quinta-feira, abril 16, 2015

Evel Grande Reserva 1999: Versão Manuscrita

Aproveitando a pausa do café, aqui vai um mero entretém para hoje.
Não há muito tempo tinha referido que, por causa do rótulo, comecei a relegar para segundo plano este vinho, não por causa de falta de qualidade dele, mas porque embirrei, por questões meramente pessoais, com a estampa. Uma questão, portanto, de gosto.
Mas não deixa de ser curioso que, da última vez que o bebi, não tinha sequer rótulo. Tinha, apenas, uma breve descrição manuscrita. Apesar de identificado de forma muito elementar, fez recordar a classe do antigo (rótulo). Vinho e vestimenta eram coerentes. Ficavam bem um para o outro.


De qualquer modo, foi e ainda é um belo vinho tinto e que marcou, para mim, um período feliz da minha vida. Quase que me atreveria a dizer que 1999 foi um dos meus anos Vintage. Um vinho elegantizado pela idade, um vinho que apetece simplesmente beber. Revelador, também, da boa capacidade que tem para ir passando pelo tempo. E terminada a pausa do café, sobra aquela máxima bem conhecida de todos nós: recordar é viver.

terça-feira, abril 14, 2015

Uma grande virtude

Acordei, como quase sempre, meio mal disposto, irritado com mil e uma coisas. Coisas que, por muito tente, ainda fazem disparar os alarmes da impaciência. Impaciência e irritação por não ser capaz de virar as costas a meia dúzia dessas coisas que insistem moer. Impaciento-me com a pobreza intelectual, a decadência da qualidade, a boçalidade escrita e oral que vai existindo, pululando livremente. Que enchem a nossa vida.
Gosto de acordar, tomar café e ler as novidades do dia. Novidades que sejam novidades, que sejam novidades alegres, ler e reler textos bonitos, que façam sentir que vale a pena, que há uma indelével esperança. Mas a porra é que a miserabilidade do intelecto é tão grande que nos coloca, bem cedo, sem vontade de enfrentar o (este) dia. 


Sobra por isso, neste momento, a confiança de que amanhã quando voltar a acordar, mesmo mal disposto, surjam pela frente histórias mais bonitas, relatos mais emotivos e íntimos. Coisas, as tais coisas, que nos alegrem. Até lá, apetece dizer que o cinismo é, efectivamente, uma grande virtude.

domingo, abril 12, 2015

Simplesmente: Back to Basics

Há momentos que se tornam icónicos por representarem na perfeição um estado de alma, a razão pelo qual optámos ou tentámos ser assim e não de outra maneira. São lances que nos fazem relembrar do que gostamos efectivamente, independentemente de modas ou corridas desenfreadas em busca sabe-se lá do quê. À procura de um graal que não existe, de facto. São momentos que nos dizem, tal altifalante ao ouvido: pára!

Simplesmente tinha tudo para não vingar. Mas vingou. Vingou de forma brilhante. Sorte ou acaso?

Na verdade, e em jeito de partilha, ando numa silenciosa demanda com o propósito de reencontrar a inocência perdida, numa tentativa de regressar ao básico, ao elementar. Despojar-me de todos os desejos, aspirações e ambições sem sentido, relegando para posições secundárias coisas e actos que são, na verdade, meras ilusões que apenas desgastaram e ainda desgastam. Que desviaram do óbvio, do que realmente importa e interessa. Que nos vão matando lentamente, impossibilitando de viver.

Era disto que gostava.
É como se quisesse voltar à condição de criança, que já fui, a olhar para uma montra repleta de brinquedos que não posso ter. Mirá-los por breves segundos, mas seguir caminho aconchegado pela mão da mãe. Sinal de resignação? Talvez sim. Talvez não. Antes sinal de constatação: cada um faz o que pode fazer e tem o que pode ter.

sexta-feira, abril 10, 2015

JMF Moscatel Roxo 20 anos: Moscatel que é Moscatel de Setúbal

Por muito que tente, por muito esforço que imprima em entender ou aceitar, há coisas que são o que são, para mim. E perdoem-me, todos aqueles, que acham o contrário. A presumível liberdade, em que vivemos, assim vai permitindo. Não encontro casa que trabalhe, na generalidade, os Moscatéis de Setúbal com a mesma mestria da José Maria da Fonseca. Dou de barato que esta afirmação tão taxativa, tenha como sustentação o meu eventual desconhecimento sobre o que há ou não na região.

Com uma profundidade e complexidade ímpares que o situam ao nível dos grandes vinhos licorosos portugueses.
A capacidade de perdurar na memória é elevada. Passadas horas, após o último gole, ainda pupulavam um conjunto de sensações sumptuosas, luxuriantes, levando-nos a pensar que a vida pode ser próspera.
São raros, muito raros (ou residuais) aqueles que conseguem situar-se no mesmo patamar. São pesados, demasiado melados, parcos em frescura e complexidade, planos e sem garra. Sem aquele toque muito especial, que nos faz ficar efectivamente feliz o resto do dia ou com enormes saudades no futuro, por causa da sua ausência. Acabo como comecei: são o que são.

quarta-feira, abril 08, 2015

Quinta de Sanjoanne: Venha o Diabo e Escolha

A expressão venha o diabo e escolha pode ser a conclusão a retirar da prova feita in loco com os vinhos da chancela Quinta de Sanjoanne. Que venha o diabo e escolha, porque as diferenças encontradas foram mínimas. Resumiram-se, vá lá, a meros apontamentos de preferência estritamente pessoal. Poderia dizer que gostei mais de A em detrimento de B, mas creio que para o que está em causa, a relevância era diminuta e sem qualquer interesse factual.





De qualquer modo, sobressai a estonteante qualidade, nunca verificada pessoalmente e de forma tão lata, na gama Terroir Mineral. Desde as primeiras colheitas, o seu carácter vincadamente mineral, austero e seco marca presença de forma afincada. Impressionante, também, a forte juventude, a irrequietude, o nervo detectados nas restantes gamas, mostrando uma enorme coerência entre todos os vinhos. 




Importa registar, por isso, que ao fim de uma porrada de vinhos, fica a convicção, minha, de que estivemos perante vinhos de elevado gabarito, capazes de envelhecer ao longo de muitos anos, confirmando que branco verde é para beber também maduro. Desta forma, resta-me terminar como comecei: venha o diabo e escolha, porque eu não consigo. 

terça-feira, abril 07, 2015

As Vinhas e os Vinhos de António Madeira

Entre o sonhar ou desejar e o fazer vai um valente passo. Um passo que, todos, recusamos dar, optando por passar a vida carpir palavras ou expressões de sofrimento. Preferimos, por ser mais fácil, a resignação, o encolher dos ombros e escudar-nos em múltiplas desculpas.

Um vinho profundo, muito fresco, com muito carácter.
Independentemente do que achamos dos vinhos, do projecto, se gostamos ou não, creio que é meritório que alguém sem conhecimento, um autodidacta, sem história no mundo do vinho, abrace à sua maneira, com a sua visão, um sonho, um ideal e o tente concretizar. E poucos, parece-me, o conseguem. Raros são, também, aqueles que nutrem uma paixão exacerbada por uma região, ao ponto de não terem vergonha de escarrapachar com letras garrafais o nome dela, relegando para segundo plano a sua chancela, a sua marca. 

Um salto qualitativo em relação à primeira colheita. O branco de dois mil e treze está muito interessante, cristalino, limpo e muito profundo e que parece ter arcaboiço para aguentar no tempo.
A par de outros produtores, de maior dimensão, mencionou, logo que foi possível, o nome da sua sub-região: Serra da Estrela. Fê-lo, antes de mais, porque acredita no território, nas suas potencialidades, no carácter vincado da sua orografia. A seu lado está um grupo de amigos que a diversos níveis o tem ajudado, que lhe vai dando pistas, caminhos alternativos, opções, ideias com o simples objectivo de o ver singrar, de ter sucesso. A palavra final, naturalmente, é dele.

segunda-feira, abril 06, 2015

Feliz Lonjura

Reparei, aliás, constatei que não tive falta disto. Nem por momentos pensei que estaria a desmobilizar os meus infindáveis leitores, que no meu caso se resumem ao vizinho do lado. Passaram-se dias, os suficientes, para perceber que posso controlar o vicio, que é perfeitamente desprezível, acessório. Que o seu valor é efectivamente (muito) pouco, que tem pouca relevância.



Foram dias, os meus, em que não soube o que se passou ou se passava, em que não sabia o que se dizia, que não quis saber literalmente de nada. Foram dias de distância, de feliz lonjura que só determinados lugares nos permitemSenti, dentro desta atormentada alma, qual era e onde era o meu lugar e o que precisaria para chegar até ele. O foco, o meu, passou a ser ainda mais intimo, mais interno, menos partilhável, ainda menos compreensível. 


quarta-feira, março 25, 2015

Ribeiro Santo Encruzado: Esclarecer o Vizinho

Hoje resolvi, logo pela manhã, esclarecer o meu vizinho do lado, porque o da frente não liga, de todo, a vinho. Na verdade não tenho muitos vizinhos para elucidar sobre as melhores compras, os melhores vinhos e as tendências a seguir. 


Num puro acto de altruísmo e imbuído de elevado nível de conhecimento sobre a matéria, toquei à porta do referido vizinho do lado. Para se situarem geograficamente, é o vizinho da direita. 
Evitando palavras mais ou menos complicadas, mais ou menos estranhas, disse-lhe que era uma pinga bem porreira, muito mesmo, e que se bebia num ápice. Disse-lhe, se a memória não me falha, que o vinho não era nada pesado, era bem fresco, e que escorria pela goela de forma muito célere, sendo que uma garrafa podia não ser suficiente. 


Por momentos, ainda tive a tentação de mostrar ou puxar pelos galões, mas, vá lá, contive-me. O vizinho do lado, aquele vive à direita, apenas retorquiu, meio ensonado, o seguinte: leva mas é o vinho para o próximo petisco

quarta-feira, março 18, 2015

A (des)Ilusão

A ilusão é uma confusão dos sentidos que provoca uma distorção da percepção. A ilusão pode ser causada por razões naturais ou artificiais. Uma vez que a percepção é baseada na interpretação dos sentidos, as pessoas podem experimentar ilusões de formas diferentes.
As ilusões são como as sombras chinesas, em que julgamos ver, se o marionetista for um tipo habilidoso, as figuras a dançar, a rir, a sorrir para nós, só para nós. E a vida está cheia de ilusões, de percepções erradas que a determinada altura, durante muito tempo, julgamos ser as certas. Presos às nossas convicções, tal prisioneiro da caverna, vamos vendo o que julgamos parecer certo ou errado. 


A trama aumenta quando vemos que o que era não era, de facto. Que tudo não passava de uma ilusão, de uma visão distorcida do que pensávamos ser. A realidade, seja ela qual for, está cheia de insidiosos interesses, de acordos contranatura, de estranhos conluios, de subserviências, em que o ser humano se vende ou se compra por um meio soldo. Percebe-se que o privado é o espaço da presumível pureza, do peito aberto, ou se calhar do engodo para os incautos. Em público, com o receio de ser apontado, finge-se, ou não, que a coisa é completamente diferente. Perante esta dualidade, crê-se que o que acontece em público é o verdadeiro, despido de qualquer romantismo, de qualquer ilusão. E maldito seja o vinho que nos solta a língua em demasia e nos ilude com tanta coisa.

terça-feira, março 17, 2015

Dos tempos da boémia

Episódios. Mais um. Alguns anos atrás em pleno interior beirão, era costume, regularmente, juntar-me com uma pandilha local e dedicar-me de corpo e alma a um conjunto de prazeres desbragados, em que a comida e a bebida eram colocados ao nível de um qualquer culto religioso. Tudo, quase, era levado ao extremo. O extremo era o que cada um aguentava. E o exemplo era la grande bouffe


A pândega era, portanto, levada a sério. Não se admitia ou admitiam personagens que ao coberto de regras de boa conduta, tinham o desplante de dizer que isto ou aquilo fazia mal. Gentes sem mácula, sem qualquer impureza humana. Limpos.


Os dias eram certos ou incertos. Era quando apetecia, quando havia necessidade ou quando, por alguma razão, ficávamos encolerizados com as ordens emanadas lá do ministério. Tudo era justificação para o mesmo. E o vinho, caramba, era sempre branco. Este. Bebia-se até não haver mais, naquele dia.

segunda-feira, março 16, 2015

Terras do Demo e as Serras

Três passagens, três autores. Densos na estrutura, no pensamento, na escrita. Todos intimamente ligados à montanha, às serras, às agruras do tempo. 


"A serra é agreste, primitiva, mas tem carácter, sem dúvida. Comprazes-te em pintar-lhe as virtudes e encantos sem sombras, e não sei eu que te acoime de parcial. As tintas escuras são para o novelista e tens razão. Decerto que eu, ao chamar-lhe Terras do Demo, não quis designá-las por terras do pecado, porque o pecado seja ali mais grado ou revista aspecto especial que não tenha algures. Nada disso. A serra é portuguesa no bem e no mal. Chamei-lhe assim porque a vida é dura, pobrinha, castigada pelo meio natural, sobrecarregada pelo fisco mercê de antigos e inconsiderados erros e abusos, porque em poucas terras como esta é sensível o fadário da existência." 
Aquilino Ribeiro

"Serra!
e qualquer coisa dentro de mim se acalma...
Qualquer coisa profunda e dolorida,
Traída,
Feita de terra
e alma.

Uma paz de falcão na sua altura
A medir as fronteiras:
Sob a garra dos pés a fraga dura,
E o bicho a picar estrelas verdadeiras."
Miguel Torga

"Era a grande montanha a oriente, a sua liberdade espacial, era o bafo quente de um amor perdido, a flor original de uma alegria perdida. E então voltei para lá a minha face molhada, e tudo em mim disse adeus longamente...." 
Vergílio Ferreira


E um vinho profundamente elegante, com uma leveza indelevelmente marcante e contraditória. 

quinta-feira, março 12, 2015

WIJION e o Paradigma da minha Distância

Há coisas tramadas. O distanciamento a que vou votando a minha relação com o vinho e seus enredos, acabam por trazer algumas surpresas. Surpresas que surgem nos momentos mais informais, nas situações mais descontraídas, em que o vinho, seja ele qual for, serve apenas como catalisador de conversa, de relações entre indivíduos. 

Um belo e interessante espumante. Com alguma seriedade e sobriedade. Ocorre-me o seguinte comentário: Sim senhor!

Perplexo, ou se calhar não, com a falta de conhecimento sobre o vinho em causa, levou-me a tentar perceber o que era aquilo. Percebi, entretanto, que boa parte do mundo que se alimenta de faits divers, já tinha conhecimento de causa, o que tornou a minha ignorância em algo, sei lá, giro, saudável, divertido, profundamente libertário. Foi a prova provada de que ando mesmo longe, com a cabeça a vaguear por outros lados.