cheirar e beber, sem estar na mesa (verdade seja dita, pessoalmente teria alguma dificuldade na escolha do acompanhamento para este estranho Periquita).
Nota Pessoal: 14

Post Scriptum:
Ambos custaram pouco mais de 6€ cada um. Se tivesse que optar, escolheria Pasmados. De qualquer modo, existem opções mais interessantes no mercado.

segunda-feira, outubro 01, 2007

CARM Gemelli

A vida que levamos é uma autêntica corrida (em que a velocidade é estupidamente alta), onde nos amontoamos loucamente para chegarmos o mais longe possível, nunca olhando para o lado, ou para trás (se for preciso, fazemos umas quantas rasteiras). Não há tempo para reflectir sobre o que se fez (bem ou mal). Quando a corrida está prestes a terminar, damos conta do que ficou perdido inutilmente. Percebemos, nesses últimos instantes, que passaram pessoas e acontecimentos que mereciam melhor atenção da nossa parte.
O actual mercado do vinho é outra corrida que nos empurra para a procura de novos nomes. Os enófilos envolvem-se numa louca (e alucinante) disputa pelas novidades, esquecendo-se, em muitos casos, de vinhos que estão para ali guardados. Olhamos para eles de soslaio, como que se fossem produtos de um passado longínquo e antiquado (o novo passa a velho com uma rapidez tremenda).
Dia a mais, dia a menos, acabamos por pegar neles só por descarga de consciência. Em alguns casos, reencontramos prazeres esquecidos.
CARM Gemelli 2001 era um tinto (Douro) que andava meio perdido, aqui por casa. Elaborado segundo as indicações do chef Augusto Gemelli. Esta casa do Douro Superior tem (ou tinha) o hábito de convidar determinadas individualidades (ligadas directamente ou indirectamente ao meio) para criarem um vinho. Era dada total liberdade na escolha dos lotes.
Este soltou aromas de aspecto calmo, proporcionando uma noite tranquila e reconfortante. Sensações vegetais bem vincadas, onde cheiros de ervas aromáticas (tipo: carqueja, rosmaninho, tomilho, alecrim) transportavam-me para uma cozinha preenchida por pequenos frasquinhos de condimentos. Flores, que surgiram, revelaram uma face silvestre e porte rasteiro. A fruta, que paulatinamente apareceu, apresentava-se num estado cristalizado, com pouco açúcar. Nada de excessos. Um pequeno fundo mineral proporcionou uma curiosa sensação de humidade. Uma ligeira pitada de chocolate e tabaco encerrava, com descrição, o desfile de aromas.
Os sabores eram, também, calmos e suaves. Pediam um prato de robustez ligeira. Nada de excessos, nada de exuberâncias. Nota Pessoal: 16

Post Scriptum:
Gostei. Convém, de vez em quando, parar um pouco.