sábado, fevereiro 24, 2007

Canopus

Sempre gostei de olhar para as estrelas, para o espaço, para o grande cenário negro que abria todas as noites. As viagens intergalácticas sempre me cativaram e nos (meus) fabulosos anos 80 sentar no sofá para ver séries como o Espaço 1999, o Caminho das Estrelas ou o prosaico e infantil Buck Rogers propocionavam as tais viagens pela imensidão do universo. Ficava estarrecido com as inovações tecnológicas que via.
Foram estes filmes naíf que despertaram em mim o gosto pela ciência. A ciência (optei pela matemática - a verdadeira ciência da vida) levou-me para caminhos onde a racionalidade, o mecânico, o átomo, a molécula, os teoremas tentam mostrar o porquê, a razão de toda a vida. Trilhos que não permitem abordagens mais ou menos fantásticas aos fenómenos do universo.
Aos 17 anos abandonei, desviei-me dos pilares educacionais que a minha família seguia. A mãe e o resto da família olharam para essa mudança de esguelha, com muita desconfiança. Sentia-me um subversivo. Estava a sair das fronteiras estabelecidas pelo clã. Era a primeira vez que alguém qestionava as regras, as normas, os dogmas adoptados.
Durante anos a fio tive acaloradas, perigosas discussões epistemologicas sobre as razões que me levaram a mudar, a renunciar à tradição. Não queria ser dominado. Desejava dominar a minha vida, as minhas passadas, encontrar sempre uma razão plausível, fundamentada para o que acontece na natureza. Não havia lugar para respostas enigmáticas, parábolas, analogias, certezas absolutas. A evolução não se compadece com isso.
Ao fim destes anos, em que os conflitos existenciais foram constantes, voltei a olhar para as estrelas. Para uma estrela em particular. Costumo contar à minha filha que "as pessoas quando morrem vão para as estrelas. Acordam durante a noite e visitam-nos enquanto estamos a dormir". Ela, meio crédula, vai acreditando. Ela tem um pai que acredita que as pessoas, quando morrem, transformam-se na própria natureza. Um pai que não acredita noutras vidas. Não somos eternos, nem mesmo na memória. O universo e as suas leis é que ditam o que devemos fazer.

Post Scriptum: Viagem feita com um vinho (Canopus Reserva 2004) produzido a partir das principais castas do Douro, Touriga Nacional, Tinta Roriz , Touriga Franca e Tinta Barroca. Será que estão previstas novas viagens? Esta não me agradou, nem um pouco. Pareceu-me que a máquina estava a circular cedo de mais. Sem ter feito todos os testes necessários a uma boa navegação. Meio desequilibrada, com barulhos esquisitos. Nota Pessoal: 12,5

Sem comentários: