domingo, abril 29, 2007

Valle Longo Reserva 2004

Mantenho-me com vinhos do enólogo Rui Cunha. Quinta de Valle Longo Reserva 2004. Um tinto do Douro em que a fruta madura aparentemente não reina. Não dita as regras. A aposta foi feita em aromas silvestres, balsâmicos e minerais. Fetos, musgo, esteva e um rasgo a frutos secos completam e terminam a demonstração. Senti uma ponta de rusticidade que fazia lembrar pedra, lagar de granito, lasca. Conferiu-lhe personalidade. Na boca, elegante, com um nível de acidez muito correcto, proporcionando saudável frescura. Frio, mas não gelado.
Essencialmente um vinho equilibrado, cordato no trato e sem necessitar de grandes técnicas, cuidados na prova. É um bom exemplo de mais um vinho do Douro que fugiu da força, do exagero. Fará boa figura na mesa e é sem dúvida uma opção para todos nós (que procuramos coisas diferentes). Falta-lhe, no entanto, um pouco mais para dar o salto, para subir na classificação (na minha é claro!). De qualquer maneira, está bem. Nota Pessoal: 15


Post Scriptum: A Quinta de Valle Longo pertence ao universo da empresa Vallegre, Vinhos do Porto. Uma quinta com 10 hectares situada junto ao Rio Douro, na foz do rio Tedo.

sexta-feira, abril 27, 2007

Requinte com Valle Pradinhos

Viver com luxo, ter uma vida faustosa e requintada não é decididamente para todos. No passado reis, senhores, ditadores, deixaram um legado de magnificência, de opulência. As pomposas pirâmides, o aparatoso palácio de Versalhes, construído por Luís XIV, as idílicas jóias dos Romanov são exemplos de ostentação pura e dura. Vidas caracterizadas por despesas supérfluas, pelo gosto da ostentação e do prazer, sem qualquer preocupação pelo próximo. Aceleraram a queda de regimes, despertaram a revolta do povo, do povo que vivia na miséria, que não tinha pão para comer.
Hoje voltamos a ver a opulência, o luxo, mesmo ao nosso lado. Convive, voltou a conviver paredes meias. É exibida sem qualquer respeito, agredindo quem não tem. Os vinhos não são excepção.
Existem vinhos luxuosos, vinhos feitos à mão, onde não escapa nenhum pormenor. O preço, esse, é elevado. Fazem sonhar o enófilo pobre (acredito piamente que um enófilo, um apaixonado por estes temas - vinho - não tem que ser necessariamente endinheirado). Em muitos casos o preço pedido é o equivalente ao de uma peça de joalharia.

Nunca pensei com Valle Pradinhos 2003, um tinto transmontano, fosse possível viver durante algum tempo em opulência, com requinte. Bebendo excelência. Bastante moderno, com toques afrancesados (não sei bem o que quer dizer, mas esta expressão dá um toque fino). Atraente, envolvente. De uma terra rude, agreste, sai um vinho digno da mesa do rei. Todo o impacto aromático é de uma qualidade que me assombrou, cheio de classe, delineado de forma quase irrepreensível. Muito gentil no trato. Toques florais, (violetas, flor de laranjeira) notavam-se vincadamente, passando discretamente pelo cacau amargo. A fruta tinha um lado pecaminoso. Adocicado com rebuçados e açúcar em pó. Aqui, além, foram surgindo nuances a menta, eucalipto e madeiras exóticas. Enriqueceu com notas terrosas, envolvidas por um vegetal fresco, viçoso, vivo, que ajudou a conferir uma frescura assinalável.
Na boca, cheio, gordo, sem gordura (isto é, sem enjoar). Fresco e frutado. Mantém a linha exótica, mentolada. Com bom prolongamento. Por 10€, nunca me passaria pela cabeça obter prazeres tão requintados, tão luxuosos. É obra um mestre criar jóias tão baratas. Nota Pessoal: 17

quinta-feira, abril 26, 2007

3 Pomares (Douro)

Uma breve passagem pelo Douro, pela Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo (tenho que pensar, bem, antes de escrever este nome). Um local para relaxar, contemplar o horizonte e beber abundantemente a paisagem envolvente. "O primeiro hotel do vinho em Portugal, nasce em 2005 da reconstrução da antiga casa senhorial oitocentista, em plena harmonia com a natureza e a tradição." Para aguçar o apetite passem por aqui. Pessoalmente é o que faço.
Entretanto, e a par da actividade hoteleira, este empreendimento turístico lançou para o mercado mais uma marca de vinhos. Uma trupe chamada: 3 POMARES.

Comecemos pelo 3 Pomares rosé 2006. Linha doce e frutada. Igual a outros rosés que vão inundando o mercado. Aliás, à medida que nos aproximamos da época quente saltarão cá para fora cada vez mais rosados. Tirando alguns casos pontuais, ainda não me convenceram.
Este, em particular, é indicado para acompanhar umas frutas e não pensar muito no que está no copo. Aromas a morangos, groselhas, rebuçados bolas de neve e uma leve hortelã. Um vinho rosé mediano, que não oferece mais valias ao que já existe no mercado. De qualquer modo, ele anda por aí e ficam a conhecê-lo. Nota Pessoal: 11,5

O Branco, do mesmo ano do rosé (2006) mostrou mais personalidade, comportando-se de forma mais digna que o rosé, discutindo assuntos mais interessantes. Aromas com alguma delicadeza, onde o floral formava uma aliança coesa com o mineral. Foi evoluindo progressivamente para impressões a erva verde e folha de figueira (Penso sempre naqueles dias quentes em que o ar bate na cara, perfumado pela figueira, pelo figo, pela amendoeira). Na boca, estaladiço, crocante, muito fresco. Um branco bem feito e que merece uma prova atenta, muito atenta. Nota Pessoal: 15

Finalmente o tinto, de 2005, com aromas frutados e com muitas sugestões a drops. Leve presença vegetal. Directo e simples na abordagem. É o chamado vinho redondo, limpo, sem problemas. O exemplo de uma receita bem aplicada. Muitos consumidores irão gostar dele. Acima de tudo, um vinho honesto, sem grandes pretensões e ambições para o futuro (acho eu). Fiquei a conhecer e vocês também. Nota Pessoal: 13,5


Assumidamente apreciei mais o branco. Bem conseguido. Os outros companheiros pautaram-se pela regularidade, pela mediania. Sem trazerem grandes novidades ao consumidor. Dito de outra forma, e mais correcta: Não me despertaram grande interesse.

terça-feira, abril 24, 2007


1 Ano de Vida





Obrigado a Todos



segunda-feira, abril 23, 2007

Barão do Sul, um nobre do Povo!

Os vinhos das Terras do Sado conseguem apresentar-se ao público com preços acessíveis, ao alcance de muitos consumidores (geralmente). É relevante este facto. Ajuda a democratizar o acesso ao bom vinho.
Partilho com vocês (mais) uma prova de que a alegria, a felicidade enófila pode ser objectivo relativamente fácil. Não é, apenas, um privilégio dos endinheirados, dos burgueses, daqueles que compram apenas nomes, que gostam de exibir troféus aos amigos, dizer-lhes que já beberam um Chateaux. O povo também se diverte. Merece e bem. (Esta última passagem possui laivos revolucionários. Influências do 25 de Abril).
Das Terras do Sado, da Serra da Arrábida surgem dois vinhos destinados a divertir, a descontrair. Entretanto dêem uma vista de olhos por aqui.
Comecemos pelo Barão do Sul (Branco de 2005), feito a partir de uma combinação, de um arranjo com moscatel e arinto. Cheiros impositivos a flor doce, ameixa e cereja branca. Forte presença de lichia ou algo parecido. Pode ser absurdo para vocês, mas lembrei sistematicamente de uma sobremesa que costumava comer nos tempos em que frequentava restaurantes chineses. Lembro-me que as lichias surgiam numa calda.
Um estilo a tender para o doce, um pouco linear, que valeu essencialmente pelas curiosidades aromáticas que revelou. Importante tomar cuidado com a temperatura. Dá-se melhor com as mais baixas. Acompanhará, certamente, uns petiscos muito ligeiros, num entardecer quente. Um vinho branco simples, mas não simplório. Diria, antes, original e feito para agradar. Nota Pessoal: 13
No Barão do Sul Garrafeira 2002, temos um tinto que optou por apresentar um perfil diferente do habitué nos vinhos portugueses (actuais). Longe da fruta, da madeira, do chocolate. Distante do peso, do corpo, da pujança, da força. Contra-corrente e provavelmente (muito) pouco consensual. Apostou essencialmente em sugestões silvestres, balsâmicas, com alguns apontamentos florais. Tiques de rusticidade interessantes, que lembravam lagares e as adegas. Detentor de alguma complexidade e muito fresco. Prolongamento mediano na boca. Um vinho com personalidade, que se meteu aparentemente por caminhos bem diferentes do usual. As chamadas coisas diferentes. Eu agradeço. A tendência para cheirar o mesmo, beber o mesmo aumenta exponencialmente. Dou comigo quase a dormitar. Um bocejo. Ou será que as (minhas) narinas começam a falhar?
Nota Pessoal: 15,5
(Indicado para quem não gosta, não pode estoirar com a carteira. Uma opção interessante para quem procura vinhos diferentes e fugir um pouco à "modernidade")

Post Scriptum:
Das regiões Terras do Sado, Ribatejo, Estremadura, Dão e Bairrada/Beiras têm surgido vinhos muito interessantes, vendidos a preços muito comedidos. Para mortais.

domingo, abril 22, 2007

Quinta do Penedo 2005 (Dão)

Um regresso aos vinhos das Caves Messias. Nos anais, nos arquivos históricos deste blog existem notas de prova sobre os Quinta do Valdoeiro. Vinhos da Moderna Bairrada. Potentes, robustos, extraídos. Vinhos que impressionam pelo estilo, pela forma como se apresentam. Com muitos adeptos.
Com o Quinta do Penedo (tn), apesar de vermos que existe um toque da modernidade, mostra um perfil diferente dos outros. Mais afinado, elegante. Esta quinta possui uma área de 20 hectares, situada na Aldeia de Carvalho, concelho de Mangualde. A vinha remonta ao ano de 1930.
Um Dão com complexidade. Um vinho que tentou guardar religiosamente os seus segredos. Só a custo é que os revelou. Olhava-se para o copo, percebia-se a profundidade que possuía. A própria cor avisava-nos que teríamos alguma dificuldade na interpretação do vinho. Não seria tarefa fácil. Não poderíamos estar ausentes. Todo o espectro aromático tinha a mesma matriz, a mesma linha. A melhor fotografia que vos poderei oferecer teria como cenário principal a floresta, a velha floresta. Escura, densa, húmida. Coberta de fetos verdes, com pequenos ragos de luz penetrando por entre as copas das árvores. Labiríntica. Os cheiros da terra penetravam, enchendo os pulmões. Um balsamo revitalizante para a carne do corpo, para uma carcaça cansada, suja da vida que leva. Flores aqui, bergamota ali, cogumelos acolá surgiam ao longo da caminhada. Enriqueciam, perfumavam o cenário. Na boca cheio, gordo, composto e equilibrado. Ia, tranquilamente, preenchendo a cavidade bucal sem precisar de taninos brutos, espigados. Longe dos alaridos, sem estrondos, primando pela elegância. Frescura balsâmica. Indicou (a mim) que terá um longo e belo futuro pela frente. Assim espero, assim desejo, assim quero. Pareceu-me que estava a dar os primeiros passos. Nota Pessoal: 16,5

Post Scriptum: Com uns escandalosos 12,5% de graduação alcoólica. Não pode! A moda não seria apresentar mais de 14%?

quarta-feira, abril 18, 2007

Casa Montes

Pegaram em mim e levaram-me até ao hemisfério sul, bem lá para os lados da Patagónia, da Terra do Fogo. Uma fugaz visita ao reino do tango, das pampas, dos destemidos gaúchos que fazem do seu cavalo; casa, amigo, confessor. A Argentina, a par do Chile, é um daqueles países que me fascinam desde miúdo. Lembro-me muito bem da fatídica guerra das Malvinas (sempre usei este nome, nunca a versão inglesa). Na altura, era a primeira guerra que presenciava em directo pela TV. Era algo que fascinava um puto (inocência reinava). A Argentina transmite-me um certo ar de tragédia, de desgraça romântica, um fatalismo parecido ao português. Sofreu as amarguras de uma violenta ditadura militar. O atroz governo dos Generais.
Casa Montes
foi fundada pelo andaluz Francisco Montes. Situada na província de San Juan, mesmo encostada ao Andes, a 700 metros de altitude. É desta casa que trago à baila dois vinhos. Um tinto e um branco.
Alzamora Malbec 2002. Dizem os especialistas, os críticos da coisa, que têm surgido vinhos (muitos) interessantes feitos exclusivamente com esta casta (até enólogo português Rui Reguinga, pelo que sei, construiu um vinho com malbec). Este pareceu-me pouco interessante. Não mostrou qualquer rasgo digno de registo. Uma viagem curta, sem grandes momentos fotográficos. Inicialmente muito metálico, recordando ferro, ferrugem. Surgiram cheiros que lembravam água parada (pensem na água que sai das torneiras da vossa casa quando regressam das férias). Não terá sido das melhores apresentações a que assisti. Foi evoluindo para sugestões a azeitona esmagada, engaço. A rusticidade imponha-se de forma muito desequilibrada, sem alma. Foi aliviando um pouco, tentando mostrar um lado mais suave, mais elegante. Surgiram couros, pêlo de animal, vegetal e folhas secas. Tudo com muito esforço. Na boca notava-se mais acerto, mas nunca passou da mediocridade. Terá sido falta de arcaboiço, da minha parte, para compreender um tinto malbec? Ou consequência de uma prova rápida? Nota Pessoal: 11,5
Com o Viognier Ampakama 2005, a peça teve mais interesse. Inicialmente fez-me pensar num chardonnay (estava a ser provado em prova cega, tal como o tinto). As sugestões a ta
lo de couve, erva verde, fruta madura (a banana era rainha e senhora) marcavam assertivamente a prova. Madeira presente. Na boca, gordo, cheio, com bom prolongamento. A acidez permitia que este branco não caísse para a barreira do exagero. O controle da temperatura é muito importante. Poderá torna-se pesado, chato. Notava-se que não tinha o nosso estilo, que poderia ter vindo de fora, do novo mundo. Tinha tiques americanos. A minha experiência com esta casta (viognier) é extremamente reduzida, Conto pelos dedos os vinhos que bebi feitos a partir dela. A minha nota tem, portanto, poucos pontos de referência. Nota Pessoal: 15

terça-feira, abril 17, 2007

Prova à Quinta

Vamos, então, reactivar a Prova à Quinta. O tema escolhido, por mim, são os vinhos brancos. Uma assumida paixão. Gosto, adoro vinhos brancos. Peguemos em vinhos brancos nacionais que se possam encontrar com facilidade (especialmente em Supermercados e Hipermercados). O objectivo é fazermos um teste (o nosso teste), realizarmos uma pequena amostragem daquilo que existe por aí e tirarmos conclusões. Será a opinião do consumidor a ditar as leis. Vale a pena, não vale a pena comprar. Única restrição que imponho é a seguinte: Terão que ser monocasta. O resto é livre.
A data de entrega das teses terá que ser feita até ao dia 3 de Maio de 2007.

domingo, abril 15, 2007

Preconceito nos Vinhos? Claro!

Preconceito é uma atitude discriminatória que muitos possuem em relação a muitos aspectos da nossa vida. Muitas vezes, o preconceito baseia-se apenas no desconhecimento, na altivez, na pouca vontade que temos para entender aqueles que são diferentes de nós. Não sou excepção.
Um dos maiores preconceitos, para mim, é o racismo. Guerras, atrocidades, humilhações foram cometidas por conta e à conta deste preconceito. A fatal tendência em pensarmos que existem raças humanas distintas, que umas são superiores às outras. Existem muitos exemplos, na história, de indivíduos, de sociedades que tinham a firme convicção que determinadas características físicas implicavam diferentes estilos de personalidade, de comportamentos. Absurdo.
E nos vinhos? Existe preconceito? Claro que existe. Não podemos falar de determinados vinhos, marcas, porque corremos sério risco do nosso bom nome perder credibilidade (não sei bem o que isto quer dizer). Não queremos pensar que, eventualmente, podemos gostar de um vinho sem nome, sem glória, sem história. Nem sequer queremos imaginar que possam existir (bons) vinhos com estes atributos. Na eno-net, voltou-se a falar, outra vez, do impacto que os vinhos de marca branca têm nos consumidores. Muitos dizem que é meramente preconceito afirmar que não prestam. Outros acreditam que são apenas réstias, subprodutos. Que não contam. Depois, quando nos envolvemos na enofilia, temos receio de comprar estes vinhos, de os colocar na mesa, de os oferecer aos amigos. Temos medo de falar deles.
Foi com eno-preconceito (da minha parte) que comprei um vinho do Lidl (superfície comercial conhecida pelos seus produtos de baixo preço. Olhada por uns como um local onde a qualidade deixa muito a desejar. Olhada por outros como a cadeia comercial dos pobres e dos imigrantes). Um italiano que apenas tinha no rótulo a menção: Rosso di Montalcino. Estamos a falar de um vinho que terá vindo da Toscana. A casta mencionada era a sangiovese grosso. O ano do líquido era 2003. Primeira apontamento. Rótulo muito bonito. Sinceramente gostei. Quando verti o líquido no copo, fi-lo com muita desconfiança, de soslaio, a olhar de lado para ele. Preparei-me para uma experiência muito negativa. Relutantemente coloquei o nariz para fazer a minha primeira abordagem. Impressões silvestres, envolvidas por um ambiente terroso, lembrando mato. Presença forte de um ambiente húmido, refrescante, um pouco enigmático. Leve baunilha misturava-se com a fruta cristalizada. Aniz, figos secos rematavam a apresentação inicial. Deixei-o em paz. Tinha o comer ao lume. Descontraídamente voltei a pegar no copo. Este Rosso estava, agora, fresco, floral, soltando sugestões de lavanda, alfazema, violetas. Um interessante nível de complexidade. Não queria acreditar. Um vinho do Lidl? Não podia. Na boca, pareceu-me ter bom prolongamento, com um registo balsâmico, mineral e terroso. Os taninos e a acidez marcavam a prova de forma correcta. Pareciam indicar alguma capacidade de envelhecimento.
Nota Pessoal: 16 (se calhar esta nota está cheia de preconceito).

Post Scriptum: Que me perdoem, mas voltei para comprar outra garrafa. Agora podem-me dizer: "Nunca provaste um verdadeiro e excelente vinho Italiano." É verdade. Se soubessem aquilo que ainda não bebi e que gostava de beber.

sábado, abril 14, 2007

Quinta dos Romanos

Aqui, além vão surgindo boas novidades para aqueles que gostam, apreciam estas coisas relacionadas com o vinho. Ainda vale a pena continuar a garimpar, de vez em quando. Vão aparecendo umas pepitas interessantes, com algum valor. Desta vez, apanhei uma pepita numa mina localizada em terras do Distrito da Guarda. Zona fronteiriça com os vales do Douro. Terra de muita história e estórias, onde se pressentem vozes ecoando pelo ar. É constante o murmurar de ruídos, sons do passado. Gritos de alegria, de tristeza, de agonia. Um leve frio atravessa o corpo quando ficamos defronte de Marialva, de Longroiva, de Mêda, de Poço do Canto. Terras duras, hostis, onde os confrontos foram normais e usuais ao longo dos séculos. Civilizações, monarcas, nobres, a plebe, lutaram por aqui. Autêntico regresso à idade média, ao aço, ao ferro, à lâmina. As lutas, agora, são outras, mas o fim é o mesmo. Sobreviver, resistir.
É neste clima que aparece um vinho do Douro (Poço do Canto). Quinta dos Romanos, Reserva tinto de 2004. Um vinho com uma delicadeza interessante, mostrando aromas capazes de envolver algumas narinas mais desprevenidas. Prende pelo acerto, pelo equilíbrio, pela serenidade que transmite. Combina correctamente a fruta, os balsâmicos, os rasgos minerais com o cacau, o tabaco. Existe uma curiosa aliança entre a modernidade e a rusticidade. Terá havido ajuda dos espíritos de outrora? Na boca, saboroso, meio pecaminoso. Mediano no prolongamento. Olhando para trás, nunca diria que nesta terra pudessem sair vinhos assim. Apontaria para estilos mais rústicos, menos afinados, mais duros. Tal como a terra que lhe deu origem. Coisas de provas cegas. Nota Pessoal: 15,5

Post Scriptum: O Rótulo merece uns retoques. Assusta um pouco ao olhar para ele. Poderá afastar potenciais compradores (principalmente aqueles que ligam à imagem). A responsável por este vinho é a produtora Lucinda Todo Bom. O mestre é Mateus Nicolau de Almeida. Este senhor parece ter mão para o assunto. Nós, os consumidores, agradecemos e muito.

Um pouco de história sobre o local de onde veio o vinho. Poço do Canto. "A origem do topónimo parece ser o latino Puteus-i, poço, subterrâneo, masmorra ou cisterna, ou também o feminino Putea, poça, cova, e materializa-se documentalmente na alta Idade Média (nas Inquirições). Na explicação de António Carreira Coelho, in "A Guarda", de 14-09-2001, à época e em tempo de crise significava o imperioso e quase exclusivo suprimento de água por nascente natural ou mesmo por captação para cisterna. Chantus-i, além de ter sido um frequente nome romano que indicaria a propriedade, podia provir de origem céltica ("kant") aplicada ao arco de ferro de uma roda de madeira de carro de atrelagem, praticável por ferreiros. Por sua vez, a aplicação do topónimo Columba (local mais provecto e provável berço da povoação) é um bom e raro indício de apoio de antiguidade; a conservação do "l" intervocálico, quando na Idade Média se passou pela forma de Coumba>Coomba>Comba, vem em abono de maior anterioridade e, talvez, nesta indecisão ou evolução, a dever considerar-se reflectida no período antecedente ao nosso idioma. Por outro lado fica provada a grande antiguidade de um culto local (porque o topónimo deve-se à existência, no cume deste monte, da ermida dedicada à Virgem Santa Comba e com ela o remoto povoamento destes territórios, sendo de crer que este monte tivesse sido remotamente castrejo, de boa defesa natural e que o culto aí instituído houvesse sucedido a uma devoção pagã e Cantus como cerimónia mágica e encantamento.
No primeiro período da monarquia, Poço do Canto e as suas aldeias eram do julgado de Ranhados e não havia aí possessões ou honras de nobres. O território desta freguesia depois de 1377 (Carta de 12 de Julho de 1381) inscreve-se numa munificência do rei D. Fernando aos pais de Pero Lourenço de Távora (notável fidalgo do século XIV de quem procede a Casa dos Távoras, marqueses de Távora e condes de S. João da Pesqueira) e a seu irmão Rui Lourenço, que neles continuou e foi um dos mais acérrimos apoiantes de D. Fernando em todos os momentos, mesmo nos mais difíceis."
Se quiserem ler mais vão até aqui.

quarta-feira, abril 11, 2007

Crescendo com Altas Quintas

Falar deste produtor é falar de uma paixão alentejana (tenho outra: a minha mulher), de algo que me cativou deste o primeiro contacto. Na altura com o Altas Quintas Colheita 2004. Depois a relação aprofundou-se, a admiração aumentou. Chegou a tomar aspectos de delírio, roçando o irracional, quando provei, desculpem-me, bebi o Reserva 2004. Dois vinhos que apreciei, que saboreei até à última gota. Autênticos amores, capazes de cegar, toldar o espírito. As paixões são mesmo assim. Quem não se lembra das suas paixões de juventude que ardiam, que desgastavam, que nos desconcentravam nas aulas. Caramba, aquilo doía muito.
Este produtor possui uma área total de 256 hectares, divididos por duas quintas paralelas, a proprieda
de das Altas Quintas localiza-se no Nordeste Alentejano, dentro do Parque Natural da Serra de S. Mamede, a uma altitude que oscila entre 496 e os 770 metros. Além de 48 hectares de vinha, possui 80 hectares de pinheiros, 50 de árvores de fruto e oito de olival. Baseada em castas autóctones, como a Trincadeira e o Aragonez nos encepamentos tintos, Verdelho e Arinto nos encepamentos brancos, a vinha contém ainda percentagens menores de variedades com elevado potencial enológico, como a Alicante Bouschet, Alfrocheiro e Syrah.
Desta vez, a relação aligeirou-se com os novos vinhos Altas Quintas Crescendo. Vinhos idealizados para as grandes massas, de fácil acesso. Vinhos que se vão situar num patamar abaixo do Colhei
ta e do Reserva.
O Rosé Altas Quintas Crescendo (de 2006) veio envolvido com uma cor bastante curiosa, p
ouco habitual neste tipo de vinhos. Andava ali entre o tijolo, o castanho, o âmbar, o vermelho. Desculpem-me, mas nunca fui muito bom a caracterizar cores. Muito longe daquela cor rosa choque que se costuma ver. Os aromas espantaram-me pela secura que apresentavam. Longe da doçura, longe dos rebuçados, dos morangos maduros, das framboesas. Distante da exuberância típica dos vinhos rosés. O tal toque da folha de tomate voltou a surgir. Será invenção, entusiasmo a mais?
Ao contrário do habitual, deixei subir um pouco a temperatura para verificar se o doce não estaria, eventualme
nte, escondido por causa dos poucos graus celsius a que tinha sido sujeito. Manteve-se contido. Totalmente remetido para papel secundário. O estilo seco manteve-se. Na boca, seco, levemente vegetal, sem enjoar. Autênticamente um vinho contra-corrente. Como alguém disse, por aí, será que está a surgir uma nova vaga de vinhos rosés, menos femininos? Nota pessoal: 14,5
O Tinto Altas Quintas Crescendo 2005, pareceu-me possuir um perfil algo afastado do Colheita e do Reserva. Se calhar a ideia era mesmo essa. Criar um vinho consensual, destinado a um espectro mais alargado de consumidores. Compreende-se. Menos mineral, menos vegetal, menos complexo. Mais moderno, mais acessível, extremamente guloso, redondo, bem limado. Chocolate com leite, o tabaco, a fruta madura eram as traves mestras deste vinho. Sempre suportadas por um bom nível de acidez. Fundamental neste tipo de vinhos. É um vinho um pouco monocórdico, mas de uma gulodice fenomenal. Nota pessoal: 15


Resta-me esperar por um branco. Um branco das montanhas do Alentejo. A paixão essa, não esmoreceu com estes vinhos, pelo contrário. Por vezes, precisamos de acalmar a fogueira.


terça-feira, abril 10, 2007

Casa de Santar Reserva Branco 2006

Estou novamente nos vinhos brancos, novamente no Dão. Não, não julguem que é publicidade, ou parcialidade. É fruto das circunstâncias de ter passado alguns dias lá em cima. Nada mais.
É facto inegável que a Dão Sul é uma empresa muito curiosa. Não deixa de ser interessante verificar que falamos de um fenómeno do interior que consegue competir em quase todos os mercados, internos e externos. O salto, a inovação, o arrojo têm sido exemplares, às vezes chocantes. Esta empresa possui quintas espalhadas por todo o lado, de Norte (Douro) a Sul (Alentejo), sem nunca abandonar a terra onde nasceu. Pelo contrário, tem vindo a investir mais. Foi num desses investimentos que a empresa Dão Sul puxou para sua alçada a tradicional Casa de Santar. A área conjunta de vinha da Dão Sul e da Casa de Santar deverá atingir 250 hectares, o maior projecto do Dão". Tirei daqui a informação.
A Casa de Santar que está repleta de história, de glamour "Foi conhecida como Quinta do Casal Bom a residência que D. Sancho II elevou a senhorio, doando-a a um dos seus ricos homens distinguidos na guerra. Aquela que, hoje, é reconhecida como Casa de Santar, vem já de 13 gerações: Mellos, Pais do Amaral e Castelo Branco.
Inicialmente construída segundo uma planta em "L", no ano de 1678, onde, actualmente, se pode encontrar a cozinha velha e a sacristia. Mais tarde foi-lhe acrescentada uma parte que se estende até à via pública. Os jardins são considerados como dos mais belos da Beira Alta, apresentam-se sobre uma sequência de buxos que termina num lago do século XVIII. Centraliza as atenções, o chafariz com a data de 1790, denominado "Fonte dos Cavalos", onde estão portados os quatro cavaleiros trajados ao rigor do século XVII. Cada um destes cavaleiros representa cada uma das famílias, cujos nomes vingam o esplendor da Casa. Em frente à Casa, o Chafariz da Carranca impõe-se como Brasão de Armas da Casa.
De acordo com Pedro de Vasconcellos e Souza, herdeiro da Casa de Santar, as gerações sempre se dedicaram a cultivar, de forma diversificada, a quinta. No entanto, o vinho sempre foi a alma da família.
No interior, a capela do mesmo século, foi consagrada a São Francisco de Assis. Os seus tectos e paredes remetem ao século de construção, numa decoração misturada com granito e pedra da região. Nos dias de hoje, a Capela apenas é utilizada em eventos de membros da família. A cozinha velha data o ano de 1690. Insere-se, nesta divisão, uma fonte natural de granito da época que, segundo a lenda, quem beber da água que daquela fonte brota, terá bom casamento. Não faltam, nesta cozinha, as colecções de panelas de cobre e uma lareira em granito da mesma época.
Numa outra divisão da Casa encontra-se exposta a pequena colecção de quatro coches e uma liteira - relíquia do século XVII - que foram preservadas ao longo das gerações.
Esta Casa, que foi uma referência ao longo dos séculos, permite viajar no tempo. Poder oferecer um ambiente secular, através dos jardins e de todas as particularidades da estrutura, é uma mais valia, e a família herdeira tem consciência disso." Um canto do céu, na terra. Podem ler mais neste local.
No que respeita aos vinhos não nos podemos esquecer dos Casa de Santar tn e br bem feitos, equilibrados, vendidos a preço muito justo. Espalhados por todo lado. Foram, durante muito tempo, um excelente porto de abrigo (para mim). No últimos anos esta casa andava meio morta, meio parada. Sem grandes novidades, com os Reservas meios estranhos, sem alma e sem chama. Longe dos saudosos 1996 e 1998. Pelo meio, apenas um Touriga Nacional de 2000 que gostei muito. Desta vez, a curiosidade despertou ao reparar que existia um Reserva Branco 2006. Terá sido influência da malta da Dão Sul?
Falemos, então, um pouco do líquido em questão. Cor cristalina, límpida, muito brilhante. Os aromas estiveram inicialmente muito presos pela madeira. Para soltar as correntes, tomei a opção de decantar parte do vinho. Permitiu uma evolução muito mais interessante, possibilitando que a fruta fosse aparecendo. Sugestões de erva verde, minerais, bem como rasgos de aromas florais iam surgindo em camadas um pouco sobrepostas. Os toques da barrica, apesar de mais discretos, teimavam em mostrar-se periodicamente. Sinais de juventude? Acredito que sim.
Na boca, gordo, robusto, amendoado. A acidez segurava-o pelo fio da navalha, não o deixando cair para o abismo. Pareceu-me estar frente a um vinho branco feito para envelhecer (com dignidade). Ainda está novo, muito nervoso e irrequieto. Falta equilibrar a frescura, a fruta com a madeira (ainda muito evidente). Irá ganhar harmonia se o deixarmos amadurecer na garrafa durante mais alguns meses. De qualquer modo, um belo vinho. Já me ia esquecendo, usem um copo de tinto, largo. Os ganhos são consideráveis. Nota Pessoal: 15,5

domingo, abril 08, 2007

Dão (parte II)

Regressado da terra. Voltando à vida real. Aquela que temos, não a outra que gostaríamos de ter (falo por mim). Estes dias pascais estiveram repletos de momentos de volúpia. Andei de volta da velha cozinha da avó, da mãe, das tias. Recordei mais uma vez alguns prazeres da mesa, característicos da minha família. Tive a oportunidade de passar pelo tradicional O Júlio, para matar saudades das batatinhas do céu, do javali estufado. O nível continua elevado. A montra de Gouveia. A digestão dos repastos era feita caminhando pelas quelhas, pelas pedras, sempre na companhia dos ares gélidos da Serra.
Nos vinhos, andei de redor das gamas de entrada, baixas. As tertúlias com os amigos, com os velhos, com a família não eram momentos indicados para grandes provas. Nem pretendia que assim fossem. Existem momentos para tudo. Provei vinhos cujo o preço não ultrapassa os 4€ e que me agradaram. Nota-se que existe vontade em competir com as regiões de grande volume. Não são vinhos para estrondos, nem para abrir a boca com admiração, mas cumprem muito bem a sua função. As gentes das montanhas começam a perceber que os vinhos baratos podem tornar-se em autênticos pontas de lança e dar a conhecer ao mundo que também fazem, que conseguem construir vinhos redondos, apelativos, prontos a beber, com fruta, sem nunca perder a identidade. Partilho com vocês algumas pingas que achei mais interessantes. Não atribuo, desta vez, qualquer valorização pessoal.
Sarmentu 2005. Uma novidade. De um produtor, situado na freguesia de Nespereira, concelho de Gouveia (Quinta de Nespereira). Uma vinha espectacular (perdoem-me o abuso), toda ela bem projectada, desenhada. Merece uma visita atenta. São 20 hectares bem plantados onde aparentemente nada faltou. Está surgir muito lentamente no mercado, com muito medo. Porquê? É curioso verificar que alguns vinhos do Dão avançam mais facilmente nas regiões a norte. Não deixa de ser interessante. O Douro está ali mesmo ao lado. Estilo frutado, jovial, suave, fresco. Para beber descontraidamente numa refeição. Para aproveitar enquanto está jovem. Bem feito.

Tazem Tinta Roriz 2002
. Nascido num ano fraco, sem grande história. Mesmo assim a Cooperativa de Tazem consegue criar um varietal muito fresco, vegetal, floral. Com alguma complexidade. Parabéns ao enólogo que vai conseguindo mudar algumas mentalidades. Lidar com um conjunto de sócios dominados por hábitos tacanhos não é certamente tarefa fácil.

Milénio Touriga Nacional e Tinta Roriz 2004. Estilo moderno, onde o chocolate, as sugestões de tabaco, bem como a baunilha, marcam presença. Quem diria que uma Cooperativa do Dão, neste caso Penalva do Castelo, era capaz de fazer coisas assim? Muito longe da tradicional instituição que foi no passado. O site podia, e devia, ser remodelado. Está desactualizado, acabando por prestar um mau serviço. Neste campo a Cooperativa de Tazem trabalhou melhor.

Termino com um Quinta do Corujão 2003, vegetal, silvestre, bem amparado pela madeira. Nota-se o estilo mais clássico, mais Dão, mas mesmo assim apelativo, redondo e com as arestas bem limadas.

Post Scriptum: Passei pelo Solar do Dão, em Viseu, para ver se o edifício estava mais animado. Nada. Na mesma, sem qualquer novidade. A projectada loja do vinho continua encerrada. É belo por fora. Por dentro? Não sei. Está fechado. Continuem assim.

Post Post Scriptum: Obrigado a todos aqueles que foram lendo este blog e tomando conta dele.