sexta-feira, Novembro 28, 2014

A maldita Madeira que insiste ser nova

Estava algures num local, em postura completamente aluada, quase desligado de algumas coisas que se iam falando, de volta dos meus botões e de um copo com vinho, por sinal, muito bom. Por ali ficaria, se não tivesse surgido lá do fundo, um simples comentário que certamente estaria contextualizado com alguma conversa. Eu apanhei, somente, uma parte que encaixa em muita coisa que vou sentindo, repetidamente, em muitos vinhos portugueses. Infelizmente e desgraçadamente, aquela passagem vinda lá do fundo, só fez cimentar a (minha) opinião que em Portugal, a malfadada madeira nova, ou coisas semelhantes a ela, ainda teima surgir em jeito de domínio superlativo em grande número dos nossos vinhos. Marca e destrói a presumível dignidade de uma casta, de um vinho.
 
 
Ao coberto sabe-se lá do quê, muitos vinhos oferecem-nos, ainda, coisas que já não queremos. Ao coberto sabe-se lá do quê, produtores insistem, porque se calhar acreditam, ou disseram-lhes, que aquele toque de madeira exacerbada iria dar sucesso. Que iria calcorrear com mais facilidade o caminho para o êxito. Há, ainda, nesta forma de olhar para o vinho, algo de muito provinciano, algo de novo-riquismo desnecessário. Um riquismo que para alguns serve, ou servirá, apenas para afundar ainda mais as suas pretensões. Mais gritante, o facto, é que esta peste teima em percorrer todo o país, surgindo em zonas que estavam, presumivelmente, a salvo dela. E, como sabem, quem apanha ou fala de uma moda que já não é, ou que não devia ser, só atalha caminho para o seu fim. Acho eu...
 

quinta-feira, Novembro 27, 2014

Ao Pedro: Uma espécie de contraditório

É, quase na certa, dos blogs mais bem escritos, bem mais interessantes que povoam o universo gastro-eno-blogueiro. Desta vez, e por causa de mais um excelente post do Pedro, dei comigo, num acto simples de revisão do (meu) passado e reparei que tudo o que ele, o Pedro, refere, nada tinha ou teve a ver comigo. 


Ao vasculhar os emaranhados meandros das minhas origens, dos hábitos e costumes que sempre alicerçaram a minha educação, vejo que muito pouco há de comum com o fado, com o sul - apesar de cá viver há uma vida - e com as suas tradições. Em jeito de brincadeira de criança, e porque circulo por terras de Santiago desde quase sempre, costumo dizer que sou ou serei, sei lá, uma espécie de eterno cruzado.
E recordando a minha genética, produto de uma combinação entre alta-beirã e superior duriense, vejo que ela foi decisória na minha forma de estar, na maneira como olho para o mundo. 


Reparo que até muito tarde, o Sul era qualquer coisa de estranho, de anacrónico. Faltavam sistematicamente as montanhas, o frio, as pedras, ou melhor: os penedos e as fragas. Os rios, cá em baixo, eram diferentes, menos tensos, menos aguerridos. Os cheiros eram diferentes, desorientavam. A comida parecia ligeira demais, sem corpo, sem peso, com uma delicadeza estranha. O vinho, até o vinho, era diferente.
Lá para cima, Pedro, não havia cante e devo dizer-te que quando ouvia aquilo, parecia estar a escutar qualquer coisa que vinha lá de uma terra que não era a minha, que não fazia sentido. O (meu) folclore era outro, mais ruidoso, mais mexido, mais aguerrido. Não era melhor, nem pior. Era simplesmente diferente.


Posso partilhar contigo, Pedro, que em tempos, na universidade, metia-me sistematicamente com uma alentejana, contando infindáveis histórias cómicas sobre os seus hábitos e sobre o seu povo. Ela na sua típica postura sulista, retorquia sempre da mesma forma e no mesmo timbre: Hás-de casar com uma alentejana e acabar por viver no Alentejo. Eu, de olhar duvidoso sobre tamanha certeza, acenava com um convicto não. E não é que a vida acabou por dar-lhe razão. 

terça-feira, Novembro 25, 2014

(Muito) porreiro, pá!

A expressão não tem qualquer significado e nem pretende ser uma qualquer sátira, apesar de fazer recordar uma situação e um momento em especifico entre duas personagens reais.


A expressão reflecte, e só isso e nada mais, o simples estado de alma ao sentir as primeiras sensações, sejam elas quais tenham sido.


O vinho era francamente saboroso, curtido, interessante, muito bebível, guloso e o que mais se possa dizer ou imaginar. Devo dizer-vos, sem qualquer rodeio, que não estava à espera que fosse como foi. O resultado, quase sempre fatídico nestas situações, é esvaziar a garrafa. Muito porreiro, pá!

sábado, Novembro 22, 2014

A simplicidade...

Ao ter andado meia vida acabrunhado, irritado, exasperado com as mais diversas passagens, acontecimentos, momentos, a idade tem-me (posso escrever assim?) obrigado a mudar o olhar, o ângulo sobre tanta coisa. Dia após dia, reforço a convicção de que gastei demasiado tempo em lutas desnecessárias, em campanhas sem resultado, em apostas mal apostadas, em dar relevância ao que não devia ter dado. A ideia que fica, o que resta ou restou, diz-me que há valores bem mais importantes, que contam mais, que estiveram sempre presentes, apesar de nunca lhes dar qualquer atenção. Mas a treta do orgulho, desfocava tudo.
 

 
A simplicidade, o acto simples, a forma desbragada em que devíamos viver é, incomensuravelmente, mais importante do que tudo o resto. O resto, pela definição, não é mais do que o resto. É o que sobra, é o que não é divisível, é o que não é importante, tenha ele o valor que tiver, seja ele grande ou pequeno. O estado em que se fica após tantas e tamanhas constatações, é que andamos a caminhar, por aqui, em puro estado de estupidez, toldados por um conjunto de falsas ideias, de falsas perspectivas. Já na dita caverna era ou foi assim. 
 

terça-feira, Novembro 18, 2014

Por causa das tais mais de 200 castas

Ao fazer uma breve leitura matinal pela rede, dei comigo com este post do Hugo. No post e por causa de uma nova estampa que ele irá colocar nas suas habituais t-shirts, lança uma dúvida: mais de 200 castas nativas e não chegam!
 


Atrevo-me a dizer, em jeito de constatação, claro que não são suficientes, não chegam. É preciso continuar a importar, substituir, a disseminar por zonas que até pouco tempo, estavam a salvo desse ataque. Diria que este enredo que anda à volta da presumível riqueza de castas, da sua hipotética diversidade é, permitam-me esta afirmação absoluta e bastante pessoal, uma das maiores falácias (entre outras) no mundo do vinho em Portugal.
 

domingo, Novembro 16, 2014

Mais uma Flor: de Penalva

Não comprei o vinho por causa do nome, aliás ao lado dele estavam outras flores. Acho, até, que podiam escolher, deviam ter escolhido outro nome. Havia ali uma certa colagem. Pareceu-me. 
Também não escolhi o vinho pelo rótulo, que apesar de ser minimalista e classicista, podia ser um pouco mais arrojado, mais actualizado, vá lá um pouco mais jovem.


Comprei o vinho, por causa da mistura de castas que vinha escarrapachada no contra-rótulo: Malvasia-Fina, Cerceal-Branco & Bical. O omnipresente Encruzado, vejam lá, estava ausente. Também comprei o vinho, por razões, a maior parte delas, completamente subjectivas, sem qualquer sustento. Comprei porque tinha, naquele momento, de comprar qualquer coisa


Terminado este emaranhado de considerações, sobra a (forte) convicção que o vinho era digno de outro nome e de outro rótulo, porque o vinho merecia e merece, de facto. Um vinho saudavelmente minimalista, fresco e franco. E em jeito de conselho, para os autores dos famigerados rótulos e contra-rótulos, revejam o principalmente o texto.

quinta-feira, Novembro 13, 2014

A Expectativa

Enquanto estava por a aqui a folhear normativos, despachos, teses, relatórios, salta para a minha frente, entre tantas palavras, uma que reteve-me por momentos: expectativa. Alguém, segundo parece, queixava-se que as suas expectativas, sejam elas quais eram, são ou foram, tinham sido defraudadas. Apeteceu responder simplesmente e desta forma: Não as tivesse colocado, às expectativas, num patamar tão alto. Pareceu-me exagerado, exacerbada tal desilusão, porque na verdade da vida, a expectativa deve ser doseada e servida na medida certa.
Por vezes, e no meio de tanta loucura, consumo e desejos desenfreados, aposta-se alto, elevam-se as tais expectativas ao máximo, como se o tal fosse o tal. Começam, parece-me, a haver muitos tais. Depois a desilusão, o desconsolo é grande, que quase (nos) desequilibra.
O remédio santo, apraz dizer, é ir vivendo, bebendo com calma, sem grandes euforias, sem grandes correrias. Acredito que assim, as tais expectativas, que tanto desiludem uns quantos de nós, acabarão por estar de acordo com a  real realidade. Vale mais fazer a estimativa por defeito. Assim e deste modo, a probabilidade de haver lucro é bem maior. Não acham?

sábado, Novembro 08, 2014

Encruzado&Malvasia

Simplesmente um dueto que funciona, uma dupla que faz sentido, um par que identifica a região.
Seja qual for a proporção entre elas, a percentagem, o peso de uma em relação à outra, combinam, complementam-se, há coerência. Mesmo sabendo que não há relações perfeitas, ficam bem uma junto da outra.



São vinhos que mostram tensão, frescura saudavelmente exacerbada, limpeza de sabores e clareza de aromas. Formam um bloco. O que uma não tem, terá a outra. Ou vice-versa.

quinta-feira, Novembro 06, 2014

Tá-se bem...

Após alguns anos a vaguear pela enofilia, após diversas e múltiplas primaveras e torneadas as emoções, a sensação que fica é que pouco ou muito pouco mudou. O olhar que tenho, desapaixonado nesta altura, é que será impossível sair da redoma em que estamos instalados. As incapacidades são de vária ordem e nem valerá a pena desenrolar o rolo. Seria repetitivo. Está-se assim, porque se quer estar assim ou porque será sempre assim. Ponto.
Observei atento e esperançoso, durante anos a fio, que aquilo, isto ou o outro tivessem a habilidade de prender, de dar um murro na mesa, dar a volta ao texto. Que carregasse o ar com asseio. Fatalmente ou não, tudo acabaria ou acabava por encalhar numa normalidade mórbida, num fatal cinzentão. Os rasgos que ainda perduram, não têm capacidade (ainda?) para alimentar uma esperança qualquer.
 
 
O status, e sem qualquer intuito pejorativo no uso da palavra, vive instalado, seguro, dominando diversas áreas, tentando agora, parece, ocupar nichos que estavam aparentemente a descoberto. Apetece dizer que, no entanto, não tem jovialidade, falta-lhe alegria, interactividade. Falta-lhe, ainda, muitas caras bonitas.
E rodeados por um cinto cada vez mais estreito, mais apertado, vai-se repetindo o que se sempre se fez, o que sempre se disse, vivendo agarrado a uma falsa segurança de não arriscar em ser diferente. Por isso, tá-se bem.
 

quarta-feira, Novembro 05, 2014

2000

Era o ano de tudo. Era o ano do fim, do principio, do apocalipse e do renascimento. Era tudo e foi nada. Alimentou as mais diversas teorias messiânicas, bem ao encontro das multidões desnorteadas. Foi, ainda, o ano em que muitos se apressavam a entrar nos trinta.


Foi, antes de acontecer, uma data longínqua, distante, que iria advir um dia. Algo que remotamente ainda estava bem longe. Agora, depois de acontecer, é também uma data longínqua e remota. Num ápice, e sem se dar conta, já passou. A única diferença é o tempo, que agora é contado de forma diferente: de forma decrescente e sem possibilidade de retorno. 


Foram, ao fim ao cabo, catorze anos normalíssimos, sem nada de extraordinário. A Terra, segunda consta, ainda roda em redor do Sol e o messias ainda não apareceu.

quarta-feira, Outubro 29, 2014

Dão: CAV Vinhas Velhas

Numa lazy afternoon, surge no meio da caixa do nada a lembrança de um vinho branco. Um vinho branco que nasce ou nasceu a partir de um aglomerado de vinhas velhas encostada às faldas da Serra. Segundo consta, vinhas com mais de cem anos. Este facto, não sendo exclusivo na região é, por si só, motivo de curiosidade. 


Depois há outra curiosidade: o nome. CAV quer dizer Clube Amigos do Vinho. É um dos vários projectos que o Produtor SEACAMPO está envolvido. De grosso modo, este produtor vai facilitar aos interessados espaço e os requisitos necessários para que possam guardar os seus vinhos. Desconhecendo a existência de outros projectos semelhantes, devo dizer que achei a ideia curiosa para quem luta com dificuldades de espaço ou não tem as melhores condições ao nível da temperatura.


Sobre o vinho, e para rematar a conversa, pareceu-me um vinho que se pauta pela elegância, pela suavidade, pela finura, pela frescura. É vinho para regressar e voltar a provar ou beber. Como queiram.

sexta-feira, Outubro 24, 2014

Confirmado e Confirmadíssimo

Podia acabar com outro vinho, podia fechar, com chaves de ouro, escolhendo um nome mais sonante, mais de acordo com a fina flor, conseguindo, sei lá, mais inveja ou coisa parecida.


Escolhi para encerrar o périplo bairradino, um vinho de cooperativa. Um vinho que representa um estado, uma lógica: é possível fazer e apresentar ao povo mais elitista e que olha de soslaio, algo com enorme qualidade. 


Este vinho, e resumindo o enredo e contando de forma grosseira, estava a um canto lá no meio de outros. E a certa altura, foi revisitado por quem de direito, ficando estupefacto com a força, a forma, a qualidade, a complexidade que apresentava passados vinte e dois anos. Um vinho saudavelmente decadente. Por todas estas razões e mais algumas, direi que está, por isso, Confirmadíssimo.