quarta-feira, março 25, 2015

Ribeiro Santo Encruzado: Esclarecer o Vizinho

Hoje resolvi, logo pela manhã, esclarecer o meu vizinho do lado, porque o da frente não liga, de todo, a vinho. Na verdade não tenho muitos vizinhos para elucidar sobre as melhores compras, os melhores vinhos e as tendências a seguir. 


Num puro acto de altruísmo e imbuído de elevado nível de conhecimento sobre a matéria, toquei à porta do referido vizinho do lado. Para se situarem geograficamente, é o vizinho da direita. 
Evitando palavras mais ou menos complicadas, mais ou menos estranhas, disse-lhe que era uma pinga bem porreira, muito mesmo, e que se bebia num ápice. Disse-lhe, se a memória não me falha, que o vinho não era nada pesado, era bem fresco, e que escorria pela goela de forma muito célere, sendo que uma garrafa podia não ser suficiente. 


Por momentos, ainda tive a tentação de mostrar ou puxar pelos galões, mas, vá lá, contive-me. O vizinho do lado, aquele vive à direita, apenas retorquiu, meio ensonado, o seguinte: leva mas é o vinho para o próximo petisco

quarta-feira, março 18, 2015

A (des)Ilusão

A ilusão é uma confusão dos sentidos que provoca uma distorção da percepção. A ilusão pode ser causada por razões naturais ou artificiais. Uma vez que a percepção é baseada na interpretação dos sentidos, as pessoas podem experimentar ilusões de formas diferentes.
As ilusões são como as sombras chinesas, em que julgamos ver, se o marionetista for um tipo habilidoso, as figuras a dançar, a rir, a sorrir para nós, só para nós. E a vida está cheia de ilusões, de percepções erradas que a determinada altura, durante muito tempo, julgamos ser as certas. Presos às nossas convicções, tal prisioneiro da caverna, vamos vendo o que julgamos parecer certo ou errado. 


A trama aumenta quando vemos que o que era não era, de facto. Que tudo não passava de uma ilusão, de uma visão distorcida do que pensávamos ser. A realidade, seja ela qual for, está cheia de insidiosos interesses, de acordos contranatura, de estranhos conluios, de subserviências, em que o ser humano se vende ou se compra por um meio soldo. Percebe-se que o privado é o espaço da presumível pureza, do peito aberto, ou se calhar do engodo para os incautos. Em público, com o receio de ser apontado, finge-se, ou não, que a coisa é completamente diferente. Perante esta dualidade, crê-se que o que acontece em público é o verdadeiro, despido de qualquer romantismo, de qualquer ilusão. E maldito seja o vinho que nos solta a língua em demasia e nos ilude com tanta coisa.

terça-feira, março 17, 2015

Dos tempos da boémia

Episódios. Mais um. Alguns anos atrás em pleno interior beirão, era costume, regularmente, juntar-me com uma pandilha local e dedicar-me de corpo e alma a um conjunto de prazeres desbragados, em que a comida e a bebida eram colocados ao nível de um qualquer culto religioso. Tudo, quase, era levado ao extremo. O extremo era o que cada um aguentava. E o exemplo era la grande bouffe


A pândega era, portanto, levada a sério. Não se admitia ou admitiam personagens que ao coberto de regras de boa conduta, tinham o desplante de dizer que isto ou aquilo fazia mal. Gentes sem mácula, sem qualquer impureza humana. Limpos.


Os dias eram certos ou incertos. Era quando apetecia, quando havia necessidade ou quando, por alguma razão, ficávamos encolerizados com as ordens emanadas lá do ministério. Tudo era justificação para o mesmo. E o vinho, caramba, era sempre branco. Este. Bebia-se até não haver mais, naquele dia.

segunda-feira, março 16, 2015

Terras do Demo e as Serras

Três passagens, três autores. Densos na estrutura, no pensamento, na escrita. Todos intimamente ligados à montanha, às serras, às agruras do tempo. 


"A serra é agreste, primitiva, mas tem carácter, sem dúvida. Comprazes-te em pintar-lhe as virtudes e encantos sem sombras, e não sei eu que te acoime de parcial. As tintas escuras são para o novelista e tens razão. Decerto que eu, ao chamar-lhe Terras do Demo, não quis designá-las por terras do pecado, porque o pecado seja ali mais grado ou revista aspecto especial que não tenha algures. Nada disso. A serra é portuguesa no bem e no mal. Chamei-lhe assim porque a vida é dura, pobrinha, castigada pelo meio natural, sobrecarregada pelo fisco mercê de antigos e inconsiderados erros e abusos, porque em poucas terras como esta é sensível o fadário da existência." 
Aquilino Ribeiro

"Serra!
e qualquer coisa dentro de mim se acalma...
Qualquer coisa profunda e dolorida,
Traída,
Feita de terra
e alma.

Uma paz de falcão na sua altura
A medir as fronteiras:
Sob a garra dos pés a fraga dura,
E o bicho a picar estrelas verdadeiras."
Miguel Torga

"Era a grande montanha a oriente, a sua liberdade espacial, era o bafo quente de um amor perdido, a flor original de uma alegria perdida. E então voltei para lá a minha face molhada, e tudo em mim disse adeus longamente...." 
Vergílio Ferreira


E um vinho profundamente elegante, com uma leveza indelevelmente marcante e contraditória. 

quinta-feira, março 12, 2015

WIJION e o Paradigma da minha Distância

Há coisas tramadas. O distanciamento a que vou votando a minha relação com o vinho e seus enredos, acabam por trazer algumas surpresas. Surpresas que surgem nos momentos mais informais, nas situações mais descontraídas, em que o vinho, seja ele qual for, serve apenas como catalisador de conversa, de relações entre indivíduos. 

Um belo e interessante espumante. Com alguma seriedade e sobriedade. Ocorre-me o seguinte comentário: Sim senhor!

Perplexo, ou se calhar não, com a falta de conhecimento sobre o vinho em causa, levou-me a tentar perceber o que era aquilo. Percebi, entretanto, que boa parte do mundo que se alimenta de faits divers, já tinha conhecimento de causa, o que tornou a minha ignorância em algo, sei lá, giro, saudável, divertido, profundamente libertário. Foi a prova provada de que ando mesmo longe, com a cabeça a vaguear por outros lados.

terça-feira, março 10, 2015

O Vinho de São Cipriano

A história que tenho para contar é, na sua essência, simples e sem grandes rodeios linguísticos ou articulados. 
Certa noite, um tipo vira-se para mim e dá-me um copo com uma boa dose de vinho branco. Sem qualquer introdução, sem qualquer dica ou pista. E porque sou uma língua solta no que respeita ao que penso e ao que acho, comecei a largar para o ar os maiores impropérios. Lá do alto da minha sabedoria saloia, disse que não seria português, que era curtido, que tinha estilo, que era capaz de evoluir bem no tempo, que isto e que aquilo. O rol de apostas, de afirmações taxativas, a dada altura, era tão despropositada que do outro lado, apenas consegui fazer saltar um sorriso paciente.


Mostrada a garrafa, divulgado o nome, cerrei a boca e arregalei os olhos. Ui! Um vinho com um dos nomes mais sugestivos e amaldiçoados que alguma vez vi: São Cipriano. Quase que me atrevo a dizer que a partir do momento que vi o nome, senti-me, sei lá, meio estranho. Talvez derivado do álcool ingerido.


Desvendado o nome, esquecidos os disparates, saltaram à vista algumas curiosidades: a presença de Pinot Blanc, o nome de um produtor, TornaPuro, que desconhecia totalmente e a sensação que aquele vinho iria envelhecer de forma bem digna. Este era da colheita de 2011. E eu tinha gostado. Resumo de tudo isto: mandei vir uma caixa. 

segunda-feira, março 09, 2015

Reviver o Passado: Tapada de Coelheiros

É segunda-feira. Vamos, por isso, a mais um exercício de treino da palavra. É preciso exercitar com regularidade a expressão escrita, jogar com as palavras, com expressões mais ou menos inusitadas, com a pontuação. Tenta-se evitar, deste modo, os tais erros que dizem fazermos com insistência. Acreditem que é uma actividade que devia ser praticada com exaustão, pela maior parte de nós e sem pretensões. E porque hoje o sol parece estar pujante lá no alto, até sou capaz de falar de assuntos mais simples. 


Devo dizer que este vinho pertenceu, no passado, ao meu leque de escolhas. Juntamente com o tinto, na versão colheita ou garrafeira, fazia parte daquele grupo de vinhos que era preciso ter. Diria, sou eu que digo, que pertenciam à fina flor. Depois, também sou eu que digo, eclipsaram-se. Mas adiante.

Colheita de 2012
E castas à parte, aliás nunca consegui encontrar ou descortinar de forma vincada as nuances do chardonnay, diria que, passados largos anos, gostei francamente de (re)beber o vinho. Com alguma austeridade, com uma sobriedade que surpreendeu, ou não. Com uma secura e frescura que o colocava longe das brincadeiras mais leves, perfumadas e inócuas que geralmente vamos bebendo ou comprando, julgando que são o último grito de genuinidade. Apetece, por isso, dizer que foi bom reviver o passado. Os clássicos são sempre clássicos.

sexta-feira, março 06, 2015

20 anos

Bolas, o tempo é tramado. Enquanto ia despejando para o copo e a garrafa ia esvaziando a um ritmo assinalável, dei comigo, já quase no fim, a olhar para um pormenor do rótulo: 20 anos. Ainda em perfeita lucidez, constatei que 20 anos já não é metade da vida que vivi.
 
Uma verdade La Palice: Os vinhos da Madeira são um mundo repleto de grandes vinhos. Um mundo em que há do melhor, mas onde muita zurrapa surge amiúde. Os melhores, aqueles que são marcantes, possuem preços proibitivos. No entanto, surgem alguns, poucos, julgo eu, que escapam a tal proibição.
A velocidade com que o tempo corre, coloca a nu a dureza do envelhecimento. Diz-nos, sem qualquer preparação, que a viagem há muito começou e que fatalmente irá descambar naquela fatídica estação terminal que tentamos evitar. Pelo meio, fazemos tudo e mais alguma coisa para atrasar aqui ou ali a chegada ao destino, ao coberto de falsa ilusão de que iremos conseguir sabe-se lá mais o quê.
 
Este 20 anos da Borges revelou uma complexidade que não estava à espera, com todos aqueles aromas e sabores que caracterizam os melhores. Fiquei, de facto, admirado.
Depois, e ainda com o vinho pela frente, mas não tão lúcido, vejo que parte dos meus 20 anos foram vividos de forma incoerente, repleta de ziguezagues, com uma lista de falhanços que parece não ter fim. É a vida. A minha.
 

quinta-feira, março 05, 2015

Opinião

Todos temos uma opinião e achamos, facto muito natural, que a nossa é a mais correcta, a mais acertada, porque é, perdoem-me a repetição, a nossa. A opinião dos outros tem mais ou menos relevância, se está em conformidade com a nossa ou não. Se for discordante, naturalmente, o valor dela é desprezível ou de pouca importância. Existem opiniões para todos os gostos, para todos os feitios, correntes, grupos ou nuances. Cabe-nos, apenas, vestir a camisola que mais se adequa ao nosso gosto e à nossa silhueta. Se a queremos mais justa ou menos justa. Se gostamos de mostrar a gordura ou escondê-la.


E opiniões ou inclinações à parte, e por muito que não se diga ou se refira, há coisas que fazem espécie. Já agora, coisa é uma palavra é fenomenal. Serve para quase tudo. Bendito português que permite estas jogatanas linguísticas.


Fazem espécie, porque se sente aqui ou ali, julgo eu, alguma injustiça, alguma falta de reconhecimento, seja ele qual for. Porque achamos, lá está, que merece mais atenção, mais dedicação. Maior recompensa. Mas são, lá está outra vez, opiniões.

segunda-feira, março 02, 2015

Muros

Vamos, (in)conscientemente, colocando uma pedra, um bloco em cima de outro. Vamos lentamente subindo a parede, com maior ou menor velocidade, consoante o estado da alma, que julgamos ter. 
Por múltiplas razões, entretemo-nos a reforçar a barreira, elevando-a, de tal forma que o horizonte vai ficando vedado e sumido. 


Coloca-se mais um bloco, cimenta-se por cima dos outros, com intuito, apenas, de criarmos um mundo nosso, protegido das maleitas exteriores, longe de tudo. Passamos a ouvir, somente, sons difusos e incaracterísticos. Que estão do lado de lá. O céu, no alto, fica confinado, apenas, ao perímetro.


Tal criança, num canto do quarto, passamos a brincar em silêncio, vivendo realidades ou irrealidades, onde desempenhamos todos os papéis. Longe do que se passa do outro lado do muro. Protegido...

quinta-feira, fevereiro 26, 2015

Remake: O Produtor vs O Enólogo

Ao realizar uma leitura célere pelos escaparates, durante a manhã, detive-me numa passagem que merece séria reflexão, não por mim, mas por quem faz vinho e vive dele: "...um dia perguntei a José Bento dos Santos qual a marca que os vinhos de uma quinta deveriam ter, se a do enólogo ou a do produtor. Sabe a resposta dele? A do produtor. Eu concordo com ele! Infelizmente, os produtores não assumem as responsabilidades." 
E sem alongar-me mais sobre o assunto, pois corre-se o risco de repetir ideias já roçadas, a convicção pessoal é que a maior parte dos produtores parece não fazer ideia do que faz, o que pretende, se quer assim ou de outra maneira. Já agora, parece-me que toquei neste tema, algures no passado: "Há, não só em PT, qualquer coisa de clube de futebol na gestão de uma empresa viniculturalista (a palavra existe?). Contrata-se, ou tenta-se, o melhor treinador, o melhor enólogo, com o objectivo de ser, aceleradamente campeão. O problema, tal como no futebol, é que o produtor e o presidente parecem saber de tudo, menos do negócio que têm nas mãos. A coisa vai correndo, ou não, enquanto há dinheiro. A porca torce o rabo, quando ele começa a escassear. E a culpa, tal como no futebol, é de quem? É que nem sempre o Mourinho ganha."  


Raros são, portanto, os produtores que trabalham efectivamente a sua marca, que lhe dão um cunho pessoal, que transmitem aos seus vinhos um carácter próprio que os distingue dos outros. Na maior parte, das vezes, dizemos, ao invés, que aquele vinho tem o cunho de determinado enólogo ou assessoria enológica. São vinhos que, em privado ou não, baptizamos, justa ou injustamente, de vinhos de régua e esquadro. Impessoais e comuns. Raros são os produtores que são produtores.
E neste despachar de obrigações para os enólogos e suas equipas, os produtores desresponsabilizam-se do seu papel de timoneiros, de estrategas, de decisores. E os seus vinhos saem iguais aos do vizinho de que, por vezes, falam com desdém. É tramado.

quarta-feira, fevereiro 25, 2015

720 Nuits ou 720 noites?

Alguns detractores dirão que é uma encomenda, um favor, que é um puro acto de lóbi, gratuito e sem sentido. Considerem o que quiserem considerar. Que seja, então, o que for ou o que não for.
Apesar de raramente, ou nunca, centrar-me no vinho per si, devo partilhar publicamente, aqui e para memória futura, que tinha alguma expectativa em relação a este vinho, curiosidade com o que estava ou estaria a ser feito.
Trata-se de um rosé singular, que apesar de estar ainda meio imberbe, arrisco a dizer que temos um vinho com ambição, com intuito de se posicionar num patamar mais elevado. Obter outro estatuto. Transformação que, verdade seja dita, está acontecer noutros rosés.


Fiquei com a sensação, muito pessoal, de que foi imprimido esforço e dedicação para que pudéssemos ter acesso a algo, perdoem-me a expressão estafada, diferente. Terão sido 720 noites? Vinho para beber com calma, com atenção e disponibilidade. Não é certamente para a esplanada, para acompanhar actos fúteis. Com todo este envolvimento, é pena a forma da garrafa. Poderá parecer ser detalhe de somenos importância, mas merece ou merecia melhor vasilhame. Assim, surge-nos incompleto.

Apêndice: Será escusado dizer que sou amigo do enólogo e que ambos fazemos parte de uma pandilha de indivíduos que se diverte a beber vinho e a comer de forma despreocupada.