segunda-feira, Setembro 22, 2014

Quinta dos Três Maninhos

Queira-se ou não, diga-se o que disser, mas as relações entre pessoas, a forma como elas se apresentam e se relacionam com o mundo, influenciam, em grande medida, as nossas escolhas. É normal, é humano, é mesmo assim. Quem disser o contrário, andará equivocado. Nós decidimos, optamos ao coberto de estímulos emocionais, sentimentais. Muitas vezes, quase sempre, injustificáveis.


Feita a nota introdutória da homilia, devo dizer que desde algum tempo que nutro um carinho especial por este projecto do Dão. Um projecto pequeno, com uma carga familiar muito forte. E tal como o nome diz e indica, é da responsabilidade três irmãos
E num mar de tantas propostas disponíveis, por vezes iguais entre si, conseguiram fazer um vinho que (me) enche as medidas, pela limpeza, pelo carácter que possui, pela capacidade de envolver. Um vinho que comprova e prova que é possível fazer (muito) bem, sem grandes apetrechos, sem grandes delírios, tornando-o grande.


Rematando as pontas soltas, urge levantar a seguinte questão: se os mentores em causa fossem indivíduos chatos, pretensiosos, carrancudos, teria bebido o vinho? Pelo menos uma vez, mais não. É sempre preferível beber, recordando bons episódios, boas conversas, caras de gente simpática.

terça-feira, Setembro 16, 2014

Mafarrico

Realmente, e apesar parecer estar tudo mais ou menos descoberto, aqui e além ainda vão surgindo algumas coisas giras, curiosas, com nomes bem esgalhados, que fazem rir, recordar peripécias. Este vinho, que é do Douro e que não conhecia de todo, prendeu a atenção pelo curioso nome que ostenta: Mafarrico. Nome que faz lembrar aqueles putos traquinos, ariscos e travessos.


Putos que parecem ter o diabo no corpo, incapazes de estarem quietos, de não fazerem asneiras. E se tiverem cabelo dourado ou alourado, ainda são baptizados de russos de má pêlo. Sei o que é. Outra curiosidade, que não sabia, é que mafarrico é o nome de um jogo de cartas (da Bairrada), bem como de um habitante de Mafra.


Mafarrico é, também, uma personagem do elenco da série Noddy. Trata-se de um duende que se entretinha a fazer travessuras, jogadas menos claras, sempre com o intuito de prejudicar o insuspeito galã e seus amigos. Fazia par com o Sonso, o outro duende de coração bem menos malvado. Por tudo isto, apraz dizer que é possível beber um vinho e falar sobre múltiplas coisas. Se o vinho for, é claro, interessante. Como é o caso.

terça-feira, Setembro 09, 2014

Maria Papoila

A foto, ou outra muito parecida, que ilustra o fascículo de hoje já andou pelas redes sociais. Registou, naturalmente, um mero acto de veraneio, descomprometido. De qualquer forma e independente disso, urge reforçar, agora, a surpresa e admiração com que fiquei, quando meti os primeiros tragos do dito pela boca abaixo. 


Outra questão que também importa registar, e também agora, é que ao fim de muitos vinhos bebidos, perdoem-me a alarvidade e a pouca elegância enófila, começam a serem raros aqueles que, efectivamente, nos prendem, acabando por ficar registados para memória futura. Há uma normalidade que enfastia, que cansa, que desmotiva.


E este vinho que não faço ideia se é ou se estava para ser algo extraordinário, de topo ou coisa que o valha parecida, continua a matutar na cabeça. Eventualmente, e parece que há vozes dissonantes, terei exagerado. Pessoalmente foi um vinho marcante pela profundidade de aromas e sabores, por ter algo que estava fora do baralho, da norma. Rematando, voltaria a insistir nele e creio que não ficaria defraudado.

segunda-feira, Setembro 01, 2014

Batuta

A poucas horas de encerrar o playground e regressar ao dia-a-dia de sempre, aos assuntos e temas que alimentam a minha boca e a dos meus, e curtindo os derradeiros momentos de brincadeira, nada mais do que registar (aqui) que costumava perder algum tempo com as orquestras filarmónicas comandadas por Leornad Bernstein e Herbert von Karajan, quando surgiam no ecrã. Não comparem com os eternos e massudos concertos de ano novo, de que nunca consegui ser fã. 


Devo dizer, antes de mais, que ouvia e via, porque apreciava a postura dos dois ao dirigirem dezenas de homens e mulheres. As suas presenças eram marcantes e as batutas, nas suas mãos, marcavam o compasso, dizendo quem mandava ali.  Eram expansivos e exuberantes. Mais o segundo que o primeiro.


Se fizermos a transposição para the real life, e por muito esforço que se imprima, ter uma batuta nas mãos não está destinado a todos. Mandar, organizar, destinar, projectar, são tarefas para poucos e não para muitos. Pode-se querer ou até ambicionar, mas não se consegue. Apraz dizer que vale mais ser um bom tocador de ferrinhos do que outra coisa qualquer.

quinta-feira, Agosto 28, 2014

Carregar uma Carroça

Ao rever o álbum de fotos que fui sacando, durante estes largos dias, há uma que fixou-me por breves segundos. É, para quem olhar para ela, uma simples foto de uma casa qualquer. Na verdade, para quem não sabe o que é e o que ela representa, não é mais do que isso: uma simples foto de uma casa foi amarela


Mas a foto possui algo de intimo, de muito pessoal e familiar. Trata-se de um espaço, de um dos cenários escolhidos por Vergilio Ferreira para algumas das suas obras. E por entre tantas passagens, vivências e conversas com algumas das suas personagens, que aconteceram por entre os domínios da casa, surgiu-me uma expressão, uma afirmação, uma consideração, uma citação, o que seja, na cabeça e que não pára de martelar incessantemente: "É mais difícil ser livre do que puxar uma carroça." Será por isso, que no final de tudo, preferimos carregar com carroças ao lombo. É muito mais fácil.

quarta-feira, Agosto 27, 2014

Anos Menores ou Inaptidão?

Constatação pessoal: começo a reparar, já algum tempo o fazia, que de anos menores, por múltiplas razões, surgem vinhos com enorme interesse, com enorme carácter, com grande potencial, com  uma personalidade bem vincada. Que apetecem beber.


Fica a (minha) convicção que, independentemente do ano e das contingências do mesmo, podem, por isso, surgir bons ou muito bons vinhos. O muito antes do bom, fica ao vosso critério. Depende do grau de doutoramento de cada um e do que procuram.


Tenho a impressão que em anos menos bons, vê-se quem consegue dar a volta ao texto. Dito de outra forma: ou se tem aptidão ou não.

domingo, Agosto 17, 2014

Quinta da Pellada

Um post que serve, antes de mais e de tudo, para desenferrujar os meus dedos em plena seally season. Nada mais que isso. Na verdade, o post em si é mais uma constatação pessoal e não outra coisa qualquer mais profunda. 


Digamos que é, também, um acto de partilha para quem vai lendo, aqui ou além, o chorrilho de disparates que regularmente vou largando, em jeito de poluição visual. Adiante no assunto.


Quando se fala que determinado vinho se bebe aos copos, que escorre pela garganta de forma viciante, não é desclassificá-lo, não é torná-lo menor. É precisamente o contrário. Revela que foi projectado de forma correcta, com um objectivo bem definido. O desiderato de um vinho é, no fundo, ser bebido. O resto são deambulações, mais ou menos, intelectualóides.


E este vinho que ilustra este furo dominical de domingo, encaixou no conceito: vinho para se beber aos copos: fresco, leve, elegante e sei lá mais o quê. Vinho que desaparece(u) da garrafa num ápice.

sábado, Julho 26, 2014

Aliás ou de Outrora?

Não quero tecer grandes considerandos sobre o(s) vinho(s), isso é matéria que há muito abandonei. Deixei de ter paciência, tempo, disponibilidade mental para tal. Quero, antes de zarpar para férias, registar publicamente nesta tabanca de esquina, e para sempre, que gostei francamente deste vinho.


Gostei, por que gostei, porque gostei da imagem, do estilo, da sua suavidade desconcertante, pelo seu equilíbrio, pela sua finura de trato. Depois, e reforçando ainda mais, fiquei saudavelmente chocado pelo seu baixo nível de graduação alcoólica. Atrevo-me a dizer que é efectivamente um vinho de outrora, ao arrepio da actualidade. Terminada a garrafa, ainda penso no que bebi.


E se porventura algum de vocês não estiver de acordo comigo, como sempre, nas palavras que desenrolei à vossa frente, não se preocupem, não liguem. Pensem, em apenas, que são palavras de alguém despreocupado, desligado e desbragado, que bebe carregado de emoção e sentimentos, sejam eles bons, maus, alegres ou tristes. Não se esqueçam que tudo se resume a uma mera questão de opinião, de perspectiva, de pluralidade. De sim ou de não.

quarta-feira, Julho 23, 2014

Ao Avesso e do Avesso

Há projectos que criam empatia por alguma razão ou por nenhuma razão. Outros nem por isso e de outros afastamo-nos. As razões estão sempre no subconsciente, no emocional, no (in)justificável. Mas queira-se ou não, diga-se o que disser, as relações humanas definem os nossos interesses. E quem pensar o contrário, desengane-se. Há-de ser sempre assim e assim há-de ser sempre. Por isso, continuo a divertir-me com pretensas isenções, com as novas paixões, com o que se vai dizendo por todo lado. As pérolas, essas, que pensava estarem esgotadas, surgem em catadupa. Na linha da frente, e apesar de algumas mudanças nas trincheiras, tudo se mantém inalterado. 


Por isso, e justificando o preâmbulo, devo dizer que por causa deste homem, o interesse na Quinta de Covela redobrou. Pela sua simpatia, pela sua amabilidade, pela sua humanidade, pela sua alegria, fez ganhar mais um adepto: eu.


Podia dizer que estava ou ando ao Avesso, mas não estou e não ando. Existe, apenas, um enorme desejo de liberdade e de franqueza, nem que por isso tenha que virar tudo ao Avesso. E como devem esperar, neste momento, a garrafa já foi virada não ao avesso, mas de baixo para cima. Várias vezes.

terça-feira, Julho 22, 2014

Lisboa ou Vinhos Atlânticos

Não sei se é o pronuncio de alguma coisa, mas o que posso dizer é que nos últimos tempos tenho olhado com atenção bem redobrada para os vinhos brancos de Lisboa. E antes que continue a desenrolar a homilia, devo dizer que apesar de bem esgalhada, do ponto de vista turístico, a denominação faz-me, ainda, alguma espécie. É que percorro Lisboa e não encontro vinhas. Mas porque posso dar-me ao luxo de poder inventar a meu belo prazer as mais disparatadas expressões, de escolher outras coisas e mais algumas, prefiro chamar-lhes Vinhos Atlânticos. E se dobrarmos para inglês, olhem que não fica mal: Atlantic Wines. Parece-me mais exclusivo, mais diferenciador, mais alternativo.
Paulatinamente e de forma gradual, começo a cimentar a ideia que teremos, ou poderemos vir a ter, que digam os verdadeiros peritos na matéria, um pólo com muito interesse para quem gosta de variar um pouco.


Toda aquela língua de terreno com silhueta feminina, ventosa, com nevoeiros matinais, que leva com o mar dia após dia, confere aos vinhos uma frescura acentuada, um carácter marítimo bem vincado. 
Fica, também, a minha convicção, que os produtores, no geral, começam a ter um propósito, um foco, uma intenção, um objectivo. A coisa parece prometer. E nós, apesar dos bolsos desfalcados, lá teremos que gastar mais umas moedas. Basicamente dividir o parco espólio. Sobre os tintos, salvo uma coisa ou outra, a história é um pouco diferente.

terça-feira, Julho 15, 2014

Lavradores de Feitoria@Memmo Alfama

Foi saudavelmente uma apresentação cheia de alegria, carregada de boas ondas, num lugar mais que perfeito (Memmo Alfama) para tomar conhecimento dos novos vinhos brancos da Lavradores de Feitoria. Um espaço magnifico, bem decorado, bem enquadrado na paisagem pitoresca de Lisboa.


A forma e o feitio da apresentação pareceu-me a ideal, quase provocatória e bem arriscada. Diria, e perdoem-me eventuais falhas, rara.  Ouviu-se pela mestre de cerimónia, apenas e bem: desfrutem. E, assim, foi feito. Para quem não se sente confortável ou não está habituado, é ou era capaz de ficar, sei lá, à nora.

Olga Martins:  CEO e Directora Comercial da Lavradores de Feitoria e que foi considerada a Executiva do ano em 2013 pela Máxima Mulher de Negócios.



Apostou-se na informalidade, na liberdade, em que cada participante podia fazer o que lhe desse na tola: sentar-se e apreciar a vista, ficar calado ou conversar com o vizinho do lado, rir e sorrir, dizer o disparate mais deslocado que possa existir. Nada de apresentações taciturnas, demoradas e prolongadas, cheias de nuances técnicas, empachadas de lugares comuns e egos.






E por entre petiscos, boa disposição, muita alegria, os vinhos foram rodando pelos copos e os comentários, esses, pareciam mais livres e genuínos. Sem medos, sem receios e com os sacra-caderninhos bem discretos, o people falou com quem quis e da forma que quis. 



Sobre os vinhos, e não querendo tecer longuíssimos comentários, diria que estão focados para a época (quente). Com fruta, para se beberem jovens, em regime de esplanada, picando uma coisa aqui ou outra acolá. Vinhos com urbanidade, cosmopolitas, citadinos. Regista-se a curiosidade do Colheita Tardia e do Riesling que resulta de uma parceria com o Chef Rui Paula. E, contradições à parte, gostei deles

quinta-feira, Julho 10, 2014

Rebater Teses

Um post telegráfico que serve, além de engrossar o arquivo do blog, para dignificar o mesmo. Posto isto, cabe-me afirmar sem rodeios ou qualquer pudor, e porque já viram a foto a rodar pelas redes sociais, que este vinho encheu-me as medidas. Não sei se foi por causa do momento, da altura, da ocasião (não havia nada para festejar ou lembrar), mas soube-me pela vida. 


Um vinho que, vejam lá, pertence ao tal ano quente de dois mil e três e que, vejam lá outra vez, tem mais de catorze por cento de graduação alcoólica. No momento, em que o vinho ia escorrendo, pareceu-me que as teses anti-graduações elevadas deixavam de ter qualquer sentido, tal como desconfiar de um vinho por causa de um ano mais ou menos complicado, pareceu-me, mínimo, preconceituoso. Apraz dizer que este vinho rebateu, no tal momento, algumas das ideias pré-concebidas que se vão instalando, muitas vezes, sem qualquer sustento técnico.