quinta-feira, maio 05, 2016

Evel: O Regresso a um Clássico

Epá, gostei de pegar neste vinho que não bebia há muito tempo. Era, na altura, umas das minhas escolhas. Era um dos vinhos que escolhia para beber com muita regularidade. Sabia-me bem, gostava daquilo e gostava muito. Apreciava a sua frescura, a sua intensidade aromática, o seu crispy


Olhando para o arranque do século XXI, este e outros vinhos do mesmo patamar foram verdadeiras pedradas no charco. Começava a ser possível aceder, com mais facilidade, a vinhos brancos tecnicamente bem delineados, mais equilibrados e frescos. O cenário, naqueles anos, não era nada exuberante como agora. Demorou algum tempo até que os vinhos brancos começassem a ser recolocados em lugar de maior destaque.


E agora? Agora, devo dizer que senti-me bem ao beber este clássico da Real Companhia Velha. Gostei e não tenho qualquer pejo em o afirmar publicamente. Serve e serviu para ajudar no relaxamento, para acompanhar meia dúzia de pensamentos e deambulações pessoais ao final de um dia. Mantêm o registo que sempre teve, mas pareceu-me mais adulto, mais contido, mais sénior, mas sem perder ao mesmo tempo a jovialidade que o caracterizava. Done!

quarta-feira, maio 04, 2016

Villa Oliveira: O Primeiro

Na dimensão das minhas emoções, da minha profunda irrazoabilidade, das enormes incoerências que carrego às costas, o primeiro continua a ser o mais marcante. Marcante pelos momentos felizes, pelas reacções que provocou, por ter sido, na altura, o primeiro. 


Naturalmente e por razões compreensíveis os holofotes e as atenções estão apontadas para as novidades, para o que é mais recente, para o que é mais actual. Mas eu, alimentando pela casmurrice, teimo em relembrar aquele que insiste em continuar a despoletar reacções, estímulos. O quer que seja. É, ainda é, um belo vinho, que se mostra cada vez mais elegante, mais fino. Um vinho que marcou um tempo. Uma época.


E por entre copos e mais copos, percebe-se que um ciclo se fechou e que outros irão surgir, que a vida continuará por outros caminhos. E com um sorriso discreto, foi-se cerrando os olhos.

terça-feira, maio 03, 2016

Vinhos Brancos que são Brancos

Outra dúvida de cinco tostões. Comecei a notar com alguma frequência que existem vinhos brancos que são mesmo, vejam lá, vinhos brancos. Não, não me equivoquei. Existem vinhos brancos com uma cor semelhante à da água, translúcida, límpida. Atreveria-me a dizer que estão, também, na categoria de vinhos que sabem a água. Aguados. Serão, talvez, mais saudáveis. Não sei.


Apraz dizer, portanto, que nestes casos, estamos perante vinhos verdadeiramente brancos, ao contrário dos outros que nos enganam, ultrajando-nos. Dizem que são uma coisa, quando não o são. São amarelados ou esverdeados. Uma chatice. Um vinho branco é isso mesmo branco, com aspecto de água e quase a saber a água. Assim, vou começar a reclamar com quem de direito, quando botar ou botarem-me no copo um presumível vinho branco e ele não tiver a sua cor verdadeira. Igual à da água. Ou é branco ou não é. Mas pronto, ao menos existem os Verdes.

segunda-feira, maio 02, 2016

Clássicos e Clássicos

Perguntas e dúvidas: O que são de facto vinhos clássicos? São clássicos por causa do número de colheitas? Por causa de um estilo? E o que é um estilo clássico? E quando é que um clássico deixa de ser clássico? Quando muda o estilo? O rótulo? 

Dizem que este vinho é um clássico.

Ou independentemente de tudo um vinho clássico continua a ser um clássico apesar de todas as actualizações mundanas que vai fazendo ao longo das diversas colheitas? Provavelmente a resposta será mais prosaica e directa do que pensamos: Chamamos de clássico, porque ouvimos este e aquele a dizer quer era clássico. E assim fica. 

sexta-feira, abril 29, 2016

Since 24 de Abril de 2006

O que ando aqui a fazer? O que pretendo com isto? O que afinal pretendo? O que queria ou quis ao longo destes anos? Atrevo-me a dizer que quis tudo e ao mesmo tempo não quis nada. E num acto sincero de contrição, reparo que as alarvidades cometidas foram tantas que perdi a conta. Posso dizer, hoje, que tenho vergonha da maior parte delas. Revejo incessantemente o que disse e noto que o disparate e a boçalidade foram a norma. Julguei-me engraçado e ridiculamente conhecedor.
Dez anos depois e após tanta cabeçada na parede, faz-me impressão ouvir ainda dizer que tenho um blogue (agora é perfil de facebook) por mero prazer, porque quero apenas partilhar, sem qualquer interesse, porque gosto apenas, não querendo, vejam lá, nada em troca. Soa a quase sempre a intrujice. Nunca ouvi dizer, nem baixinho, que quero vencer, porque quero ser aquilo que quero ser. Qual é o mal querer a sombra de uma palmeira? 


Ao fim de dez anos, faz-me confusão não saber a opinião de quase ninguém, perceber que quase tudo chuta para o lado para não marcar golo. De propósito. Faz-me impressão, cada vez mais, a surdina, a falta de frontalidade e a merda dos jogos de interesse. A viscosidade que vai molhando o chão, ao contrário do que cheguei a pensar, é cada vez maior. 
Com o advento das messiânicas redes sociais, potenciou-se ainda mais a inocuidade e a frugalidade, bastando ser bonito ou estar acompanhado por gente bonita, ser presumivelmente porreiro, ser eventualmente fixe e não ter assumidamente convicções sobre nada. Convém também não esquecer que o direito de opinião não é para todos. É e continua a ser privilégio de poucos.
Apetece dizer, ao fim de dez anos, que muito pouco mudou. Apenas o envoltório tem um aspecto mais bonito.  

quinta-feira, abril 28, 2016

Why Social media doesn't sell wine

O titulo desta resenha não é meu. É um aproveitamento de um artigo  partilhado pelo João e que comecei a ler há poucas horas, e que irei escamotear pessoalmente com calma, ao longo do tempo e sempre que o tempo me permitir. Contudo, pareceu-me, pertinente partilhar, lançar a discussão sobre o assunto que não vai acontecer. 


Ainda assim ficam aqui algumas passagens: "Social media and wine were fun a half decade ago. Even bottle-wank accounts (shots of a single bottle and nothing else) were amusing to look at it. There was a good deal of interaction, even if it was ultimately meaningless digital farting in the end because after all, a little farting now and again feels wonderful. Retweets on Twitter were aplenty and likes on Facebook even more so. Then things started to change.
The first problem started when Twitter introduced the “like” to copy Facebook. This was the beginning of the end for Twitter as people “liked” things more than retweeted them and thus there was much less dissemination. And again, this goes back to the opening paragraph because the passive use of likes versus the assertive use of retweets took over and people’s account were much more just their own broadcasting as likes were done out of sight. If some yaphole was constantly pitching his own book and not putting out interesting retweets because he just “liked” everything instead, it suddenly got a lot less interesting and by “less interesting” I mean, “super shitty.”
There was also “social fatigue” that set in. If you look at the Twitter account of Catavino and see that they have 49,000 followers, you might assume that this is something impressive. The truth is, their followers have been dropping off steadily at a rate of 1,000 a year and their retweets and likes are paltry for the number of eyeballs that they in theory reach. Even if they reached 10 likes on a tweet, that would still only mean participation 0.0002% of their total followers."
Resumindo vivemos em plena ditadura da contagem dos gostos, das caras bonitas, das poses excêntricas. A importância de cada personagem virtual ou não, em muitos casos, não é definida pela qualidade de argumentação, do arrojo, do nível de intervenção, e muito menos pela capacidade para criar e construir qualquer coisa, mas sim pelo número de vezes que aparece aqui e acolá e a consequente ressonância através dos imprescindíveis likes que vai obtendo. Começa a parecer-me que estamos perante uma (i)realidade repleta frugalidades, na maior parte das vezes. E sim, também eu começo a ficar fatigado. Entretanto, bem ao estilo tugalês, vamos assobiar para o lado. Eu, agora, vou contar os meus likes.

terça-feira, abril 26, 2016

Flor das Maias Branco 2012 - Remake

É repetido? Já falei dele por mais que uma vez? Sim e não ficarei por aqui. Estou perante um dos vinhos brancos mais surpreendentes, para mim, que foi feito no Dão nos últimos tempos. Possuidor de uma estrutura férrea, com uma frescura pujante e a demonstrar uma capacidade de evolução bem acima da média. 


Após, sei lá, dois/três anos após a primeira vez que o bebi, apresenta-se mais maduro na idade, é certo, mas ainda carregado de tiques de mocidade, de irreverência. Com muito nervo e com muita vida. E prova após prova, continua a impressionar-me.


Registo apenas o facto de não compreender a razão por não ter sido colocado nos píncaros, por quem escreve e decide quem é o melhor ou não. Apraz dizer, por isso, em jeito de conformação: sobra mais :)

quarta-feira, abril 20, 2016

From LIDL with Love

Sou cliente do Lidl! Sim, frequento regularmente esta cadeia de supermercados. Não frequento com sentimento de voyeurismo, mas para comprar de facto. E compro muita coisa. E os vinhos estão no grupo dessas coisas que costumo comprar. Não são todos, é verdade, mas são alguns.


Este é um feliz exemplo do que adquiro regularmente, para beber de forma descontraída, sem sentir que estou a beber qualquer coisa inócua, sem qualquer rasgo de interesse, que é pouco mais que nada.
Não sei se é manipulado, batido, chocalhado, alterado, trabalhado, ou se leva madeira a sério ou outro derivado. O que importa é que o bebo com (muita) satisfação, durante a semana, seja ela qual for, cumprindo todos as normas que estabeleço: prazer pessoal.


Acrescento que é dos poucos casos em que um vinho com um preço inferior a 4€, nas grandes superfícies, merece algum destaque da minha parte.
E desculpem lá se vos decepcionei, mas nem sempre de ECI vive um homem.

terça-feira, abril 19, 2016

Primus

Há dias que não apetece dizer nada. Simplesmente nada. Talvez vociferar. Talvez. Apetece apenas beber sem grandes porras, porque o vinho, este, não precisa, nem quer, que se perca qualquer tempo com superficialidades banais. Do tipo verbo de encher.


Por isso, resumo este flash a algo profundamente simples: Um grande vinho do Dão, onde a delicadeza e a subtileza são dados do seu cartão de cidadão (ups!). Com uma profundidade e equilíbrio estonteantes.


Posto isto, apetece somente mandar o mundo para o raio que o carregue, desejando que o estado de ebriedade chegue o quanto antes. Ao menos e por momentos, afastamo-nos da intrujice que nos rodeia e que nos desgasta e agasta. No outro dia, logo se verá. 

quarta-feira, abril 13, 2016

Vergonhoso, Questionável, Enganador ou nada disto? (Parte II)

Para provar ao povo que os descontos são verdadeiros e não um embuste do tamanho de qualquer coisa que não sei dizer ou medir, a maior garrafeira do país, onde o Dão é Beirão, voltou a reposicionar alguns dos seus vinhos no valor real. Temos, então, a prova provada que a promoção é mesmo promoção e que vale a pena aproveitar as campanhas promocionais. Tanta promoção!


Apraz dizer o seguinte: coitados dos incautos que irão comprar no período de não vigência das tais promoções a quase cem por cento. Não o façam, por favor! Em breve, muito em breve, voltarão a ter promoções ou descontos que tornam este e outros vinhos quase grátis. Isto é, colocam-nos no patamar certo de custo. Tenham calma, pois poderão, daqui a pouco, comprar um vinho premium a preço de entrada de gama ou ainda menos.

quinta-feira, abril 07, 2016

E é isto...

É pena que não existam (e dificilmente existirão) em Portugal múltiplos projectos com enfoque na verdadeira critica e na análise real de qualquer coisa, de modo a fomentar, de facto e efectivamente, a competição e a livre escolha. Que proporcionassem o incremento de verdadeiras correntes de opinião e de pensamento, em que o contraditório fosse considerado como algo natural. Que ajudasse a montar ou desmontar as mais variadas teses.
A diversidade e o confronto de ideias são (ou deviam) ser condições essenciais para que uma sociedade evolua de forma saudável, solta de todo e qualquer constrangimento, onde não houvesse receio em pensar de forma diferente. De querer este ou aquele caminho. A escolha, quando acontece, leva-nos na maior parte das vezes ao isolamento, ao ostracismo, à troça colectiva.


A malta acaba por encolher-se a dada altura, amochando a cabeça junta à relva, encostados a um centro, sem nos desviarmos um só milímetro do carreiro do rebanho. Levantamo-la, apenas, para a fotografia. E assim continuamos amontoados, sem dizer coisa de jeito. Se espirrarmos um pouco mais alto, olham de lado para nós. Fomos mal educados.

quarta-feira, abril 06, 2016

Villa Oliveira: A Vinha do Províncio

Foi difícil, se não impossível, ficar indiferente. Há-que dizer mais uma vez, antes de continuar, que continuo a ficar surpreendido pela evolução que os vinhos brancos nacionais estão a sofrer, para melhor, nos últimos anos. Atrevo-me a dizer que podemos correr o risco de relegar para plano subalterno os congéneres vinhos tintos. Pessoalmente é que tenho feito nos últimos meses ou anos. 


Proveniente de uma vinha velha específica, com diferentes castas, sem predominância de umas sobre outras. Um autêntico field blend. Com uma vinificação semelhante aos vinhos tintos, proporcionando desta forma, perdoem-me a linguagem simplória, mais volume, mais estrutura, mais longevidade, mais complexidade. E menos exuberância. Muito menos empatia imediata.


É um vinho branco com um forte carácter sénior e masculino, possuidor de uma força de ferro, abastado de frescura, tensão e com um caudal que impressiona. Ganha com o tempo, eleva-se com a decantação, surpreende pela aptidão que possui em surpreender, de facto, desde o primeiro copo até à última gota. Um vinho branco feito como se fosse um tinto, mas que é felizmente um vinho branco.