sexta-feira, abril 28, 2006

Campo Ardosa RRR 2000

Cor viva, muito viva, retinta! Aromas de grande categoria, revelando boa complexidade e profundidade. Notas de terra, musgo, frutos silvestres e florais a lembrarem violetas. Alguma esteva e tília. Com o aumento da temperatura do vinho, veio ao de cima chocolate amargo e algum pó talco. Manteve sempre um perfil fresco, o que é digno de registo! A boca era cheia, mas suave, sem agressões. Muito equilibrada e elegante. Postura fresca, devido a uma acidez muito bem colocada. Final longo e de qualidade, deixando um rasto de boa memória.
Muito diferente dos "Douros" a que nos habituamos nestes últimos anos. O Campo Ardosa "normal" é daqueles vinhos que, para mim, apresenta uma boa relação preço/qualidade.
Continuo a ter a sensação de que este vinho, passou um pouco ao lado de muitos enófilos, o que é pena! Durante muito tempo fiquei sem nenhuma garrafa na minha garrafeira, mas felizmente voltaram aparecer, fruto de uma oferta que tive. Há dias assim...
Nota Pessoal: 17,5

Quinta das Tecedeiras Tinto Cão 2001

Um vinho do Douro que pertence ao universo da Empresa Dão Sul, situada em Carregal do Sal. Com 13% de vol.
Já não é a primeira vez que provo e volto a provar este vinho. Vai mantendo o seu perfil...
Continua com boa concentração. Aromaticamente, o vinho apresentou notas de ameixa, ginja, compota, mantendo um lado algo doce, mas envolvente, que no passado identifiquei como doce de tomate. Tostados. Com o aumento do tempo de abertura no copo, o lado químico voltou a revelar-se, juntamente com alguns aromas silvestres.
Continuou a mostrar um perfil agradável, sensual e algo quente. Com elegância, equilibrado, algo especiado. Final médio.
Nota Pessoal: 16

quinta-feira, abril 27, 2006

Pegões Touriga Nacional 2004

Um vinho que pertence à colecção de monocastas que a Cooperativa de St. Isidro de Pegões lançou para o mercado. Estagiou em meias pipas de carvalho francês.
Cor quase opaca, lembrando doce de amoras (a minha mãe fazia um que era espectacular).
Nos aromas, teve um impacto inicial a tabaco e a chocolate, talvez resultado da pouca abertura que teve. Com o desenrolar da acção, este Pegões, revelou-me notas de mato, terra húmida/molhada, junto com violetas e balsâmicos.
Na boca entrava sedoso, envolvente, correspondendo na boca os aromas revelados no nariz. Corpo médio, composto e com uma acidez que refrescava o conjunto. Final médio, deixando uma lembrança a fumo/tabaco.
Um vinho afinado, equilibrado, bem feito. Não sendo um monstro é um vinho que não desilude, fazendo boa figura numa mesa onde possam estar os mais variados convivas, desde os mais entendidos aos menos experientes. Nota-se a escola do Jaime Quendera…Nota Pessoal: 15,5

Palácio da Bacalhôa, Moscatel Roxo 1996


Um Moscatel que tem a particularidade de ter estagiado em barricas de carvalho, onde anteriormente tinha estado whisky, vindas da Escócia.
Apresentou-se com uma cor bonita e brilhante, num ambiente amarelo-torrado pouco carregado. No nariz, este generoso comportou-se de forma subtil, com classe e elevada complexidade. Nada pesado, onde as notas de casca de laranja caramelizada se envolviam com a canela, as amêndoas e o mel. Havia um lado citrino, sempre presente, que conferia sempre uma excelente frescura.
Na boca conseguia preencher todas as cavidades de forma suave, discreta mas com personalidade, cativando sempre a nossa atenção. Complexo. Final longo, de boa memória e de grande qualidade.
Uma boa relação preço/qualidade que é raro acontecer neste tipo de vinhos. Quando um vinho nos sabe bem, pouco há a dizer e muito há para desfrutar!
Nota Pessoal: 18

quarta-feira, abril 26, 2006

A avaliação do Pingus

A classificação usada, neste blog, tem como suporte o gosto pessoal de quem escreve (por conseguinte de consistência muito discutível). Não pretende reflectir se estamos perante um vinho bem feito ou mal feito (conceito, para mim, muito subjectivo e complicado). Aqui não é o local, o espaço indicado para falar sobre essas matérias. Isso é para quem sabe, para quem percebe, de facto, do assunto. A nota dominante é o amadorismo e a liberdade que a definição permite.
O objectivo único e supremo é, portanto, partilhar o que vou bebendo. No essencial o Pingas no Copo é um roteiro, um caderno de apontamentos, de reflexões muito pessoais que disponibilizo (As vantagens da internet. Permitem a qualquer um escrever sobre o que lhe apetece, da forma que quer. Provavelmente a última fronteira da liberdade de expressão).
A escala de classificação adoptada, neste blog, está balizada entre o zero e os vinte valores (0-20). É a que domino melhor, aquela com que trabalho diariamente. Os intervalos reflectem a minha organização, o modo como olho para as pingas. As notas, as menções atribuídas por mim estão intimamente ligadas ao prazer que obtive (ou não).
Então temos:
  • menos de 10 - Não vale a pena perder tempo. Nem para a comida.
  • 10,5 - 11,5 - Uma pinga fraquinha, abaixo da média, sem grandes qualidades.
  • 12 - 13,5 - É mediana, nem boa nem má. O intervalo que dá mais dor de cabeça.
  • 14 - 15,5 - Pinga bem feita, já se nota algum esforço. Não se deita fora.
  • 16 - 17 - Tem personalidade, mostra qualidade. Já desafia e merece ser bebido até ao último trago.
  • 17,5 - 18,5 - Excelente. Uma pinga de enorme potencial e qualidade. Quase perfeito.
  • 19 - 19,5 - Feito pelos homens para os Deuses. Impressiona bastante. Se calhar, nunca irei beber.
  • 20 - Tenho dúvidas, muitas, que haja vinhos por aqui.

Quinta do Corujão Grande Escolha 2004


Uma novidade deste Produtor do Dão, sub-região da Serra da Estrela. Não saiu ainda para o mercado. As vinhas encontram-se situadas no concelho de Seia sendo vizinhas da Quinta da Pellada. A adega está no concelho vizinho de Gouveia, na freguesia de Rio Torto. Estamos a falar, portanto de uma área que circunda Vila Nova de Tazém.
Mas falemos do referido vinho, que foi provado pouco depois de ter sido engarrafado.
Mostrou boa concentração. No nariz, apresentava aromas de fruta fresca, lembrando morangos, amoras e cerejas. Sentia-se também, por baixo deste caldo de fruta, sugestões florais que enriqueciam o conjunto, aumentando a sua complexidade. Com o evoluir do vinho copo, soltaram nuances de tabaco e queimados.
Na boca alinhou com a parte aromática. Corpo médio, com elegância, sem agressões. Taninos sedosos e um final médio. Um vinho de lote, feito à base das castas típicas da região. Não é um grande, grande vinho. Mas é um belo, belo vinho que merece ser conhecido, pois pertence a uma escola que tende a desaparecer. Aqui não há bombas. Felizmente.
Nota pessoal:16

Alguns vinhos da Dão Sul


Provei, durante o mês de Abril, alguns vinhos da Dão Sul e gostaria de vos dizer que fiquei pessoalmente satisfeito. Não irei dizer grande coisa, apenas registar alguns comentários pessoais. Não colocarei nenhuma classificação pessoal, pois os momentos em que foram provados não eram os mais indicados para tal.

Quinta de Cabriz Encruzado 2005
Com uma nova roupagem, estagiado parcialmente em madeira. Gostei. Maçã e mineral foi o primeiro impacto que tive. Elegante e muito suave. Um vinho consensual, mas que não deslumbre. Pareceu-me mais fraco que os anteriores encruzados.

Quinta de Cabriz Reserva 2003
Para mim uns furos acima dos outros reservas. Notei alguma evolução positiva desde a primeira vez que provei este 2003. Fruto preto, tabaco, baunilha e chocolate. De fácil abordagem, mas com personalidade.

Quinta de Cabriz Touriga Nacional 2003
Melhor que a colheita de 2000 e mais barato. Boa concentração na cor. Nos aromas mostrou-se fresco, com nuances que lembravam mato. Fruta aliada a algum tabaco e baunilha. Muito sedoso na boca. Boa relação preço/qualidade.

Quinta de Cabriz Escolha 2003
Mais vinho. Mais austero, mas sempre com elegância. Deu mais luta na descoberta dos aromas e dos sabores. Balsâmico, com fruta fresca. Um bom vinho de lote. Olhando para os outros Escolhas, feitos pelo anterior enólogo, este 2003 está mais moderno, menos rústico. Boa evolução...

Duelo Ibérico


No mês de Março de 2006, foi realizado uma prova cega, onde entraram alguns vinhos Douro e do Duero. O Painel foi constituído por Francisco Barão da Cunha, Oliveira Azevedo, João Quintela, Paula Costa, Jorge Sousa e Rui Miguel. Ficam aqui algumas considerações sobre os vinhos em prova:

1º Lugar: Pintas 2001, 14,5%. Douro.
Impacto aromático muito cativante e envolvente. Nuances de fruta amparado pelo eucalipto e café. Na boca entrava com dignidade e muita personalidade dizendo que não era um senhor qualquer. Mostrava-se com corpo, sem exageros, mas com presença. Os taninos estavam bem envolvidos pelo corpo. Final saboroso deixando um rasto bastante agradável. Grande nível. O que me agradou, neste vinho, foi o nível de complexidade, o desafio que ele me ia oferecendo e a qualidade que mostrou. Um exemplo de verdadeira elegância. Parece que percebi a verdadeira definição de elegância...
Nota do Grupo: 17,41
Nota Pessoal: 17,5

2º Lugar: Quinta Sardonia 2003, 14,5%. Duero.
Uma boa escala de aromas, num registo elegante, calmo. Tudo bem feito, bem alinhado. Começou fresco, sentindo-se fruta envolvida num ambiente vegetal, fazendo lembrar fetos, mato, caruma. Com o aumento da temperatura surgiram impressões de compota juntamente com café e alguns amanteigados (aliás esta nuance foi tema de conversa). Na boca era guloso, afinado e redondinho. Deu a ideia que já está feito. Foi perdendo, no entanto, alguma frescura à medida que a refeição foi avançando e a temperatura aumentando, tornando-se algo enjoativo, com os tais amanteigados a marcarem presença. Um estilo...É necessário tomar alguma atenção ao tempo de abertura e temperatura de serviço, modo a obter o melhor aproveitamento dele. Nota do Grupo: 17,1
Nota Pessoal: 17

3º Lugar: Numanthia 2002, 14,5%. Toro.
Num perfil algo diferente do anterior. Mais pujante, mas sem se tornar bruto. Talvez com mais personalidade. Inicialmente algo incaracterístico, pouco definido. Precisou de tempo para mostrar boa fruta, de cariz vermelho. Depois apareceu café, folhas de chá, rebuçado. Na boca os taninos e acidez estavam algo elevados, mas o corpo conseguia aparentemente dar conta deles. Algo difícil, mas também desafiante. Final longo e com boa memória. Foi, se calhar, o vinho que mais ganhou com a comida.
Nota do Grupo: 17,1
Nota Pessoal: 17

4º Lugar: Quinta da Leda 2003, 14%. Douro.
Não há grandes palavras para este vinho. Simplesmente o vinho que menos discussão criou. Não por causa da falta de qualidade, mas pela consistência que mostrou, pelo equilíbrio. Uma receita que muitos enófilos conhecem. Consensual e directo. Aromas de carvão, grafite, conferindo inicialmente um ambiente mineral. Depois evolução para tostados, chocolate que enriqueciam o vinho. Na boca é que se mostrou algo magro, algo discreto. Acredito que tenha sido prejudicado pelos monstros que lhe faziam companhia. De qualquer maneira um vinho que ganha pela excelente relação qualidade preço. Mais palavras para quê. A sua presença nesta prova foi pensada e tinha algo de provocatória.
Nota do Grupo: 16,8
Nota Pessoal: 16,5

4º Lugar: Leda Viñas Viejas 2001, 14,5%. Castilla y Leon.
Foi um vinho pouco consensual. As opiniões divergiram entre o vinho com qualidade e o vinho desequilibrado e sem grande chama. Pessoalmente encontrei uma boa escala aromática, mostrando boa complexidade. Frutos silvestres envolvidos em ambiente balsâmico. Na boca sentiam-se os aromas. Taninos vivos e acidez presentes, mas sem criar mágoa às gengivas. Bom final.
Nota do Grupo: 16,8
Nota Pessoal: 17

5º Lugar: Quinta do Castro Vinha da Ponte 2000, 14,5%. Douro.
A grande desilusão da noite. Um vinho algo bruto, aparentemente agreste. Inicialmente muito fechado, onde se sentia/notava o álcool. Com o aumento do tempo de abertura, surgiram alguns torrados e couros. Na boca entrava com rudeza. O corpo parecia não ser suficiente para envolver os taninos espigados e a acidez vincada. Foi necessário muito tempo de abertura, demasiado até, para dar prazer. Tempo que se esgotou ao fim de 4/5 horas de abertura...Será que este vinho alguma vez vai dar a volta por cima? Será um estilo? Ou eventualmente estará a dormir?
Nota do Grupo: 16,1
Nota Pessoal: 15,5

Os Espanhóis


Francisco Barão da Cunha, para quem não sabe é um dos sócios da Garrafeira Coisas do Arco do Vinho, ofereceu, a um conjunto de amigos, uma prova constituída só por vinhos espanhóis. Alguns dos vinhos escolhidos tiveram por base o Guia Espanhol “VIVIR EL VINO 365 VINOS AL AÑO 2005”, acho que é assim que se escreve. Estiveram presentes vários confrades, que alguns de vós já conhece. Além da minha famosa pessoa, provaram João Quintela, Paula Costa, Oliveira Azevedo (também sócio das Coisas do Arco do Vinho) e Jorge Sousa. Deste modo, foram degustados as seguintes pingas:

Blanco Enate Gewurztraminer 2004 12,5%
No referido guia, foi considerado como o melhor branco aromático, mas na versão 2003. De facto, o vinho é mesmo muito aromático, com muita qualidade, de cariz delicado e complexo. Forte componente mineral e vegetal. Flores misturadas com lima, sentindo-se algumas nuances de mel. Num estilo muito personalizado. Na boca entrava fresco e afirmativo, onde se sentia na plenitude a sua componente mineral e vegetal. Bom final, deixando um rasto delicado e muito sensual. Digo-vos que este vinho se manteve bem vivo, durante quase toda a noite. Nota final para o rótulo: Espectacular!
Nota pessoal: 17

1º Lugar: Tinto Aalto PS 2001 Bodegas Aalto Ribera Del Duero 14%
Considerado também pelo mesmo guia como o melhor tinto com madeira e melhor vinho do ano. Vinho quase a roçar a perfeição. Aromas de menta e flores aliadas a fortes sugestões de pó de talco. Sensação refrescante, levando-nos a pensar que estaríamos a percorrer um campo verdejante, cheiro de flores, levando com uma suave brisa na cara. Com o evoluir da noite, apareceram e sem avisar enriquecedoras notas balsâmicas, envolvidas num saco com caruma, carqueja e tomilho. Finalmente e para descansar o nariz, café, cacau e chocolate preto. Um vinho que na componente aromática mostrou excelente complexidade e qualidade. Na boca, confirmava a sua qualidade. Equilibrado, afinado e muito elegante, com tudo o que isto quer dizer. Envolvente, saboroso, com taninos e acidez bem posicionados dentro do corpo. Final longo e especiado. Com vida pela frente, mas a dar já muito prazer.
Nota pessoal: 17,5
Média do painel: 17,83

2º Lugar Tinto Viña San Roman 2001 Bodegas Maurodos Toro 14%.
Os aromas iniciais revelaram uma componente floral muito engraçada e interessante, que vinham de mão dada com uma casca de laranja que envolvia muito bem a flor. Fruta vermelha bem fresca. O conjunto aromático ia enriquecendo com sugestões balsâmicas. Tudo muito proporcionado, bem delineado e com um pendor feminino. Na boca, a fruta pressentia-se e saboreava-se. Mas os taninos e a acidez estavam a tocar, um pouco, cada um para seu lado, criando alguma agressividade. Final longo, deixando lembranças de fruta e um rasto a flores. Um vinho para guardar, que precisou de comida para se mostrar. Melhor nariz.
Nota pessoal: 16,5
Média do painel: 17

3º Lugar Tinto Pintia 2002 Bodegas Pintia Toro.
Denso, escuro. Nariz com qualidade e acerto. Fruta preta madura, mas sem agressões. Tinta-da-china misturada com apara de lápis. Fundo balsâmico, aliado a trufa e flores silvestres, que enriqueciam um conjunto algo pesado. Posteriormente evoluiu para nuances anizadas e couros. Na boca entrava gordo, com taninos muito presentes a conferirem uma secura algo elevada, fazendo picar as gengivas. Sugestão balsâmica. Um final compreendido entre o médio e longo. Deu a ideia que a boca não estava afinada, dado que apresentou alguma agressividade. Há que esperar para ver no dá! Mas um tinto com qualidade.
Nota pessoal: 16
Média do painel: 16,16

4º Lugar Paisajes VIII 2001 Paisajes y Viñedos Rioja.
Referência no Guia “La Guia de Oro de los vinos de España 2005- Nuestros 1000 mejores vinos”. Levou menção prata. Aromas muito desinteressantes. Metálico e ferrosos. Incaracterístico. Sugestão de folhas secas. Um corpo delgado com um final muito curto. Não deixou memória e não deixou vontade de voltar a beber. Considerado um vinho de garagem.
Nota pessoal: 12
Média do painel: 13,58

Provou-se ainda o Leda Viñas Viejas 2001, mas devido a problema com a garrafa, foi retirado da prova. Este vinho teve, em dois momentos, avaliações algo díspares na Revista dos Vinhos. Do 8 ao 80. para nova abordagem…

Para a sobremesa bebeu-se: Blanco Chivite Colección 125 Vindimia Rardia 2001 Bodegas Julian Chivite Navarra 13,5% Muito elegante, fresco e sensual. Sem exageros e sem brutalidades. Mel, citrinos, avelãs. Muito envolvente na boca, sem desequilíbrios e muito afinadinho. Este vinho foi considerado pelo Guia “VIVIR EL VINO 365 VINOS AL AÑO 2005”, na versão 2002, o melhor branco doce.

terça-feira, abril 25, 2006

2000, 2001, 2003 revistos...

No passado dia 7 de Fevereiro de 2006, decorreu uma prova, mais uma, no Restaurante à Volta de Vinho, em S. Bento. O tema de inspiração para a prova era, desta vez, mais alargado, possibilitando aos provadores um maior leque nas suas escolhas. A única condição era que as pingas deviam ser originárias das colheitas 2000, 2001 e 2003, que supostamente são ou foram os melhores anos, até ao momento. Tudo o resto era livre. Estiveram presentes nesta prova, Francisco Barão da Cunha, Oliveira Azevedo, Paula Costa, João Quintela, Jorge Sousa e Rui Miguel.
O serviço dos vinhos decorreu como o habitual, nas provas cegas. Vinhos decantados por outrém, decantadores numerados, temperatura de serviço correcta, isto é entre os 16º/18º. Copos apropriados e tudo mais o resto...

As lides começaram com a degustação de um IceWine Cosecha Presidente, Casa Alvarado, da Costa Rica. Este vinho foi disponibilizado pelo Oliveira Azevedo, que numa das suas viagens adquiriu este exemplar. Deu para animar a conversa e mostrar ao presentes que o vinho não tem fronteiras, principalmente se olharmos para as condições metereológicas de um país como a Costa Rica. Mostrou aromas típicos deste tipo de vinhos, boca docinha mas com boa acidez. Correcta, mas nada de transcendente. Foi um bom companheiro para os dois dedos de conversa que houve nesse momento.
Terminado a prova didáctica de um IceWine das Caraíbas virámos para os tintos que aguardavam nos decantadores. Os comentários aos vinhos têm por base o que os presentes disseram, se bem que existe uma componente pessoal no tratamento dos registos. Sendo, portanto, da minha responsabilidade. Relativamente aos vinhos, que estiveram em prova, ficaram com o seguinte escalonamento:

1º Lugar: Chryseia 2003, 14,5%. Douro.
Impacto inicial de café, chocolate e baunilhas. Num perfil aromático algo sensual. Fruta preta aliada a compotas. Impressões de algumas especiarias. Na boca entrava gordo, com taninos presentes, mas muito suaves. A acidez andava no fio da navalha, proporcionando uma frescura algo ténue. Não perderia nada se estivésse mais alta. Final médio, deixando uma memória a fruta e chocolate. Um vinho que se mostrou já muito afinado, apelativo e muito guloso, mas algo monocórdico, sem grandes evoluções do ponto de vista aromático e gustativo.
Nota do Grupo: 17
Nota Pessoal: 16


2º Lugar: Kolheita 2001, 14,5%. Douro.
Um vinho um pouco à semelhança do Chryseia, mas com algumas nuances que lhe davam um carácter diferente. Impacto inicial de cerejas. O surgimento de alguns couros aliados a uma componente balsâmica e mineral que enriqueciam o conjunto. Bom envolvimento e profundade. Com o aumento da temperatura e tempo de abertura surgiram notas de café. Preenchia a boca, não deixando nada tapado. Taninos finos, bem envolvidos pelo corpo. Acidez estava colocada um pouco mais alta que no Chryseia o que lhe conferia mais vivacidade. Envolvente e com final de boa memória. Este vinho teve uma boa evolução, os anos de garrafa, deram-lhe mais equilibrio. As minhas foram bebidas antes do tempo...
Nota do Grupo:16,33
Nota Pessoal: 16,5

3º Lugar: Quinta dos Roques Garrafeira 2000, 13,5%. Dão.
Um vinho que fugiu ao perfil dos dois primeiros. Mais fresco, menos chocolate e menos fruta madura. Por aqui, deambulavam aromas silvestres, terra húmida, bagas. Existia nele um perfumado distinto que cativava as narinas. Na boca estava alinhado com a componente aromática. Taninos inicialmente vivos que conferiam alguma secura às gengivas. Fresco e elegante, se bem que foi morrendo ou desaparecendo ao longo do jantar. Houve até quem dissesse que ainda estava em construção. Foi um dos vinhos mais controversos da noite. Uma boa evolução...e acima de tudo diferente!
Nota do Grupo:15,75
Nota Pessoal: 16

4º Lugar: Quinta da Pellada Tinta Roriz Estágio Prolongado 2000, 13%. Dão.
Impacto inicial muito perfurmado, mas algo enjoativo e directo. Impressões de Alfazema, flor de larangeira e fruta vermelha. Necessitou de um compasso de espera para ver o que ainda daria. Surgiram então algumas pitadas de folhas secas, lembrando saquinhos de chá de tília. Pouco mais ofereceu. Na boca existia correspondência com os aromas sentidos pelas narinas. Presença de uma acidez viva, que permitia uma frescura interessante. Os taninos ainda davam sinal de vida, mas estavam um pouco soltos na boca. Alguma magreza no corpo. Final curto e com pouca memória. Um vinho que desiludiu um pouco. Alguns dos presentes já o tinham provado várias vezes e com melhores resultados!
Nota do Grupo:15,42
Nota Pessoal: 15

5º Lugar: Utopia 2003, 14%. Beiras.
Um vinho que se mostrou discreto, com aromas inicais algo estranhos, muito incaracteristicos e de pouca empatia. O que se descortina, apesar de tudo, era o seu elevado peso vegetal. Algumas evoluções para a caruma e casca de pinheiro. Na boca, tal como no nariz, começou algo estranho, agressivo, com a acidez elevada. Rugoso na boca. Ganhou um pouco com os secretos de porco preto e com o queijo. Mas para o nome devia valer muito mais. Mostrou uma prestação muito baixa. Para beber daqui a muitos anos...Afinal de contas veio da Baiirada!
Nota do Grupo:14,25
Nota Pessoal: 14,5

6º Lugar: Brunheda Reserva 2001, 13%. Douro.
Finalmente o último! Um vinho que tresandava a sobrematuração. Sem vivacidade, super enjoativo, nada complexo e sem ponta de graça. Mesmo colocando o copo longe do nariz, sentiam-se bastante bem as incomodativas notas de figos e ameixas, bem como sujestões de licor ou aniz! Muito enjoativo. Na boca o seu comportamento era fiel ao que nos tinha dito o nariz. Para quê tanto exagero? Será que o produtor estava a pensar num vinho do Porto?
Nota do Grupo:13,16
Nota Pessoal: 13

Na vertente da faca e do garfo, começamos com um requeijão que se mostrou correcto, mas sem deslumbrar, pessoalmente já comi muito melhor. Seguiu-se uns cogumelos frescos assados nos forno. Temperados com um fio de azeite e sal e aromatizados com um pouco de coentros. Uma proposta interessante que, na minha opinião, ganharia muito se no final levasse um pouco de flor de sal, em vez do sal normal. Como prato principal comemos uns secretos de porco preto, acompanhados por umas batatinhas fritas, cortadas em rodelas e uns grelos salteados. Tudo muito saboroso, sem confusão de sabores e aromas. Para não perder a pedalada, provámos, aliás comemos literalmente um queijo da Gardunha, de meia cura, que só estava fenomenal! Pessoalmente, há muito que não trincava um queijo tão bom, com tão elevada qualidade. Finalmente e já com as barriguinhas bem compostas, um pão de ló para servir de acompanhamento a um Moscatel, que nos foi servido em prova cega. O pão de ló estava bem feito, agora o Moscatel nem tanto! Quando o rótulo saltou cá para fora, a desilusão ainda foi maior! Abriram-se as bocas de todos os presentes. De todos, excepto de quem o trouxe...que já sabia o que levava! Tratava-se de uma novidade da Casa Ermelinda Freitas e da responsabilidade enológica de Jaime Quendera, o Moscatel Superior Dona Ermelinda 2000. Carregado na cor. De aromas e sabores simples, pendor algo enjoativo e com pouca frescura. Segundo o que diz o contra-rótulo, esteve durante cinco anos em cascos de carvalho francês. Uma última palavra para o preço estupidamente alto a que vai ser vendido. Existem no mercado propostas muito mais interessantes que este “Moscatel Superior”.

Foi aqui que tudo começou

A minha verdadeira paixão por todas estas coisas começaram numa prova que decorreu no distante dia 16 de Maio de 2003, no Restaurante Barriga de Anjo, actual À Volta do Vinho (http://avoltadovinho.no.sapo.pt). Estiveram presentes um grupo de amigos que ainda neste ano de 2006 ainda se encontram regularmente para beber e comer.
Deixo-vos aqui alguns apontamentos sobre o que bebemos e o que comemos, naquele distante dia:

O vencedor da noite foi o Quinta do Monte D' Oiro Reserva 1999. Confirmou ser um vinho de aroma complexo e intenso, com uma boca ao mesmo nível, estruturada e cheia de coisas boas. Tudo equilibrado e de persistência longa. Apenas um provador não o elegeu como o eleito da noite.

Em segundo lugar ficou a surpresa positiva da noite, o Garrafeira TE 1999 da J.M.F. A sua boa prestação também foi consensual, tendo até um dos provadores eleito este vinho como “o seu vinho da noite”. Notável em elegância e harmonia. Boa complexidade; Chegou mesmo a ser confundido por alguém como um belo Dão... Está, no entanto, já no seu ponto ideal de consumo! Dá muito prazer ser bebido agora.

Bastante distanciados ficaram o Quinta do Cabriz Escolha Virgílio Loureiro 2000 e Redoma 1999. Foram as grandes desilusões, já que a critica especializada considera/considerou estes vinhos como excelentes. Detentores de boas referências e elogios.
O Quinta do Cabriz foi o mais bem classificado, mas segundo estes provadores, não passou da fasquia “bom vinho-superior à média”. É um vinho algo austero, mas em tudo pouco acima da mediania, na concentração, na complexidade e na persistência.
Já o Redoma revelou muito poucos atributos positivos!? Excesso de álcool no nariz e na boca, também demasiado austero, pouco harmonioso, que o torna nesta altura demasiado desequilibrado. A roçar o sofrível, mas a melhorar com o tempo no copo....Achámos que precisa de bastante tempo em garrafa.
A classificação, ficou assim estipulada e acordada:

Quinta do Monte D'Oiro Reserva 1999. Estremadura.
Nota do Grupo: 17,05

Garrafeira TE 1999. Terras do Sado.
Nota do Grupo:16,65

Quinta do Cabriz Escolha Virgílio Loureiro 2000. Dão.
Nota do Grupo: 15,35

Redoma 1999. Douro.
Nota do Grupo: 14,95

Do ponto de vista, gastronómico, as iguarias apresentadas e degustadas que comemos apresentaram um nível elevado, de uma simplicidade, qualidade e sofisticação dignas de registo. Foram exemplos, de como se podem servir produtos tradicionais, de bom nível.
Nas entradas, fomos surpreendidos por um presunto "Porco Preto", de superior sabor, textura agradável e gordura saborosa. Sal na medida certa, sem exageros, e cortado em fatias delicadas e finas, tudo muito profissional. A alheira, degustada, era mesmo de caça!?! Nada industrial, muito boa, com delicados e identificáveis pedacinhos de carne. Houve quem dissesse que parecia a "alheira da avó" e que estava a fazer uma viagem no tempo. "Ao tempo das memórias da infância...!!!"

Como pratos principais, foi servido “D' Artois de Aves”, uma aplicação de massa folhada, com carnes mistas e maçã, foi um luxo! Muito delicada em que a maçã combinou muito bem e deu toque agridoce. As “Plumas” de porco preto, portaram-se muito bem, grelhadas, sendo mesmo de porco preto! Mais um exemplo de um excelente produto português, de muita qualidade e sabor ímpar...

Nos queijos, foram apresentados dois queijos provenientes de regiões diferentes: Um queijo de Serpa, de meia cura e um amanteigado da Serra. Neste capítulo, o Serpa portou-se melhor. Com aromas mais complexos e profundos.
Para sobremesa, um semi-frio de morangos de Sintra, natas e hortelã muito frescas e suaves, nada enjoativo e pesadão! Parabéns ao chef..."
Ao acompanhar os queijos e semi-frio, deliciámo-nos com dois Portos distintos. Um VINTAGE da Taylor's de 17 aninhos - 1986, com boa evolução de garrafa, certinho, com aromas terciários gostosos, harmonioso e macio! E um excelente Niepoort 10 anos que os provadores da noite aplaudiram.

segunda-feira, abril 24, 2006

Mais um encontro entre o Dão e o Douro

Mais uma ano, mais uma edição do Dão e Douro que vai decorrer em Lisboa, em moldes muito parecidos aos que aconteceram no ano transacto. Uma oportunidade única para visitar alguns dos melhores produtores destas duas regiões. Pode provar as colheitas mais antigas, as que est?o no mercado, bem como as que ainda estão no segredo dos deuses...sempre acompanhadas por alguns petiscos!
Você vai visitar?
Pode consultar mais informação no próprio site em www.daoedouro.com

Quintas das Maias Jaen 2003

Um vinho do mesmo produtor Quinta dos Roques, Sociedade Agricola das Faldas da Serra. Com 14% de vol.

Pelo impacto visual, mostrou-me boa concentração, com alguma densidade. No nariz, a pinga apresentou-se com assumidas notas de fruta preta, algum quí­mico e uma componente mineral que fez lembrar carvão ou grafite. Com o aumento do tempo de abertura e respectivo aquecimento do vinho, foram aparecendo sugestões de chocolate misturadas com algum café e tabaco.

Na boca entrava guloso e apetitoso. Não era um monstro, mas tinha presença. Taninos finos, mas sedosos. Final médio, com lembrança de fruta e chocolate.

Um vinho que me pareceu bem feito, afinadinho e muito saboroso. Não é um vinho para nos deixar de boca aberta ou muito admirado, mas como já disse está bem feito e soube-me bem. Acompanhou um borreguinho no forno com um arroz de mí­scaros. Não conheço muitos exemplares desta casta, mas tenho na memória um fabuloso Quinta da Pellada Jaen 1997 . Nota Pessoal: 16

Vai uma Pinga

Este blog pretende ser um espaço onde os amantes do líquido de baco, da comida farta e do charuto se podem encontrar para trocar dois dedos de conversa. Não prentende ser um local para experts e muito menos pretendo comportar-me como tal. Por aqui vai imperar amadorismo, a paixão e muita vontade de dar a conhecer o que vou bebendo e comendo por esse país fora.
A minha base de trabalho para já vão ser algumas crónicas, notas de prova que estão registadas em apontamentos pessoais, onde o vinho é sem dúvida o tema central.
Vai uma Pinga?